navegação

águas turvas e agitadas pela frente. não basta a navegação ser longa, ela tem de ser complicada.

para completar a metáfora náutica, descobri hoje a expressão “pacto de Ulisses“. conhecia a história, mas não sabia que ela designava algo na psiquiatria ou coisa assim. da minha parte, tenho um pacto de Ulisses comigo mesmo e com algumas pessoas próximas: não desistir da atual navegação, ir até o final. amarrado no mastro, vendo as piores coisas acontecerem, o canto das sereias me tentando; vou continuar, é a única coisa que interessa.

e é foda.

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sudoku

subindo a 303 Norte, no carro, lembrei de uma viagem que quero muito fazer. quero tanto que tenho um bloqueio quanto a isso e nunca a faço. e ativo o modo Manuel Bandeira, a vida inteira que podia ter sido e que não foi (tosse, tosse, tosse). e invento desculpas para não tomar o xarope e viajar para onde quero. é o bloqueio.

estaciono e desço quatro blocos da comercial para me purgar por meio de batata-doce. a viagem continua na cabeça. subo as escadas, e, quando chego ao térreo, outra viagem me espera. só que eu não esperava dar de cara com essa viagem e o bloqueio vem ao meu socorro.

socorro.

vou para outra prateleira, outra gôndola. a viagem que podia ter sido e não fui. mas não estou numa farmácia, não há xarope à venda… e a xaropice continua. o poema do Bandeira havia dado lugar a uma partida de sudoku, que, agora, dá lugar a uma dose de mezcal – que não é xarope, nem é cura para nada.

pego a batata-doce, pago, contemplo a vista e subo a quadra, sem saber para onde ir nas férias. e não tem agente de viagens que me convença desses dois destinos que tanto quero…

como um cartaz de exposição

as duas últimas semanas me foram bastante boas. não existe uma tradução concreta do que aconteceu e eu não comentei com as pessoas – isso porque ainda estou entendendo o que está rolando. diferentemente de outras situações, decidi dar-me um tempo para processar as coisas, diminuir a pressão e as expectativas, fazer de outro jeito.

mas voltemos à primeira frase: está sendo bom, qualquer que seja a interpretação. a minha preferida, no momento, é a de uma sequência rápida de lances de xadrez que se segue a meses sem uma jogada sequer. e mais: de uma partida cujo desfecho vai exigir muitas repetições dessa dinâmica… e cujo adversário não é a morte como no tabuleiro do “Sétimo selo”, nem uma tragédia grega.

falando nisso, existe uma possibilidade – ainda que remota – de uma tragédia grega nesse palco, tabuleiro, ambiente. ou uma tragédia kabuki. mais do que isso, não posso falar.

uma coisa já está garantida: a remissão futura a esse período. como um cartaz de exposição, guardado por anos depois que a galeria a recebeu.

mad sounds

o final de semana já havia sido atípico, para o bem. a semana começou complicada por conta da quebra da rotina, mas você achou que daria conta. não deu, porque o que mais queriam era quebrar sua rotina. e não foi articulado, foi espontâneo e de todos os lados.

e foi assim até agora há pouco: tudo que podia me quebrar a rotina de que eu tanto precisava, quebrou. estou sem saber o que pensar de nada, com um mau humor crônico e sem muitas esperanças no que quer que seja. pode ser que eu meramente esteja a colher o que plantei. duro será decidir se isso é uma safra boa ou ruim.

até para escrever isso está sendo custoso, não estou planejando a próxima frase. queria continuar e falar mais sobre isso, mas o que dizer? nesse caso é sentir, sentir, sentir. não sinto como se pudesse explicar o que está se passando.

seria bom que amanhã (terça-feira, 9 de setembro – sem sentido figurado) fosse um dia mais tranquilo.

voulez-vous

as suas fotos dizem uma coisa, que as suas palavras corroboram em menor grau. mas olho para as imagens, encarando especificamente os seus olhos, e a mensagem que eles me passam é, se não o oposto diametral, um contrário. como se você negasse, inconscientemente, o que espalha por aí.

mas não quero te confrontar com isso. ao contrário, quero um pouco de paz, sob a forma que for. e nem consigo me imaginar discutindo contigo: ficaria a minha palavra contra os seus olhos, a sua vida tão cheia de vida contra os momentos em que você se revela diferente. e não é o caso de culpar a tradução (que não tem culpa), um abismo cultural que não existe, ou o silêncio – que existe, aqui desse lado. então fica como está, você com a sua vida, eu com as suas fotos.

Positano

o fôlego está curto; a boca, seca. dou voltas e voltas em torno de mim mesmo, querendo ganhar coragem e me aproximar. conto até dez, prometo que vou virar esse copo de bebida de uma só vez… e nem assim. ouço uma velha música que fala de esfinges sem usar a palavra esfinge, e nem assim consigo entender.

não estou em paz. não há o que se fazer… mas peraí, há sim. mas antes de virar duas páginas, penso nos custos e não viro nenhuma. fecho o livro – escrito em língua estrangeira que não domino -, e ainda não estou em paz. divagando e postergando, o dia se foi; é noite, e sonhar com ela, mais do que falta de imaginação, é um reflexo.

epsilon

o nome dela combina com outono, talvez por ter ouvido isso em algum lugar. num poema, numa música, num cartão-postal que nunca chegou. ou então ouvi direto dos lábios dela, mas não me concentrei o bastante para processar a informação. o outono chega essa semana e, se for mesmo outono, vai deixar castanhas as folhas e depois varrê-las em várias rajadas de vento, cada vez mais fortes, até o inverno – que nunca é inverno nos trópicos – chegar.

ela já se foi. ficou o nome, ficou a lembrança do dia do aniversário dela, perdido entre dois equinócios, e ficou a lembrança dos cabelos dela, castanhos como as folhas do outono. ela não foi porque quis, quem quis fui eu, sem saber o que queria. o estrago está feito, como se o vento outonal se fizesse furacão e, sem poesia ou musicalidade, varresse e desconcentrasse. até diria que foi assim, mas não sei como foi: eu estava submerso numa tsunami quando aconteceu.

mas as coisas são estranhas. olha o Katrina: fez estragos horríveis num verão, mas a vida se encarregou de reconstruir a Louisiana para outros carnavais. enquanto reconstruíam a vida, as pessoas mudavam. eu mudei. e foi num carnaval de inverno que soube que ela havia se mudado – para perto. não foi obra de uma intempérie, mas dali para a frente o carnaval andou noutro ritmo, a música não disse o nome dela e tampouco havia o que se fazer.

só que aquilo ficou comigo. o nome dela, o rosto dela, o piano que não a vi tocar, o lambrusco que não bebemos juntos. e ela tão longe, tão perto, sem que eu pudesse fazer qualquer coisa – escrever um poema, falar sobre o tempo, fazê-la rir. era simples, e ao mesmo tempo não era coisa alguma. agora o outono está chegando e, mesmo para quem não acredita em quatro estações nos trópicos – meu caso – as folhas revoltas são uma lembrança seca daqueles dias, hoje tão distantes quanto as terras da foto do cartão-postal que ela não me mandou.