mezcal

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sudoku

subindo a 303 Norte, no carro, lembrei de uma viagem que quero muito fazer. quero tanto que tenho um bloqueio quanto a isso e nunca a faço. e ativo o modo Manuel Bandeira, a vida inteira que podia ter sido e que não foi (tosse, tosse, tosse). e invento desculpas para não tomar o xarope e viajar para onde quero. é o bloqueio.

estaciono e desço quatro blocos da comercial para me purgar por meio de batata-doce. a viagem continua na cabeça. subo as escadas, e, quando chego ao térreo, outra viagem me espera. só que eu não esperava dar de cara com essa viagem e o bloqueio vem ao meu socorro.

socorro.

vou para outra prateleira, outra gôndola. a viagem que podia ter sido e não fui. mas não estou numa farmácia, não há xarope à venda… e a xaropice continua. o poema do Bandeira havia dado lugar a uma partida de sudoku, que, agora, dá lugar a uma dose de mezcal – que não é xarope, nem é cura para nada.

pego a batata-doce, pago, contemplo a vista e subo a quadra, sem saber para onde ir nas férias. e não tem agente de viagens que me convença desses dois destinos que tanto quero…

padparadscha

ela veio de um país pequeno e chegou aqui com pouco mais que a vontade. um sonho, para ser mais preciso. cruzamo-nos numa roda, isso virou algo semanal e, em pouco tempo, descobri que não tínhamos nada a ver um com o outro. para piorar, nem sempre eu entendo o que ela diz; mesmo assim, contudo, é divertido.

semana passada ela veio com um papo de sumir daqui, e eu quis saber o motivo. aparentemente, o sonho acabou e ela quer acordar num lugar distante, Brasília já não serve mais. advogando para o diabo, tentei explicar a dinâmica das coisas por aqui, essa cidade-grande cheia de cidadelas minúsculas, rodas sem qualquer comunicação. à beira da indignação, ela disse que tudo o que eu falei não tem de ser como é – porque, lá longe, simplesmente não é assim.

ela quer algo que a cidade não deu. nem a cidade anterior deu. fiquei surpreso com a franqueza dela ao falar sobre isso a um semi-desconhecido como eu, mas ponderei que ela está em busca de calor humano. não deu, não deu. ela tem certeza de que noutro lugar vai dar. ouvi tudo, dessa vez sem contra-argumentar; outras pessoas também a ouviram, mas o desabafo ficou sem solução.

não queria que ela fosse embora. não que me fosse fazer grande falta, mas eu não gosto de ver indivíduos com os sonhos esmagados. e pode ter uma saudade da terra natal no meio disso.

ainda voltaremos a nos ver. ouvimos música juntos e eu vou me abster de falar do gosto musical dela – que, da última vez, me impôs uma série de condicionantes. aceitei todos e aprendi a lição, mas creio não poder ir mais além do que isso. Brasília ainda me serve, embora eu continue a sonhar com lugares distantes e países pequenos.

plus de liaisons

recebi uma mensagem no celular: o diretor queria falar comigo. primazia que ninguém ao meu redor tinha recebido e que eu não sabia se queria. se ser chamado para conversar fosse sempre bom negócio, meus amigos comemorariam toda DR convocada pelas respectivas.

não quis falar com ninguém sobre isso. não queria burburinho, e, além disso, calhou de o diretor e eu nos cruzarmos meia hora depois.

“- então…”
“- primeira coisa, fique tranquilo.”
“- eu estou” – e suspirei longamente. fora um dia cansativo, coisas que não tinham a ver com essa chamada.
“- parece que você não está à vontade aqui. você precisa de uma aula sobre como ser natural.”

gente, que papo é esse?

“- o que aconteceu?”
“- estive observando sua postura… há muito o que melhorar. você precisa ser mais natural, melhorar sua linguagem corporal.”
“- e eu preciso de uma aula pra isso, de verdade?”

mal perguntei e o diretor saiu pelo corredor a ditar regras, como se a tal aula estivesse toda na cabeça dele: como olhar para os outros, onde apoiar os braços, o que dizer. e isso tudo, dizia ele, para ser natural. perplexo, assisti a tudo sem dizer uma palavra, exceto por uma pergunta, mas não lembro o que foi.

“- o que você achou?” – perguntou-me o diretor
“- acho que estou bem do jeito como estou” – respondi, com um leve sorriso. “mas vou levar suas observações em consideração.”

ele satisfez-se com a evasiva, que foi a coisa mais natural que me veio à cabeça então. be natural, be natural…