Flandres

nunca estive na Bélgica. pelos relatos de alguns amigos, é um lugar bem bizarro para a pouca extensão territorial, habitado por dois grupos que não se gostam, falam línguas diferentes e, em comum, apenas uma bronca com a tributação holandesa sobre a cerveja, um dos motivos que baseou a secessão da Holanda em 1830. a última notícia que tive de lá dizia respeito ao fato de que o nome masculino mais popular do país, atualmente, é Mohammad, algo que me deixou bastante triste – não apenas pelo futuro da Bélgica, mas pelo do Ocidente todo. a Bélgica é um país middlebrow, pequeno, charmoso e de rica história, mas longe de ter qualquer poder concreto. e, como tudo que é middlebrow, esconde um problema estrutural – no caso, o de se identificar com a União Europeia, sediada em Bruxelas. mas esse texto não é sobre a política belga, tampouco sobre cervejas, imigração ou tecnocracia. queria apenas falar do disco que mais tenho escutado nos últimos tempos, “Hooverphonic with orchestra”, produzido pela banda belga em 2012.

(nos últimos anos, minhas preferências musicais são, basicamente, música clássica, mas há exceções de pop no meio disso: qualquer disco do Morphine, coletâneas de rockabilly, esse disco do Hooverphonic e “Ouh là là”, de uma banda francesa chamada Juniore – que, um dia, pode vir a ser tratada aqui)

música pop gravada com orquestra é o middlebrow musical: há a pretensão de que a orquestra eleve a qualidade de canções bem mais simples que as sinfonias e outras peças gravadas por orquestras. em alguns casos, como o disco ao vivo do Portishead ou “Still life”, do Suede, funciona maravilhosamente bem. noutros, nem tanto. o Hooverphonic começou a carreira como um sub-Portishead, fazendo trip hop sem grande qualidade. logo, contudo, trocou de vocalista e de orientação sonora; anos depois, nova troca de cantora – Noémie Wolfs, a terceira a gravar disco (e a quarta no geral) e que já saiu do grupo, é a que gravou “Hooverphonic with orchestra”, que conheci por causa de “Anger never dies” tocar com relativa frequência na Antena 1.

(o texto está bagunçado, prova de que não sei fazer crítica musical. aliás, crítica de música pop serve para alguma coisa, especialmente de 2000 para cá?)

comecei a ouvir o disco por causa do hit e, surpresa, vi que ele era muito melhor que isso: regravando as músicas de mais de dez anos de carreira com arranjos mais cuidados e outra voz, a banda fez um álbum delicioso. começa de morno para quente, com as três primeiras músicas (“Happiness”, “One two three” e “The night before”); quando chega “Heartbroken”, a quarta, já dá uma subida. mas a coisa ferve em “The last thing I need is you”, em que Alex Callier, baixista do Hooverphonic e compositor da música, mostra que entende a alma feminina muito melhor que Chico Buarque, tão incensado por isso. a interpretação da vocalista é incrível: ela alcança notas altas e consegue a proeza de, sem baixar o nível, passar toda a impressão de raiva da letra, em que uma menina descreve o dia zoado que acabou de ter. peguei a estrada na França (ônibus para Annecy, trem para Avignon, rolê de carro nas imediações de Nice) ouvindo essa música e foi memorável.

o alto nível segue na sequência “2wicky” (primeiro hit da banda, lá por 1996), a já citada “Anger never dies” e, surpresa, surpresa, uma versão ao piano de “Unfinished sympathy”, do Massive Attack, uma das minhas músicas favoritas. é impossível ganhar da original, mas a couve mostra respeito e trata bem a canção.

(fazer versão do Massive Attack mostra que o Hooverphonic saiu do trip-hop, mas o trip-hop não saiu do Hooverphonic)

“Expedition impossible”, faixa nove, é bonita, mas serve mais como interlúdio entre a sequência anterior e a que começa logo depois, em “George’s cafe”, com bela disputa entre metais e violino. a letra fala de um café bad vibe frequentado por gente esquisita e que parece ser o único estabelecimento aberto naquele horário; mais uma vez, Alex Callier faz uma grande pequena letra, e a música me evoca alguma coisa da Belle Époque. em seguida, vem a deliciosa “Jackie Cane”, falando de uma atriz fictícia sobre a qual o Hooverphonic fez um disco conceitual em 2002.

pausa para uma pequena digressão sobre um verso da letra: she looked so sweet but the aftertaste was sour (“ela parecia tão doce, mas o retrogosto era amargo”). “retrogosto” é uma palavra que associo a enochatos, aquela galera que não sabe beber vinho sem longas análises com termos cretinos e muito esnobismo, achando que arrotam cultura; trata-se, mais uma vez, de um comportamento middlebrow – esse pedantismo não é coisa de quem entende de vinho, de verdade. nem de qualquer highbrow, por favor.

já estamos na décima-segunda faixa do disco, e que é o maior hit da carreira do Hooverphonic: a bela balada “Mad about you”, outro clássico da Antena 1. a interpretação com orquestra é maravilhosa e, segundo descobri, tem uma citação instrumental de uns 20 segundos da “Dança dos pequenos cisnes” do Tchaikovsky (um compositor middlebrow?). novamente, Noémie Wolfs dá show na interpretação. e a sequência matadora se encerra com os altos e baixos de “Sometimes”. já teve tanta música boa que, daí em diante, nem precisa mais… o final do disco tem alguns momentos constrangedores, como “Renaissance affair”, mas “Eden” é boa e a última música, “Danger zone”, é maravilhosa – chega até a me deixar com os olhos vermelhos, de vez em quando. e é um dos casos de maior adequação de uma música à ordem do álbum.

(eu não esperava chegar aos 35 anos com os olhos vermelhos por causa de uma música de uma banda belga)

em vários vídeos das músicas de “Hooverphonic with orchestra” no Youtube vi uma galera falando que as músicas do disco poderiam ser trilha sonora de filmes do James Bond – um burguês que gostaria de ter nascido aristocrata, de forma semelhante a um middlebrow que aspira a ser highbrow. só que eu adoro James Bond, por N motivos, e, talvez por isso, nesse momento em que a música, como um todo, atinge níveis baixíssimos de qualidade, recomendo “Hooverphonic with orchestra”, bem como seu suplemento “Hooverphonic with orchestra live”, que virou DVD (infelizmente, esgotado) com veemência.

(p.s.: Noémie Wolfs saiu do Hooverphonic em 2015, e a banda não arranjou, até o momento, uma substituta fixa: o último disco foi gravado com várias vocalistas. pelo histórico, imagino que o pior emprego do mundo é ser cantora do Hooverphonic…)

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traulitada

João Ratão, poeta underground e fazendeiro exilado na casa do chapéu, escreve para lembrar que, ontem, completaram-se 105 anos do nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980). e manda uma frase do dito cujo: “Nada nos humilha mais do que a coragem alheia”.

li isso há cinco minutos e, logo depois, vivenciei isso na pele.

batida de limão

programei-me para aparecer aqui hoje e escrever algo. qualquer coisa, um suspiro poético ou uma outra besteira.

pois são quinze para as onze da noite, minha agenda foi toda zoada e eu tive uma aula pesada que acabou agora há pouco. inspiração? só se for para dormir.

torcicolo

continua fazendo tempo que não apareço. mas já estamos naquela época do ano em que logo estaremos de volta, ao menos por um tempo.

mudei de área no trabalho e está menos pior: as pessoas na nova área não se metem na minha vida particular e não falam alto como regra; tenho flexibilidade de horários muito maior do que antes, o que é crucial para meu projeto paralelo. mais do que isso, não há idiotas crônicos por aqui – na área anterior, havia dois, e um deles era o chefe. a nova área não é uma maravilha e continuo tendo vergonha desse lugar, mas está menos pior, bien sûr. já é um começo.

na real, me parece o prenúncio de coisas boas, no médio prazo. talvez o ano de 2017 não saia como desejado, mas tenho a impressão de ser um bom começo para 2018.

de volta para o presente, uma pena que, hoje, um torcicolo e uma dor muscular em metade das costas tenham aparecido. emplastro Brás Cubas e um relaxante muscular já estão trabalhando para o restabelecimento da ordem.

mitos alimentares

depois de passar um bom tempo fora do Brasil, eis-me de volta a essa republiqueta sem-vergonha. a maior parte desse período foi vivida em França, onde descobri dois mitos alimentares sobre os locais:

– “francês não gosta de hambúrguer” – mentira. em Lyon, há dezenas de ótimas lanchonetes que fazem hambúrgueres deliciosos. metade deles costuma ser montada à americana, com queijo cheddar, bacon, molhos clássicos e coisas do tipo; a outra metade tem toques franceses (queijo chèvre ou reblochon, molhos locais etc).

– “francês não gosta de churrasco” – mentira. meu professor de francês e ídolo, mestre Jean-Jacques Chatelard, disse-me, certa vez, que os franceses não nutriam simpatia por esse “hábito bárbaro”, tanto que usam a palavra inglesa “barbecue”, ao invés de terem uma própria. pode até ser que JJC não curta churrasco, e ele tem crédito de sobra para ter esse tipo de opinião, mas a verdade é que os conterrâneos adoram um churrasco: minha despedida de Lyon e minha chegada em Nice foram, ambas, marcadas por churrascos. o que francês não gosta, na real, é do preço da carne (o quilo do contrafilé custa, em média, 22 euros num açougue lionês).

gatorade

o corpo e a cabeça já estão pedindo arrego. a todo momento. mas agora é que entro na fase de maior esforço, da qual, com sorte, só me livrarei em outubro.

quatro meses de pura neurose e falhas físicas como a de ontem à noite. que Deus me proteja.