autóctone

sempre falei que Goiás, meu estado brasileiro preferido, era esquisito. que só acontecem coisas bizarras por lá. e o noticiário de hoje é exemplar ao demonstrar isso: em que outra unidade da federação, daqui ou de outro país, vendem urânio para terroristas ao mesmo tempo em que uma motociclista é flagrada pilotando a moto com apenas uma mão, porque a outra está segurando uma bisnaga de soro?

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exceção

meu amigo Tomás não perde uma oportunidade de usar a hashtag #riograndemelhoremtudo. pelo menos era assim quando ele tinha twitter (apagou mesmo?). o pior é que ele costuma ter razão: ótima comida, belas paisagens (Gramado e Xangrilá, ao lado de Torres, me vêm a cabeça de imediato), proximidade do Uruguai, a capacidade de preservar a memória local, várias boas cervejarias artesanais e muitas meninas bonitas*. fora as mentes privilegiadas de lá, como ele próprio e meu amigo Ney, hoje vivendo na Asa Sul.

mas aí o seu Tomás lembrou que tem conta no Vivino e passou a usá-la. acho ótimo, mas receio que lá ele vai ver que pelo menos em uma coisa o RS não é melhor: gosto de alguns espumantes gaúchos, mas ainda acho os vinhos do estado (e do Brasil, e da América do Sul) fracos. não dá para ganhar de zero sempre…

(*Tomás, se você estiver lendo isso, precisamos conversar sobre uma conterrânea)

4,1e+8

comecei esse blógue há exatos treze anos. entre meus projetos, é aquele ao qual me dedico há mais tempo, descontados hábitos pessoais – assistir F1, por exemplo. todo ano, de uns cinco para cá, reclamo que tenho escrito pouco. é uma ladainha, mas uma ladainha que procede: queria ter disposição (85%) e assunto (15%) para um post por dia, pelo menos. e sei que, um dia, terei; por enquanto, só me resta escrever o quanto posso… e, por ora, isso não é muito. tenho motivos para isso, mas não é nada que mereça grande preocupação de quem passa por aqui.

nessas horas, gosto de lembrar daquela música do Leonard Cohen que diz que “muitos homens estão caindo / onde você prometeu manter guarda”. grandes amigos já deixaram de ter blógues, o meu continua. não sou melhor que eles, mas fico feliz de constatar que algo do que fiz (e continuo a fazer) durou (e continua a durar). em tempos de manifestações, pautas e relacionamentos efêmeros, chega a ser um alento ver algo sobreviver por mais de uma semana.

*

é tentador falar sobre o futuro, mas só tenho um breve comentário sobre ele: este blógue aqui não morrerá tão cedo. preciso dele. ainda que seja para manter silêncio por umas semanas, porque é bom ter para onde correr. não é muito, mas não preciso de muito mais.

não tendo muito o que falar sobre o futuro, falemos sobre o presente: sinto falta de ler mais sobre ciência. é outra coisa na qual sempre penso durante os dias, e à qual gostaria de dedicar-me por mais tempo. assim que possível, farei isso. gosto de saber que a medicina, a astronomia, as ciências relacionadas ao processo nuclear, a matemática e a química inorgânica seguem com descobertas, ainda que pequenas. não vamos redescobrir a roda, o átomo, os números; mas a simples possibilidade de usá-los de um jeito melhor é algo fantástico.

falei de ciência porque falei do tempo: a nossa relação com a dimensão temporal da vida é a coisa mais misteriosa do mundo. saber que os processos começam, terminam e se alteram, que tudo pode mudar em segundos. desde que esse blógue foi criado, já lá vão cerca de 4,1e+8 segundos, ou mais de seis milhões e meio de minutos. uma eternidade, mas uma eternidade que empalidece diante do tempo em que existe uma história escrita, por exemplo – não precisamos nem falar do tempo até a última era glacial ou coisa pior. que venham mais eternidades por aí, cada uma a seu tempo (sem trocadilho).

*

hoje o blógue faz treze, amanhã faço 34. dito isso, adiante: acabou o tempo para escrever esse post.

quatre-vingt-dix

hoje meu avô paterno, João, completa 90 anos. provavelmente, ele nem se importará muito com a data, não fará grandes festas. eu é que acho isso legal e comemoro aqui, a uns mil quilômetros de distância. até pouco tempo atrás, ele andava uns 10km de bicicleta todo dia, além de nadar no rio Paraibuna ocasionalmente.

só o conheci em 2007, quando ele já tinha 82 anos. devo tê-lo visto cinco vezes, desde então, e é bem estranho ter pouca intimidade com alguém a apenas dois graus de separação na linha familiar. dele, herdei a torcida pelo Santos, a pouca tolerância com gente burra e o sotaque, embora ele tenha um pouco de acento português – o que é bizarro, porque o português da família é o avô dele, meu tataravô, que morreu quando seu João Sanhaço era criança. os olhos azuis, por sua vez, se perderam na genética – meu pai tem olhos verdes e eu os tenho castanhos.

meu avô trabalhou como ajudante de serviços gerais numa cooperativa de laticínios: de esvaziar latões de leite vindos da fazenda a entregar iogurtes, fez de tudo. teve doze filhos, sendo onze do primeiro casamento (meu pai é o terceiro) e uma de um segundo relacionamento. anos atrás, ele reformou a própria casa, construindo um muro lateral com as próprias mãos, até o reboco. faltam-lhe vários dentes, sobra-lhe disposição para comer salgadinhos (esses da Elma Chips) e beber refrigerante – e, acreditem, ele é muito saudável aos 90.

isso é tudo que sei sobre meu avô, essa figura que não foi muito legal com a minha avó e que hoje chega às nove décadas de vida. parabéns, João Sanhaço. que o senhor fique por aqui por mais uns 40 anos, pelo menos.