transversal do tempo

eu não gosto do meu passado. ou melhor: não gosto de viver de passado, nem mesmo do meu. limitei a minha saudade a uns poucos momentos do que já vivi, seja deliberadamente ou porque parte da minha vida foi, como todas as vidas, uma bosta. minha relação com o passado é uma versão transgênica daquilo que Jay Gatsby sentia, ao não participar das próprias festas, limitando-se a olhar, do outro lado da baía, para a casa onde vivia sua amada, Daisy Buchanan – sendo que Gatsby, como sabemos, comprara sua mansão justamente por causa dessa vista.

ele se limitava a olhar para a casa para reviver o passado, mantendo-se, contudo, longe de qualquer esforço maior. chame de prudência, chame de eficácia: ele sentia não haver o que fazer quanto ao passado e conformou-se com as espiadelas.

estou falando do meu passado porque, esta semana, fui adicionado a um grupo de WhatsApp que organizava uma reunião de 20 anos dos formandos do ensino médio de 1998. uma turma de umas 120 pessoas, divididas em duas salas, com a qual mantive contato com meia dúzia de indivíduos, ou 5%. mas estatísticas pouco importam para nossos sentimentos: o que importa é que, depois que a turma se forma, cada um vai para um canto. quem não estava preparado para virar adulto, se sente órfão.

na virada de 1998 para 1999, eu não estava pronto.

mas isso, evidentemente, não é motivo para ressentimento ou inferioridade: se o livro do Eclesiastes diz que há um tempo para tudo, tive o meu para crescer, poucos anos depois. e sinto que, com todos os meus defeitos e meus problemas de 2018, não trocaria a minha vida de agora por uma volta a 1998, nas mesmas circunstâncias. formative years were a drag but we passed the time somehow, como sintetizou, em 1994, o poeta. tive minha quota desses anos, não quero reviver isso.

e é o que a vida traz: há vinte anos, essa turma era a minha vida. hoje, somos pouco mais que desconhecidos ligados por uma memória comum, o último barbante que não deixa a corda romper, o pico esporádico na tela do eletrocardiograma, cada vez mais distante. isso me causa desconforto, embora leve: não chega a ser motivo que enseje massagem cardíaca ou outro procedimento, esteja o paciente com 17 ou com 37 anos.

no grupo do WhatsApp, os papos se restringem às memórias partilhadas do período entre 1996 e 1998. como eles, tenho as minhas, mas não falo. porque o significado delas, para mim, talvez seja tão pequeno que eu não saiba como abordar isso. e não quero jogar água no chope de ninguém, muito menos daqueles cuja estima por esses momentos ainda seja relevante. o que incomoda, talvez, é o fato de que não falam de suas trajetórias depois daquilo, do que aconteceu em suas vidas, do que se tornaram. não gosto de quem se prende ao passado, ainda que seja o elemento de coesão que nos caiba.

estou confinado a Brasília até o final de outubro e, logo depois, devo viajar. a reunião da turma está marcada para o início de setembro, realmente não tenho como ir; tornada impossível a minha ida por questões incontornáveis, não precisei me preocupar em saber se gostaria ou não de ir. talvez sim, talvez não: um dia e meio depois dessa história começar, nada concluí. será que gostaria de reencontrá-los? será que acharia constrangedor? será que haveria muitos silêncios, pontuados pelo small talk protocolar que nos transformaria de amigos em desconhecidos, como os vizinhos que encontramos no elevador e com os quais nunca falamos nada além da meteorologia e das taxas condominiais?

é o preço com o qual nos defrontamos quando o tempo passa, com juros vorazes a incidir ano após ano. a questão é saber se o reencontro é uma amortização ou uma taxa extra. e nem acrescentei à álgebra o fato de que não gosto de voltar a Deprelândia, bastante conhecido (talvez não pelos colegas de 1998).

às margens do small talk do grupo, quatro amigos me mandaram mensagens privadas, para saber como estou, o que tenho feito, essas coisas. por essa parte, já valeu. e teve um quinto amigo, cujos altos e baixos foram motivo para nossa aproximação naqueles anos, que procurei e quis saber se está bem. nas curtas respostas, constatei que as oscilações ainda estavam ali, e provavelmente estarão para sempre, porque esses altos e baixos são ele, mais do que qualquer outra coisa que eu possa dizer. não que só eles importem, mas, no meu conservadorismo liberal que ainda não se havia manifestado em 1998 (eu era comunista e assim o fui até 2003…), sou um cara de varejo, não de atacado.

depois desse solilóquio sobre o tempo e as pessoas (e sobre o tempo das pessoas em sua vida), é isso: não vou à reunião de 20 anos, por motivos alheios à minha vontade. de onde estou, entretanto, o Jay Gatsby aqui pretende abrir, no dia, uma boa garrafa para brindar a isso, livre do eventual desconforto que um tête à tête poderia trazer-me. e talvez eu vá à próxima reunião, de 25 ou 30 anos, se as circunstâncias me permitirem. alguém pode dizer que, se eu quisesse, abriria tempo na minha agenda para ir até lá, mas meus amigos mais próximos sabem que, por conta da vocação monástica a que me entreguei em 2013 (e cujas raízes remontam ao ensino médio), não vai rolar.

aos colegas, um brinde. e espero que, para além de lembrarem daqueles tempos (não tão bons, mas importantes), falem do que veio depois e, principalmente, do que nos espera. em 1998, eu ainda ouvia Titãs, e, como dizia Torquato Neto em “Go back”, que por eles foi musicado, “a madrugada mudou / e certamente / aquele trem já passou / e se passou, passou / daqui pra melhor, foi”.

p.s.: houve um intercambista americano na nossa turma de ensino médio, do qual me recordava vagamente (ele só fazia algumas aulas comigo). soube, pelos papos no grupo, que o cara suicidou-se nos EUA, anos depois de voltar de Deprelândia. e que deixou um bilhete pedindo para que parte de suas cinzas fossem espalhadas nessa wasteland tropical, onde, pelo que se depreende, ele teve alguns anos felizes.

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Colares

uma nota triste de 2016 da qual só soube agora: o ano passado, que levou dessa Terra tanta gente boa, foi também o último do Barão Bodo von Brümmer, o viticultor mais foda de Portugal. morreu aos 105 anos, antes que eu o pudesse conhecer (e eu queria).

descobri-o lendo essa matéria da revista de bordo da TAP, num voo que me levou de Berlim a Lisboa, em 2014. chegando à capital portuguesa, fui à Garrafeira Alfaia buscar os vinhos que havia pedido ao Pedro, dono da loja, que me selecionasse para levar ao Brasil. pedira doze garrafas, à livre escolha dele, com apenas uma condição: uma delas deveria ser de Colares, nas colinas de Sintra, uma pequena região demarcada que produz os vinhos mais raros de Portugal. e a história do barão suíço que, desenganado pelos médicos, viera morar em Portugal há mais de quarenta anos era espetacular.

chegando à Garrafeira Alfaia, perguntei ao Pedro se o vinho de Colares que estava na minha relação era da vinícola do Barão Von Brümmer. e, sim, era: um vinho da Casal de Santa Maria, um pinot noir (infelizmente, não era o ramisco) vindo de uma vinha plantada em pé franco na areia, imune à filoxera – inseto que devastou a viticultura europeia no final do século XIX e início do XX. todas as garrafas que trouxe dessa viagem de três anos atrás já se foram, exceto por este Casal de Santa Maria, que está prometido para ser aberto com o Jonas e a Elisa, em uma certa ocasião – assim que se concretizar a coisa de que trato nos posts imediatamente anteriores.

aqui tem um vídeo do Barão Von Brümmer, gravado em 2012. ainda quero provar os ramiscos e malvasias do Casal de Santa Maria e de outros produtores de Colares. por ora, um minuto de silêncio pela vida fantástica que ele teve. aliás, em consonância com o post de hoje cedo, o Barão Von Brümmer tornou-se viticultor AOS NOVENTA E CINCO ANOS, depois que teve um estalo, num leito de hospital, depois de uma cirurgia. e eu aqui, encucado com a ideia de, aos 35 anos, estar velho para certas coisas…

coisas que eu nunca te disse #111

Aquele que teme a morte teme tanto a inconsciência quanto outros tipos de consciência. Se você não tiver mais consciência, você também não terá consciência de nada ruim. Se você passar a ter uma consciência diferente, você será um ser diferente e a vida não cessará.

Marco Aurélio, imperador romano. visto aqui. gostei muito dessa passagem.

coisas que eu nunca te disse #108

I’m free now to direct a movie
sing a song or write a book about yours truly
how I’m so interesting I’m so great I’m really just a fuck-up
and It’s such a waste to burn down these walls around me
flexing like a heartbeat we don’t like to speak
don’t talk to me for about a week I’m sorry it just hurts to explain
there’s something going on that makes my guts ache
I got guilt I got fear I got regret
I’m just a panic stricken waste I’m such a jerk

I was honest I swear the last thing I want to do
honest I swear the last thing I want to do
is ever cause you pain

(Morphine, “I’m free now”, 1993. uma desconcertante radiografia da minha alma)

sentença

numa das noites do carnaval, fui com alguns amigos (Otto, Dirceu, Estêvão e respectivas, além da prima do Dirceu e o respectivo dela) ao Beirute Norte. a coisa deve ter começado por volta de nove horas, e foi seguindo: é bom estar com os amigos a qualquer momento, e mais ainda quando tudo em que você consegue pensar é “puta que pariu”, por uma série de motivos aí.

as horas se passaram, as cervejas também, algumas pessoas foram embora. uma das coisas mais marcantes de se ter trinta ou trinta e poucos anos é que, nessas horas, discute-se muito as próprias vidas, e menos o mundo. claro que a gente fala de política, de entretenimento… mas parece que uma parte substancial daquela coisa de “o mundo todo pela frente, a vida toda pela frente” de uma década antes ficou para trás. falo isso sem amargura, e é apenas minha impressão.

feita essa digressão, voltemos à mesa: começamos a discutir as próprias vidas, na forma de recortes de coisas pontuais. quando chegou a vez de falar de mim, perguntaram-me algo sobre o que escolhi fazer da minha vida*, e eu fiquei um pouco surpreso com o que respondi: disse que fiz a escolha porque gosto de ser o estrangeiro.

parece besteira – e deve ser -, mas ali eu consegui me definir em uma frase, e gostei de ter feito isso com essas palavras. gosto de ser o estrangeiro, de tentar enxergar as coisas estando mais afastado delas (mas não muito). gosto de me sentir diferente, ainda que tenha as vontades e os gostos parecidos. e entendi que a grande questão da minha vida sempre será a de me sentir estrangeiro diante de qualquer grupo, e de um dia estar num grupo daqueles que não têm grupo.

é individualismo? pode crer. é uma visão extremamente libertária? sei lá, não pensei por essa ótica. se for, beleza… e se não for, amém. mas é isso: uma briga eterna contra a homogeneização, ainda que todos por aí, em maior ou menor grau, também ajam dessa maneira.

pavio

Contaram-me hoje uma história divertida, de há uns anos, e que se passou comigo, embora eu não tenha dado por isso. Tratou-se de um caso de tentativa de galanteio (o arcaísmo naquele caso fazia sentido), tudo muito maduro e civilizado, mas que esbarrou, achei eu, num certo desinteresse da contraparte. Não insisti, porque nunca insisto. Pois agora, tanto tempo depois, ela contou a uma amiga comum que «houve um clima», mas que eu não tomei a iniciativa, não voltei à carga, e então ela achou que eu é que me mostrei indiferente aos seus encantos, e pronto, acabou-se. Uma mulheraça, digo-vos eu, que sou esquisito. Depois, cada um seguiu o seu caminho, como é natural, ela casou, ou coisa do género, eu tive uns ameaços e uns fiascos, como é costume. «Mas ela estava definitivamente interessada», garante a minha amiga, com o gozo que o irremediável confere à frustração alheia. E eu lembrei-me de dois versos de Cristovam Pavia: «A virgem não obstou. / E, como era poeta, virgem ficou». Claro que, no caso, não havia virgens, nem poetas, mas gosto do sarcasmo do «e como era poeta» de Pavia, que sugere que a donzela, mesmo «não obstando», estava a bom recato de avanços significativos, tão incompetente se mostrava a criatura de vago cromossoma Y e hipotética propensão estrófica. Trata-se, confesso, de uma oportunidade perdida que ainda agora me contraria um bom bocado, do ponto de vista estritamente sexual; mas a verdade é que, «do ponto de vista estritamente sexual», o arremedo de poeta não constitui um perigo, muito menos um prémio. Eu perdi bastante, ela não perdeu nada, e o Pavia é que se ficou a rir.

esse aí é o post da década, e foi escrito pelo Pedro Mexia. foi publicado no dia do meu aniversário, mas isso já é mera coincidência.