marcos

dois marcos recentes para se comemorar.

dia 22, sábado, fiz algo inédito na minha vida: li dois livros inteiros num dia só. um de 120 e um de 95 páginas, e levei sete horas para dar conta. não gosto de ler com pressa, mas senti que podia matar dois textos numa só tacada, e assim o fiz.

dia 27, na passagem da L2 Norte para a L2 Sul, por baixo do Eixo Monumental, um marco alemão: a Kim, uma adolescente de 15 anos, chegou à quilometragem da foto abaixo:

123456

123456 quilômetros: esplêndido. comprei-a em 2011 com 97 mil e uns quebrados, ela deu umas quebradas… mas dei o devido trato e hoje ela segue firme e forte. no meio do ano tem a festa de debutante da Kim: aparelho ortodôntico (troca da caixa de direção), tratamento para os gases (troca dos retentores do motor M112), eliminação dos zumbidos do ouvido (instalação de dois novos alto-falantes traseiros) e maquiagem (pintura nova onde a original já queimou), dentre outras coisas. não tem jeito: um Mercedes-Benz velho antigo é o melhor carro do mundo. e eu só lamento pelo povo que desembolsa R$ 120 mil por uma nova, que eu vou comprar por R$ 30 mil daqui a uns dez anos…

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gamay

essa foi uma semana de assaltos recorrentes à adega, para a sociabilidade e para a solidão. se os romanos diziam que a verdade está no vinho, posso considerar que foi uma semana de busca pela verdade. e o que tenho a contar sobre o que bebi é o seguinte:

*

quarta-feira foi aniversário do Ricardo Henrique e ele disse que rolaria um macarrão na casa dele. só que o comédia foi jogar bola e não me confirmou se rolaria mesmo. resultado: fiquei em casa e abri a meia-garrafa do Alandra, um alentejano onipresente nas gôndolas vinícolas do Bananão, que tinha na adega.

sabe um vinho que tem tudo para ser ruim mas é bom? é esse o caso. o mais caro que já vi um Alandra custar foi R$ 31, no Pão de Açúcar. mas você acha a R$ 23 no Oba, R$ 21 ou 24 na Wine.com.br e por aí vai. pela meia-garrafa eu deixei 13 cruzeiros no Oba. e não tem vinho nessa faixa que bata o Alandrão: é saboroso, embora não marcante, e sem firulas: não tem pretensão de ser obra-prima, e tem preço de ocasião, para ser consumido em qualquer ocasião.

nunca bebi nada argentino ou chileno que fosse tão bom por tão baixo preço, e mesmo pelo dobro do preço do Alandra é difícil. o Toro Loco vale os 25 ou 30 mangos que custa, mas quase não é vendido em supermercados, para o caso de emergência… e é uns poucos reais mais caro.

bebi meia taça do português e botei o restante no decantador; enquanto isso, consegui falar com Ricardo Henrique e fui até o apartamento dele, levando o vinho que descrevo a seguir.

*

não sabia se o aniversariante de quarta curtia vinhos, e nem que tipo de vinho ele curtiria. peguei um chianti da vinícola Melini, conseguido a um preço muito bom (mais barato que o Ruffino, veja bem) e que o vendedor da Adega Almeida (na 710/11 Norte) jurou que não tinha uvas gringas na composição.

(porque se eu quiser cabernet sauvignon ou merlot, eu vou atrás de um desses. se eu compro vinho italiano eu quero Itália na garrafa)

juntei ao chianti um Toro Loco e, que coisa, Ricardo Henrique não bebe vinho. assim sendo, boa parte da garrafa do italiano foi secada por Paula Picles e eu, com o reforço posterior do Urso; nós três ainda bebemos o espanhol. eu voltei para casa e, quatro horas depois de o Alandra ocupar o decantador, bebi o restante dele… não senti nenhuma mudança no gosto (o vinho é novo, mas dizem que em alguns casos decantar libera uns aromas), mas em última instância isso quer dizer que o vinho continuava bom.

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na sexta-feira o chefe veio tocar na Play!. velho que sou, combinei de buscá-lo no aeroporto, ajudar com umas coisas e jantarmos, mas não iria encarar baladinha indie. levei-o ao Parrilla Madrid, pensando no rodízio de tapas que há na casa – mas que, fui descobrir, só rola entre segunda e quinta.

sem problemas: pedimos pratos e fomos felizes. para escoltar a comida, pedimos uma jarra de clericot, que estava bem bom. depois que secamos a jarra, resolvi estrear a máquina Enomatic (aquela que permite a venda de vinho em taça sem ter de abrir a garrafa, usando uma agulha e vácuo) do lugar; salvo engano, a do Parrilla Madrid é a única Enomatic de Brasília.

pedi a carta de vinhos e vi que a maioria dos vinhos da máquina era argentina ou chilena, mesmo os mais caros – ou seja, vinhos tão amadeirados que o Pica-Pau encheria a cara com eles. mas havia, na carta, um nome que é sempre interessante: Brunello di Montalcino.

nunca havia bebido um, por causa do preço. e um pouco, também, por medo de que os 14% de álcool fossem demais. mas topei pagar R$ 27 por meros 50 mililitros do Brunello di Montalcino Donatella Cinelli… e foi uma revelação.

foi o melhor vinho tinto que já bebi na vida. sei que beberei melhores, mas será difícil esquecer a miríade de sabores e aromas e gostos que esse brunello me fez sentir. não vou perder meu tempo tentando, inutilmente, definir o que tem ali. mas é fantástico, é de tirar o fôlego. depois vi que uma garrafa desse vinho beira os R$ 300, aqui no Bananão. e que os R$ 27 por esse gole de Donatella Cinelli foram absolutamente justificados.

*

ontem foi a vez de beber tudo em casa, sozinho, mas sem depressão: depois de umas cervejas – incluindo aí uma gostosa Kunstmann Miel, cerveja chilena que é um pão-de-mel alcoólico (e isso é ótimo!) e uma refrescante Blanche de Bruxelles (witbier é sempre bom), olhei para a adega e disse “te quero” para algumas garrafas de vinho.

a primeira a dançar foi a meia-garrafa de Côtes du Ventoux Delas Fréres. era um vinho sobre o qual, embora eu imaginasse que não seria um ponto de inflexão no meu curto histórico de gostar de vinho, eu tinha algumas expectativas: tanto o JR quanto o Bacco & Bocca haviam falado bem. e realmente é bom.

o problema é que eu gostei dele como gostei do Alandra, que custa três vezes menos. pode ser que outros produtores façam Côtes du Ventoux mais marcantes, com gosto mais complexo (tentei achar palavra melhor que “complexo” para definir, mas não consegui). assim sendo, vou tentar um outro produtor antes de desistir do vinho, mas ele não é ruim, de forma alguma.

ainda a fim de um goró, abri uma mini-garrafa de um sauvignon blanc chileno, o Santa Rita 120. paguei barato por esse vinho, e só assim mesmo: rola uma regra, não-escrita, de que nem santo ajuda vinhos sul-americanos com nome de santos. e nem 120 ave-marias ou 120 rezas completas de terços bizantinos, como o numeral que batiza esse aí pode sugerir. feitas essas considerações, tá aí um vinho quase: tem alguma coisa estranha (para não dizer “desagradável”) no meio dele, e que convive com um gosto bom. mas o ruim prevalece sobre o gostinho bom de abacaxi, então não rola de recomendar o Santa Rita 120.

*** atualização: acabei não falando do Chianti Melini como devia. é bem gostoso, melhor que o Ruffino, mas ainda não consegui sacar se tem merlot ou não. tem lugares que indicam 100% sangiovese, outros falam em 10% de canaiolo, outros falam que há merlot no meio, sim. na dúvida, vale a pena, até porque o preço que paguei por ele é bem convidativo…

Eclesiastes

Há um tempo para tudo, diz a famosa passagem do Eclesiastes [outros traduzem por «ocasião» ou até «estação»]: tempo para nascer e tempo para morrer, destruir e construir, guardar e deitar fora, rasgar e coser, tempo de guerra e tempo de paz. «Há um tempo» significa a unidade e a diversidade da experiência humana, factos contraditórios mas que nos acontecem a todos. Mas «há um tempo» também significa que há um tempo apropriado para cada coisa. E isso, o «apropriado», que é uma variável que talvez se pudesse controlar de algum modo, é o que me escapa por inteiro. Tenho vivido os vários tempos, ocasiões, estações, mas raramente no momento apropriado. Quase todas as minhas experiências foram precoces ou tardias, imaturas ou serôdias, quase todas extemporâneas, intempestivas, inoportunas, inadequadas. Percebo o embaraço ou o visível recuo quando alguém se vê confrontado com os meus «tempos» desastrados. E nem o Eclesiastes me ajuda.

Pedro Mexia, sempre ele. essa parte confessional é das coisas que me arrancam da boca muda e ganham o mundo, fora do meu controle.

Buddha Bar

você já tem o mundo para abraçar, já tem (muito) com que se preocupar. mas, mesmo assim, faz questão de buscar o mais vasto, o mais complexo, o mais difícil. porque é inerente da sua natureza, porque é isso que te faz feliz – ou que, ao menos, é a machete que abre a clareira na mata, em busca de um curso d’água (preferencialmente agitada) para seguir.

daí você se lembra das suas aulas de sobrevivência na selva e vai fazendo seu caminho, entre a reinvenção da roda e a redescoberta do tempo, até que o mato se acaba e a água se desvela. você bebe e segue rente ao rio, sem querer uma trilha feita ou um diagrama, em nome do gosto pelo instável. ou melhor, pelo instinto, ainda que ele te possa trair: pelo menos foi feito do seu jeito.

histamínico

recém-chegado de uma digressão a alguns países andinos, d. Fábio, Marquês da Codesg, manda uma tira do Dilbert, afirmando que é a história da vida dele atualmente. vejo a tira e penso “é a minha também”. passo o link para o Otto e ele também se identifica.

impressão minha ou temos aí um mal-do-século formado? vejam a saga do consultor e me digam (principalmente você, Lisa)

apetite

compromissos recorrentes no início da Asa Norte têm feito com que eu almoce na região, cuja baixa gastronomia eu até então desconhecia. assim, descontado a comida totalmente sem graça da rede Assados & Grelhados (na 702/3 Norte), andei pelos seguintes lugares:

– Cassimiro (302 Norte): tem cara de ser um lugar com agito à noite, mas o que tem no horário de almoço é uma legião de Almeidas tentando comer bem e barato. a comida não é nada espetacular, mas tem variedade e uma boa mesa de saladas. sempre tem lugar disponível, o que é bom, e costuma ter peixe grelhado, o que é ótimo; mas nunca me marcou por nenhum prato memorável.

– Pastelaria Chinesa (702/3 Norte): fica do lado de uma sequência de oficinas naquele pedaço. incrivelmente, fui lá e não comi pastel. então, o que foi? almoço por quilo. tem uma churrasqueira de onde saem cortes baratos de carne (de contra-filé para baixo; nada de filé e picanha), uma série de rechauds com opções óbvias e outras nem tanto. lá eu comi feijão verde pela primeira vez na vida, e ó, é gostoso. paguei 20 reais no meu prato, bem fornido, mas longe de ser marcante.

– Velha Guarda (302 Norte): passei em frente e vi que servia PF a R$ 10. salivei. não sosseguei enquanto não tomei assento no lugar e pedi um bife acebolado. como o público-alvo do lugar é a galera que tem sérias restrições orçamentárias e um consumo calórico ainda mais sério, os carboidratos abundam: feijão, macarrão, salada e uma porção de arroz equivalente ao monte Elbrus. a TV fica ligada no Balanço Geral, que sozinho vai derrubar o GDF. enfim, paguei 10 reais e adorei. mas voltei outro dia e comi carne de panela: não veio macarrão e a quantidade de arroz ficou ainda mais desproporcional, então não foi tão legal quanto na primeira.

– Chaminé (402 Norte): duas opções de bacalhau, com o preço de R$ 28 por quilo no buffet? caramba! fui até esse restaurante sem a menor expectativa, e me surpreendi. pequeno (“aconchegante”, como dizem os corretores de imóveis) e direto ao ponto, o Chaminé tem, às sextas, feijoada a R$ 16 por cabeça. estive lá numa quinta, e gostei. não vale o deslocamento daqui do Leblon até lá, mas estando nas redondezas, vale a conferida.

– Cavalcanti / Ki-Filé (405 Norte): um clássico brasiliense, e que eu simplesmente nunca tinha provado. mas resolvi aparecer, e pedi um tornedor à Oswaldo Aranha. comida à moda antiga, fritas feitas no local, alho na medida certa, bifes altos. lembrou-me um pouco do Beirute, e muito do antigo restaurante do João Donaldo, onde meu pai me levava para comer quando eu era criança. um pouco mais caro (acho que deu 39 reais, com um guaraná e os 10%), mas interessante. da próxima vez, tentarei o filé à parmegiana.