mudança

Uma das coisas que define a sensibilidade conservadora é a melancolia perante o fim das coisas e a mudança. Quando vamos a um sítio muitos anos depois, ele não está igual. Houve ali coisas que, mesmo que tenham mudado para melhor, sentimos como uma ofensa pessoal. Um prédio que já não existe, por exemplo.

mais uma vez, o Pedro Mexia consegue sintetizar, em poucas palavras, algo que sinto e que eu levaria seis volumes da Barsa para dizer.

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há coisas para as quais existe explicação. outras, como o porquê de um Subway do interior da Bahia me seguir no Instagram, serão para sempre um mistério.

transversal do tempo

eu não gosto do meu passado. ou melhor: não gosto de viver de passado, nem mesmo do meu. limitei a minha saudade a uns poucos momentos do que já vivi, seja deliberadamente ou porque parte da minha vida foi, como todas as vidas, uma bosta. minha relação com o passado é uma versão transgênica daquilo que Jay Gatsby sentia, ao não participar das próprias festas, limitando-se a olhar, do outro lado da baía, para a casa onde vivia sua amada, Daisy Buchanan – sendo que Gatsby, como sabemos, comprara sua mansão justamente por causa dessa vista.

ele se limitava a olhar para a casa para reviver o passado, mantendo-se, contudo, longe de qualquer esforço maior. chame de prudência, chame de eficácia: ele sentia não haver o que fazer quanto ao passado e conformou-se com as espiadelas.

estou falando do meu passado porque, esta semana, fui adicionado a um grupo de WhatsApp que organizava uma reunião de 20 anos dos formandos do ensino médio de 1998. uma turma de umas 120 pessoas, divididas em duas salas, com a qual mantive contato com meia dúzia de indivíduos, ou 5%. mas estatísticas pouco importam para nossos sentimentos: o que importa é que, depois que a turma se forma, cada um vai para um canto. quem não estava preparado para virar adulto, se sente órfão.

na virada de 1998 para 1999, eu não estava pronto.

mas isso, evidentemente, não é motivo para ressentimento ou inferioridade: se o livro do Eclesiastes diz que há um tempo para tudo, tive o meu para crescer, poucos anos depois. e sinto que, com todos os meus defeitos e meus problemas de 2018, não trocaria a minha vida de agora por uma volta a 1998, nas mesmas circunstâncias. formative years were a drag but we passed the time somehow, como sintetizou, em 1994, o poeta. tive minha quota desses anos, não quero reviver isso.

e é o que a vida traz: há vinte anos, essa turma era a minha vida. hoje, somos pouco mais que desconhecidos ligados por uma memória comum, o último barbante que não deixa a corda romper, o pico esporádico na tela do eletrocardiograma, cada vez mais distante. isso me causa desconforto, embora leve: não chega a ser motivo que enseje massagem cardíaca ou outro procedimento, esteja o paciente com 17 ou com 37 anos.

no grupo do WhatsApp, os papos se restringem às memórias partilhadas do período entre 1996 e 1998. como eles, tenho as minhas, mas não falo. porque o significado delas, para mim, talvez seja tão pequeno que eu não saiba como abordar isso. e não quero jogar água no chope de ninguém, muito menos daqueles cuja estima por esses momentos ainda seja relevante. o que incomoda, talvez, é o fato de que não falam de suas trajetórias depois daquilo, do que aconteceu em suas vidas, do que se tornaram. não gosto de quem se prende ao passado, ainda que seja o elemento de coesão que nos caiba.

estou confinado a Brasília até o final de outubro e, logo depois, devo viajar. a reunião da turma está marcada para o início de setembro, realmente não tenho como ir; tornada impossível a minha ida por questões incontornáveis, não precisei me preocupar em saber se gostaria ou não de ir. talvez sim, talvez não: um dia e meio depois dessa história começar, nada concluí. será que gostaria de reencontrá-los? será que acharia constrangedor? será que haveria muitos silêncios, pontuados pelo small talk protocolar que nos transformaria de amigos em desconhecidos, como os vizinhos que encontramos no elevador e com os quais nunca falamos nada além da meteorologia e das taxas condominiais?

é o preço com o qual nos defrontamos quando o tempo passa, com juros vorazes a incidir ano após ano. a questão é saber se o reencontro é uma amortização ou uma taxa extra. e nem acrescentei à álgebra o fato de que não gosto de voltar a Deprelândia, bastante conhecido (talvez não pelos colegas de 1998).

às margens do small talk do grupo, quatro amigos me mandaram mensagens privadas, para saber como estou, o que tenho feito, essas coisas. por essa parte, já valeu. e teve um quinto amigo, cujos altos e baixos foram motivo para nossa aproximação naqueles anos, que procurei e quis saber se está bem. nas curtas respostas, constatei que as oscilações ainda estavam ali, e provavelmente estarão para sempre, porque esses altos e baixos são ele, mais do que qualquer outra coisa que eu possa dizer. não que só eles importem, mas, no meu conservadorismo liberal que ainda não se havia manifestado em 1998 (eu era comunista e assim o fui até 2003…), sou um cara de varejo, não de atacado.

depois desse solilóquio sobre o tempo e as pessoas (e sobre o tempo das pessoas em sua vida), é isso: não vou à reunião de 20 anos, por motivos alheios à minha vontade. de onde estou, entretanto, o Jay Gatsby aqui pretende abrir, no dia, uma boa garrafa para brindar a isso, livre do eventual desconforto que um tête à tête poderia trazer-me. e talvez eu vá à próxima reunião, de 25 ou 30 anos, se as circunstâncias me permitirem. alguém pode dizer que, se eu quisesse, abriria tempo na minha agenda para ir até lá, mas meus amigos mais próximos sabem que, por conta da vocação monástica a que me entreguei em 2013 (e cujas raízes remontam ao ensino médio), não vai rolar.

aos colegas, um brinde. e espero que, para além de lembrarem daqueles tempos (não tão bons, mas importantes), falem do que veio depois e, principalmente, do que nos espera. em 1998, eu ainda ouvia Titãs, e, como dizia Torquato Neto em “Go back”, que por eles foi musicado, “a madrugada mudou / e certamente / aquele trem já passou / e se passou, passou / daqui pra melhor, foi”.

p.s.: houve um intercambista americano na nossa turma de ensino médio, do qual me recordava vagamente (ele só fazia algumas aulas comigo). soube, pelos papos no grupo, que o cara suicidou-se nos EUA, anos depois de voltar de Deprelândia. e que deixou um bilhete pedindo para que parte de suas cinzas fossem espalhadas nessa wasteland tropical, onde, pelo que se depreende, ele teve alguns anos felizes.

mitologia e intuição

a seleção russa de 2018 é superior à seleção brasileira de 1982 – que, aliás, não ganhou nada.

Brasil depois dos dois primeiros jogos de 1982: 2 vitórias, 6 gols marcados, 2 sofridos.
Rússia depois dos dois primeiros jogos de 2018: 2 vitórias, 8 gols marcados, 1 sofrido.

se alguém disser que os dois primeiros adversários do Brasil de 1982 (a URSS no auge do anabolizante e a Escócia) eram mais difíceis, é caô. a Escócia nunca passou da primeira fase em mundiais e só teve quatro vitórias em sua trajetória nas copas (em quatro copas diferentes, diga-se). a URSS venceu a Eurocopa de 1960 – mas isso não tem nenhum efeito nas derrotas que se seguiram até 1982.

e por que idealizam tanto a seleção de 1982? metade é culpa dos flamenguistas, porque é um momento em que o Zico estava na seleção (e não que fosse o melhor jogador do time, o que, sinceramente, não sei). metade é culpa do Juca Kfouri. mas, objetivamente, a Rússia de 2018, sem nenhuma tradição de futebol, já fez mais que o Brasil de 1982. se ganhar de um a zero do Uruguai na terceira rodada, terá feito mais ainda.

alguém falará do Brasil vs Argentina de 1982, única partida em que a seleção venceu quando minimamente demandada. de fato, de fato. mas não é esse jogo que põe o time no patamar da equipe de 1994. nem no da de 2002 ou no da de 1998 – que, se ficou com o vice, teve o triplo de grandes jogos (Chile, Dinamarca e Holanda).

enfim, dá para começar uma flame war com essa tese minha – que, lamento dizer, procede.

perfil

O trecho mais impiedoso sobre os brasileiros reproduzido pelos pesquisadores no livro 1964 – O elo perdido coube ao agente Václav Bubenícek (codinome Bakalár): “Um brasileiro, ao contatar com um estrangeiro, possui uma tendência em fazer uma grande quantidade de promessas, já supondo que não cumprirá nenhuma delas”. Referindo-se à classe média urbana, ele diz que “são pessoas preguiçosas e bem levianas, com as quais não se pode contar”. “Os brasileiros de classe média frequentemente surpreendem um europeu com uma longa lista de faculdades e cursos que terminaram; mas, na verdade, o conhecimento adquirido por eles é muito superficial, o que significa que no Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente com formação primária”, finaliza.

o serviço secreto checoslovaco definiu os brasileiros como preguiçosos e levianos. quem pode censurá-los?