bambuzal

terça-feira, indo à Câmara dos Deputados, ouvi a “coluna” de vinhos da CBN, com um dos especialistas mais conhecidos do país. um ouvinte escreveu e disse que viajaria à França, por isso pediu dicas sobre os vinhos do país. e o colunista respondeu-lhe algo como “ah, eu recebi um email de uma menina, brasileira, que dá cursos em português numa enoteca de Paris. eu não a conheço e só estou repassando, mas a loja é boa e eles não devem chamar gente ruim”.

ou seja: não falou dos brancos da Alsácia, ou que os tintos do Loire e do Ródano têm benefício x custo bom. também não falou que dá para achar um monte de Premier Cru da Borgonha e de champanhes de pequenos produtores por algo entre 20 e 25 euros, ou que Bandol é onde se produz o melhor rosado do país. tampouco deu dicas de ir direto aos viticultores, ou de lojas com bom sortimento e menos armadilhas para turistas.

na outra ponta, também não falou dos grandes (e caros) Bordeaux ou de regiões menos badaladas, como a Savoia. ou seja: o cara não deu dica nenhuma, só falou de um curso que nem conhece. sei que o figurão entende bastante, mas, nesse dia, de que valeu o espaço dele?

*

horas depois, quando acabou a reunião da Câmara que devia acompanhar, fui ao Senado, visitar um amigo. quando passei nas imediações do Plenário, vi, pela parede de vidro, uma galera de Goiás, uniformizada, buzinando, apitando e gritando, do lado de fora do Congresso, por um aumento salarial. do lado de dentro, seguranças fitavam a turba, e quem não conhecesse as coisas pensaria ser um grupo de famélicos doido para conseguir bolachas.

terminada a minha visita, voltei à Câmara, para chegar ao estacionamento onde parei o carro. era o dia da primeira votação da PEC dos Pivetes, a que foi derrotada. no salão verde, um segurança imobilizava um moleque e perguntava, educadamente, onde ele queria ir. cheio de si, e do alto daquela empáfia que a adolescência nos dá, ele disse que queria entrar no Plenário “para ensinar os deputados a votar”.

continuei meu caminho reto e constatei que a entrada do anexo 2, por onde costumo sair, estava fechada e guardada por policiais com capacetes e escudos, enquanto uma horda de adolescentes gritava palavras de ordem contra a redução da maioridade. mantidos a uma certa distância, queriam atirar coisas nos guardas; depois, soube que tomaram jatinhos de pimenta. por causa dessa molecada picante, tive de dar uma volta muito maior até sair do Congresso e buscar meu carro. somada ao povo que queria mais dinheiro, do outro lado, dava a impressão de que estamos à beira de uma guerra civil. porra nenhuma: na hora de espoliar o Estado e falar de cláusulas pétreas e direitos adquiridos, todo mundo aparece. quando é hora dos deveres – escolares ou burocráticos -, ninguém está nem aí, e ainda reclamam da vida boa dos parlamentares que elegeram.

*

na sessão seguinte, a PEC dos Pivetes passou. a crise política – essa que, a cada enxadada, revela cinquenta minhocas -, contudo, não passará. pior de tudo, a czarina não completará seu mandato, já que chegamos à ímpar situação de três possibilidades diferentes de queda, por três irregularidades diferentes. a dúvida, agora, parece ser quantos meses serão necessários para derrubar a eleita.

aposto, particularmente, que essa jiripoca pie no primeiro semestre do ano que vem.

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