cama e comida 5

no post anterior, mencionei que os montes Apeninos, colados à costa, fazem com que a presença de túneis seja uma constante na autoestrada A12, que margeia a riviera lígure; rumo ao Piemonte, Bacco e eu pegamos um bom trecho dessa estrada, de Santa Margherita Ligure até um pouco depois de Gênova – desviando, inclusive, daquela ponte que caiu um tempo atrás e ainda causa transtorno no trânsito da região. ao entrarmos na A12, Bacco me sugeriu que contasse a quantidade de túneis que pegaríamos até sairmos da autoestrada e assim o fiz: foram setenta.

em uns cento e dez quilômetros, setenta túneis. pois é.

mas o propósito da viagem não era, evidentemente contar túneis, mas aprender um pouco sobre os vinhos e a gastronomia piemontesa. não dá nem para dizer italiana, porque as Itálias são muitas e, para que conheçamos a península Itálica por alto, precisamos de algo em torno de quatro encarnações. o Piemonte, responsável pela unificação daquele soqquadro todo em meados do século XIX, era a meta imediata. e Bacco, provavelmente a maior autoridade na cultura enogastronômica da região a viver no Brasil, era o guia perfeito.

nossa base foi a cidade de Alba, que, com seus 32 mil habitantes, não é nenhuma metrópole. mas, com dezoito restaurantes com estrela do guia Michelin em seu território ou nas imediações, seis denominações de origem controlada para vinhos, as trufas mais renomadas do mundo e a fábrica da Ferrero (que tem, sem exagero, uns dois quilômetros de extensão), Alba é maiúscula quando o assunto é comer e beber bem.

antes de pisar em Alba, contudo, fomos direto à joia da coroa enológica piemontesa: as vinhas do vilarejo de Barolo. embora vinhedos de onze comunas possam plantar uvas Nebbiolo que produzam um vinho com o nome de Barolo, só uma delas, com uns setecentos habitantes, é que se chama Barolo mesmo. naquele domingo nublado, passamos brevemente por lá e depois por Serralunga d’Alba, onde conheci a pitoresca sede da vinícola Fontanafredda, uma das maiores da região. Bacco me explicou que, nos terrenos em que não rola de plantar Nebbiolo para Barolo ou Barbaresco, plantam uvas para outras DOC (Barbera, Dolcetto, Moscato ou a própria Nebbiolo), mas há terrenos que nem para isso servem, como os bem lá de baixo; nesses, plantam castanheiras, e as avelãs costumam abastecer a produção de Nutella ou genéricos.

com fome, saímos da Fontanafredda (cheia de turistas alemães) e rumamos para Verduno, onde fica um restaurante de que Bacco sempre falou maravilhas, o Dai Bercau. falar dele sem ficar com água na boca é a coisa mais difícil que me passa pela cabeça nesse momento, já que devo ter feito a melhor refeição da minha vida lá. comi de tudo: pães assados na hora, grissini, carne crua à piemontesa, cogumelos fritos, um antepasto com anchova, ravióli, panna cotta. por tudo isso, e dividindo uma garrafa de Pelaverga (um tinto produzido pelos irmãos Alessandria a uns 600 metros do restaurante – buy local!), paguei 30 euros. tinha o desconto que Bacco sempre consegue por ser habitué? tinha. mas não pagaria mais que 40, provavelmente. e ainda seria pouco, pela qualidade do almoço.

empanturrados, fizemos o check-in no hotel em Alba e descansamos pelo resto da tarde. à noite, um aperitivo com champagne Drappier numa enoteca famosa do centro da cidade, cujo nome me esqueci, e mais novidades para o meu paladar: depois de ter provado um Pelaverga pela primeira vez, foi a primeira vez de beber um Grignolino, da vinícola Braida, no jantar. e o prato principal, escargots, também me foi uma novidade (gostei!).

os dias seguintes foram de passeios semelhantes: Neive, a mais bela aldeia entre aquelas que produzem Barbaresco; vinhas deslumbrantes, com destaque para as lindas folhas das parreiras de Dolcetto; o Barbaresco perfeito (Massimo Rivetti), bebido na loja de vinhos local. subimos e descemos inúmeras vezes as colinas das Langhe, cruzamos e descruzamos o rio Tanaro. como disse, pela primeira vez, minhas férias tiveram foco no rural e nas pequenas cidades, e não nos grandes centros urbanos. e foi fantástico.

também preciso falar que, pela primeira vez, fui a um restaurante com estrela Michelin no momento em que lá estive: o La Ciau del Tornavento, em Treiso. Maurilio, proprietário e chef estrelado, é amigo de Bacco e lhe é muito grato porque nosso amigo comum mandou para lá hordas de brasileiros ao longo dos anos, especialmente quando o real valia alguma coisa. a comida do La Ciau é ótima, em especial as entradas, mas teve um pequeno problema: o almoço no Dai Bercau, dias antes, fulminou qualquer comparação – e custou a metade.

mas o La Ciau del Tornavento não vale o que custa, então? vale. mas a comida, ali, é apenas parte da coisa: desci até a adega, onde ficam cerca de 70 mil garrafas de vinhos, um tesouro de milhões de euros. o sommelier peruano nos indicou um Gavi, do produtor La Toledana, que foi o melhor Gavi que já bebi na minha vida – melhor até que o fantástico Minaia, do Nicola Bergaglio, e que meu estimado Broglia; a vista que se desfecha sobre as colinas das Langhe também é fabulosa, embora, no dia, a neblina tenha encoberto boa parte da vista.

aproveitando a presença do amigo, Maurilio nos trouxe uma taça de um branco fantástico como cortesia. Bacco levou a taça ao nariz, e, impressionado, provou. o vinho era de um amarelo forte, denso, que indicava um vinho envelhecido – ele arriscou um cru de Puligny-Montrachet com uns quinze anos nas costas e me passou a taça.

pois eu nunca havia sentido aromas tão bons em um vinho. por mim, teria cheirado aquilo pelo resto do dia. mas levei a taça à mesa, girei um pouco e tomei um gole pequeno, depois outro. o vinho era delicioso, sem dúvida, mas, no nariz, era ainda melhor. que era um Chardonnay, eu não tinha dúvida. mas, de onde?

para nossa surpresa, Maurilio perguntou se Bacco conhecia um determinado produtor de tintos da região, cuja propriedade ficava a uns 40 quilômetros do restaurante. sim, conhecia. pois o vinho era do cara, e era um vinho que não era comercializado: todos os anos, esse produtor fazia uma barrique (225 litros) desse Chardonnay, plantado ali, nas Langhe do Piemonte, envelhecido sem pressa nem pretensão, engarrafado em algum momento no futuro e distribuído aos amigos. uma garrafa viera parar nas mãos de Maurilio, e uma taça, em nossa mesa.

como é bom ser bem tratado, não? jogado numa ponta do sofá onde eu estava sentado no outro canto, Maurilio e Bacco tagarelavam em bom piemontês, e eu não entendia porra nenhuma, saboreando docinhos e bebendo um café. a conta saiu por um preço bem camarada, mas não falemos de dinheiro aqui. se você souber de alguém que lance um perfume com o aroma daquele Chardonnay, por favor, me avise.

*

foram dias assim, até que partimos para a divisa entre o Piemonte de Bacco e a Lombardia do meu bisavô, mais precisamente a cidade de Sesto Calende, às margens do lago Maior, onde o rio Ticino deságua no rio Pó. ali, passamos no supermercado Esselunga, onde comprei chocolates e vinhos e me preparei para tomar o rumo de Portugal, depois de uma semana aprendendo sobre a vida, o paladar e a Itália, não necessariamente nessa ordem. mas isso é assunto para o próximo post.

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