cama e comida 4

o trem que me levou de Milão a Santa Margherita Ligure sofreu um atraso justamente em Camogli, comuna imediatamente anterior ao meu destino. outubro de 2018 foi um mês deveras chuvoso na Itália e, para além das inundações de Veneza, que estavam em todas as manchetes, a riviera lígure, do outro lado, também sofreu. isso trouxe a necessidade de obras na ferrovia, e, com isso, me atrasei um pouco. meu temor era que meu anfitrião, o sensacional Bacco, da melhor página sobre vinhos e gastronomia do Brasil, se irritasse; liguei para ele e expliquei que, ao menos dessa vez, a culpa não era minha.

a expectativa era grande: passar uma semana conhecendo lugares inacreditáveis na Ligúria e no Piemonte com o cara que me ensinou o que era vinho de verdade. ao mesmo tempo, era uma mudança de paradigma: pela primeira vez, eu fazia uma viagem dedicada a pequenos vilarejos, à zona rural, à calmaria. nada de cotoveladas para ver monumentos, nada de filas para entrar em museus, nada disso: contato com a natureza, horários contidos, sem vida noturna depois do jantar. será que eu iria gostar?

voltando às chuvas: a estrada entre Santa Margherita e Portofino, local de gente transbordando de riqueza, foi destruída; o lugar ficou isolado e sem energia elétrica. com isso, não deu para conhecer o balneário favorito do Berlusconi e de outros miliardários. em Santa Margherita, as fortes chuvas fizeram com que barcos avançassem sobre a orla e até as ruas. muitos se quebraram, outros foram totalmente perdidos, montanhas de entulho se formaram. mesmo assim, naquele início de novembro de tempo nublado, mas menos violento, Santa Margherita Ligure era linda.

mal cheguei e acomodei minhas coisas, tomamos uma taça de champanhe para brindar, ainda no apartamento, e descemos até o bar Sabot, na orla (lungomare, por favor). vista para o mar, atendimento atencioso, bom sortimento de vinhos e, se você pagar 3 euros a mais, ganha uma porção de aperitivos que vale por um jantar. desde então, tem sido difícil não suspirar de saudades do Sabot a cada vez que entro em um bar, onde quer que eu esteja.

no dia seguinte, fomos de ônibus até Rapallo, onde, em 1922, Alemanha e URSS assinaram um tratado pelo qual resolveram pendências da Primeira Guerra Mundial. geralmente, conferências desse naipe são convocadas em lugares maravilhosos (como a riviera lígure) ou horríveis, e Rapallo se incluía no primeiro grupo; o tempo é o pretérito imperfeito porque Bacco me explicou, com justificada indignação, que, umas décadas depois, um prefeito de Rapallo, a poucas semanas do fim de seu mandato, saiu distribuindo autorizações de construção a torto e a direito, o que sobrecarregou a infraestrutura e o visual da cidade, que perdeu imensa parte de seu charme.

a Rapallo de hoje é (muito) bela em sua orla e até duas quadras para dentro; a partir dali, é demasiado apertada – não como uma cidade medieval, mas como um centro urbano de terceiro mundo – e feia. além disso, por ter a única saída para a estrada em quilômetros, sofre com o influxo de carros de Santa Margherita Ligure e outras cidadezinhas próximas. uma lição de como não planejar uma cidade, tanto que Bacco me disse que, em italiano, criou-se o neologismo rapallizzazione, para definir a urbanização selvagem e indiscriminada. há até um verbete da Wikipedia italiana sobre isso.

estivemos em Rapallo para resolver burocracias, e, de volta a Santa Margherita, pegamos o carro – italiano e veloz – para irmos até Chiavari. como os montes Apeninos estão bem próximos da costa, a rodovia italiana A12 é permeada por túneis, mas, quando você não está dentro de um deles, é bem capaz que seu queixo caia com a paisagem que se desvenda. essa vista, contudo, se reduz a pouco mais que borrões impressionistas quando se está de passageiro num carro italiano, veloz e vermelho, a 207 km/h – que foi o máximo que o piloto da vez obteve, em meio ao trânsito relativamente pesado daquela manhã de sábado. quando saímos da A12 para o perímetro urbano de Chiavari, Bacco riu e disse que eu devia estar branco de medo e querendo gritar, mas disse a ele que, como sabia qual era o carro e também sabia que o piloto tinha pé pesado e uns parafusos soltos (no bom sentido, prego), eu me havia preparado psicologicamente para a bordoada em alta velocidade.

Chiavari não tem uma orla tão bonita quanto as de Rapallo e Santa Margherita Ligure, mas, com 30 mil habitantes, é uma metrópole, perto dessas duas. vi uns cogumelos e umas berinjelas impressionantes no final da feira livre, algumas lojas de artigos de luxo, várias de vinhos, outras tantas de produtos gastronômicos. o relógio já batia nas onze da manhã, hora do aperitivo sagrado de Bacco, e rumamos para o Gran Caffè Defilla, em funcionamento desde 1914.

se considerarmos que metade dos restaurantes fecha antes de completar dois anos de funcionamento, 105 anos é um tremendo efeito Lindy para o Defilla, confirmado já na primeira taça de espumante, servida com dois pratos cheios de petiscos. a decoração segue a moda da Belle Époque da inauguração, os balcões são de belo mármore e as prateleiras têm o cúmulo do bom gosto enológico – fora as garrafas da enoteca, numa sala à parte e muito maior. para que eu tivesse uma ideia ainda melhor do que é Chiavari, contudo, o almoço seria noutro endereço, a Trattoria Nanin, que sequer tem página na internet.

mas, para que página na internet, se o que vivi por lá permanece indelével? depois de uns pães fantásticos, minhas definições de pesto (estou na terra do pesto verde, oras) foram atualizadas com o talharim do almoço, que veio com um verdicchio di Matelica (meu primeiro) junto. um branco fantástico, bebido na hora certa e no lugar certo. e ainda saí de lá com uma garrafa de azeite de oliva, produzido por um amigo do dono do Nanin – origem mais garantida, difícil.

em Santa Margherita Ligure, ainda fizemos dois bons jantares em restaurantes locais, cujos nomes não guardei – prova de que foram bons, mas nada memoráveis, e Bacco saiu de um deles achando que não valeu o valor cobrado. e me lembro de outro ótimo lugar, a Vineria Macchiavello, em que tomamos o aperitivo da segunda noite; não era o Sabot, mas a noite era chuvosa e pedia algo mais intimista. mesmo com tanta gente olhando para celulares e usando roupas mais modernas, dentro desse bar (cujo nome preciso resgatar e incluir aqui), me senti em algum ponto entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970.

no dia seguinte, domingo de manhã, era hora de pegar a estrada, rumo ao Piemonte.

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