afogador

desde 2011, uso óculos o tempo todo: meio grau já é suficiente para sentir o astigmatismo incomodando. nunca tive problemas com óculos e até acho legal. mas, ultimamente, percebi que usar óculos me impede de fazer um facepalm caprichado. assim sendo, o jeito é apelar para o princípio de que a ignorância é uma bênção e tentar não ter muito contato com a vergonha alheia.

mas a gente é gente, né?

Anúncios

Salamanca

hoje, eu estava usando uma camisa vermelho-vinho. quando cheguei em casa, ao tirá-la, percebi que Julieta Nibelunga, a minha gata, estava por perto. tirei a camisa e resolvi chacoalhá-la bem lentamente, para saber se é possível tourear um gato.

Julieta deve ter achado tudo isso um saco e saiu correndo.

onipresença (ou: setembro ao inverso)

o horário de verão se foi em meados de fevereiro, mas é agora que o bicho começa a pegar. os dias mais curtos e a (pequena) baixa na temperatura, com alguma chuva ainda rolando no meio do mês de abril do ano da graça de 2018, deixam tudo um pouco melancólico. mas não reclamo: gosto disso. como cereja do bolo, ainda tem aquela missão espinhosa a que me dedico.

nos últimos dias, face à necessidade de trilha sonora para ouvir enquanto mexo em uns textos, enquanto trabalho de casa, fui para o Youtube procurar algumas playlists longas de música amena. tenho o Spotify, mas ainda não mexi nas listas que outros usuários fazem por lá. acabou que caí em umas listas de bossa nova, aquelas cheias de medalhões, cujas letras se aprende, involuntariamente, desde criança.

todas, ou quase todas, tinham as “Águas de março” no meio, na versão mais conhecida (e definitiva). ouvindo essa música repetidas vezes em um intervalo de tempo relativamente curto, dei-me conta de como gosto dela e do disco em que ela está (“Elis & Tom”, de 1974). comprei o disco há mais de dez anos, quando foi reeditado numa versão à altura de seu conteúdo, e agora voltou a ser executado por aqui. não é mais março, o verão já acabou, mas as chuvas e o disco permanecem.

esse cenário melancólico é meio que uma versão invertida do mês de setembro, aquele em que Brasília é de uma aridez desgraçada e que, por isso, a melhor trilha sonora é mais pesada. independente da temperatura, abril marca o começo da fase mais pesada do ano, e a mais ingrata. sei que é uma fase, sei que uma hora acaba. esse post é apenas para marcar uma respirada funda antes de descer ao inferno em mais uma Cruzada, contra os mesmos demônios, que se repete ano após ano.

espero eu ter resultados diferentes dessa vez, e não repito a mesma fórmula. mas tenho pânico daquela frase que diz que “a definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes” – e que não é do Einstein. insanidade, mesmo, é se forçar a reinventar-se de tempos em tempos por conta dessa frase.

mas essa neurose não combina com bossa nova, nem com o clima quase ameno que faz agora. então, deixa eu voltar para a minha missão.

bandeira branca

tenho preguiça de quem usa aquela linha para se descrever a sério em alguma rede social. acabei de ver uma foto bonita no Instagram; cliquei no perfil da fotógrafa e lá estava ela se definindo como globe-trotter. que preguiça que me deu. sim, é rabugice de um senhor de 36 anos, mas, se vejo dez fotos de lugares distantes no Instagram de alguém, já presumo que se trata de alguém que gosta de viajar.

outra preguiça do mundo digital: nesses aplicativos de dating (que as meninas não usam para achar alguém), vejo que elas postam um monte de fotos em lugares que não são o Plano Piloto, além de fotos voando de asa delta, pulando de paraquedas, mergulhando. zzzzzzzzzzz.

mas qualquer coisa que eu escreva aqui sobre isso é pouco perto da precisão cirúrgica do mestre Joaquin Teixeira, conforme se depreende desse tuíte aqui.

jantar

na sexta-feira passada, fui convidado para um almoço no quartel-general de Bacco & Bocca. mal imaginava que comeria, naquela tarde algumas das maiores delícias da cozinha piemontesa e que tomaria vinhos espetaculares – inclusive os quatro melhores brancos da minha vida.

sim, eu bebi os quatro melhores vinhos brancos da minha vida em uma só tarde, praticamente um após o outro.

na culinária, foi uma surra: alcachofras, bagna cauda, carne cruda, risoto. na enologia, idem: a cada garrafa aberta, sentia vontade de dar pulos, de tanta surpresa. levei um Saint-Véran básico e uma champanhe rosé (Devaux Œil de Perdrix, caso interesse). bebi meu primeiro grand cru da Borgonha, um lindo Corton-Charlemagne, o melhor Gavi da minha vida (Minaia, do Nicola Bergaglio), um Puligny-Montrachet perfeito, um Chassagne-Montrachet delicioso. e aquele milagre chamado Tondonia Reserva Blanco. e dois Barolo, ainda por cima.

cheguei no almoço ao meio-dia e vinte, saí de lá perto das cinco da tarde, em êxtase. o Puligny-Montrachet me ficou na boca até o dia seguinte, apesar dos litros de água para rebater e de ter escovado os dentes umas três vezes nesse período.

demorei a escrever sobre esse dia porque fiquei desnorteado com o almoço. na verdade, ainda estou um pouco assim. papo bom, comida e vinho à altura: não precisamos de muito mais coisas na vida.