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“Seinfeld”, já disseram várias vezes, era uma série de TV sobre o nada (a show about nothing, no original). o próprio Jerry Seinfeld disse isso, mas que a definição era meio que uma piada entre ele e o Larry David. durou oito anos, o que é bastante tempo para algo sobre nada.

estou numa fase em que preciso produzir a partir de nada. pegar coisas que parecem abstratas demais e desenvolvê-las. quarenta, sessenta, noventa vezes, até que um produto exista. no começo, não saía; agora, sai com esforço. nunca será simples, mas ainda está demasiado complicado.

só que não vou desistir.

clarinete

neste exato momento, enquanto estou em Brasília, a apanhar de um texto escrito em juridiquês, Ney está em Genebra, acompanhando um concerto do Nelson Freire com a Orchestre de la Suisse Romande, e Bruno está na Biblioteca Joanina, na Universidade de Coimbra, acompanhando recital da pianista Alda Leonor, dedicado apenas a peças de compositores brasileiros.

é o dia do concerto ostentação.

navegação

águas turvas e agitadas pela frente. não basta a navegação ser longa, ela tem de ser complicada.

para completar a metáfora náutica, descobri hoje a expressão “pacto de Ulisses“. conhecia a história, mas não sabia que ela designava algo na psiquiatria ou coisa assim. da minha parte, tenho um pacto de Ulisses comigo mesmo e com algumas pessoas próximas: não desistir da atual navegação, ir até o final. amarrado no mastro, vendo as piores coisas acontecerem, o canto das sereias me tentando; vou continuar, é a única coisa que interessa.

e é foda.

sessanta

em 2017, meu carro favorito, o Lancia Flaminia, completa 60 anos. foi lançado em 1957 e produzido até 1970, um ano depois que a Lancia foi comprada pela Fiat e começou seu longo declínio. o Driven to Write trouxe uma matéria ótima sobre o carro, que vale a pena ser lida.

até onde sei, a Lancia nunca foi oficialmente vendida no Brasil. o Flaminia teve poucas unidades produzidas (em torno de 12 mil) e eu nunca vi um pessoalmente. já vi até um Aurelia conversível, muito mais raro, mas nunca um Flaminia; mesmo assim, um dia terei um, com algumas modificações sutis. o meu será um Pininfarina cupê, o mais comum de todos, mas o carro mais incrível já produzido.