feliz ano novo

bisset

(Jacqueline Bisset, 1966. um feliz ano novo para todos nós)

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sem título

domingo à noite, com algum sentimento de culpa de ter comido bem e bebido bem no sábado, decidi fazer exercícios. sempre faço, mas nesse caso a culpa colaborou de forma crucial: estava chovendo, de leve.

tudo bem, já que, nas antigas escrituras candangas, o profeta disse “andar à pé na chuva, às vezes eu me amarro” – e eu realmente estava entediado. dez quilômetros depois (da 306 à 316 Sul, ida e volta), não muito ensopado, entrei no elevador com uma moça que ia para o andar logo acima do meu.

“- então você é meu vizinho de baixo, do apartamento ***?”
“- é, eu moro lá” – respondi. “estou fazendo barulho?”
“- não, não. é que ontem eu cheguei em casa de madrugada, depois de uma festa. tentei não fazer barulho, mas, quando tirei os sapatos, fiz um barulhão e pensei ‘tomara que meu vizinho de baixo tenha viajado!'”

como eu estava dormindo feito uma rocha ígnea, disse-lhe que não ouvi nada – e fiquei a imaginar a cena dela, bêbada, arremessando o par de saltos 10 contra o armário.

*

na manhã de segunda, saindo da academia, sob a mesma chuva leve, estava entrando no carro. um senhor barbudo e mal cuidado interpelou-me:

“- ei! por que você não compra uma Ferrari ao invés dessa Mercedes?”

eu ri, ele continuou:

“- tem mais a ver com você!”
“- concordo, mas é dez vezes mais cara!”, respondi, apesar de preferir a Kim.
“- aí a culpa é sua, que não se candidatou a deputado. papo-furado eu já vi que você tem!”, emendou, na lata, o tiozinho. percebi que ele tinha sotaque estrangeiro e estendi o papo:
“- de onde o senhor é?”
“- de onde você acha que eu sou?”
“- Uruguai?”
“- Uruguai? eu tenho cara de uruguaio? uruguaio é sua mãe!”, retrucou o doido, rindo.
“- de onde é, então?”
“- eu sou de um lugar que você não deve nem ter ouvido falar. sou uzbeque.”
“- do Uzbequistão? de Tashkent mesmo?”
“- ah, você conhece meu país?”
“- nunca estive lá. mas comi uma sobremesa uzbeque esses dias e gostei.”
“- onde você comeu?”
“- numa feira de comidas típicas.”
“- você sabe da rota de Marco Polo? passa por lá.”
“- sei, a Rota da Seda, Samarkand…”
“- você conhece, hein? esse seu papo-furado é bom. vou indo. tchau!”

e despediu-se. achei que ele ia pedir grana, mas não pediu. desejei-lhe boa sorte, no que quer que ele faça, e achei insólito encontrar um uzbeque no meio da Asa Sul.