naftalina

ela chega sempre em cima da hora. mas hoje chegou dois minutos depois do horário, fez um comentário bem-humorado sobre o próprio atraso e tomou seu lugar. não é um ambiente para conversa e às vezes as pessoas levam isso a sério demais, criando um clima tenso; por isso, lá do meu canto, gostei de ela rindo de um atraso tão pequeno.

já a tinha notado antes: da primeira vez achei-a estranha, da segunda e da terceira também. a linha do tempo andou para os dois, e com o tempo passei a achá-la uma graça, sem deixar de achá-la esquisita. é o tipo de paradoxo que nenhuma ciência exata pode explicar, mas ao mesmo tempo se repete com precisão, nessa ciência inexata que é o sentir. ela se levantou, arrumou as coisas a seu gosto e voltou; puxou uma coberta, se mostrou friorenta – e eu a dois metros, com frio, pensando em aquecê-la.

de repente o tempo parou, cortando uma frase ao meio: bem depois que alguém disse “e…”, sem completar. não sabíamos o que viria depois, ainda que fosse fato consolidado. todos se entreolharam, e… pois é: “e…”. e ela se levantou de novo e foi ter com as coisas que arrumara, mas ainda não estavam do seu jeito. com a graça de quem acha graça de um atraso de dois minutos, de uma frase entrecortada, de uma expectativa sobre o que viria depois dessa conjunção aditiva.

e dois minutos depois (a graça do sincronismo do universo) o tempo voltou a andar. mas voltou como se tivéssemos perdido para sempre aqueles dois minutos, ou como se ela fosse senhora do tempo e nos impusesse o mesmo atraso que lhe ocorrera.

daí para diante as coisas aconteceram como se esperava, e cinco anos se passaram. saíram todos da sala, e ela me perguntou se eu havia entendido uma outra frase – que não fora interrompida, mas dita para dentro. hesitei, pois também não tinha entendido, mas logo depois entendi e contei a ela, que me agradeceu pelo esclarecimento. e nesta hora, sem o clima tenso que ela própria se ocupara em dissipar, perguntei-lhe o nome.

ela disse o nome mais bonito que ouvi em um bom tempo. disfarcei o encantamento, sorri e me apresentei. e saímos juntos dali, eu querendo esticar a conversa e ouvir daquele nome todos os verbos, adjetivos, advérbios e pronomes que o léxico abarca; quando ela acabasse, poderia me ocorrer de dizer “e…” e recomeçar. mas assim não foi. nesta cena final talvez fosse eu o esquisito, mas permanecer impávido pelos dois minutos (sempre eles…) que durou não era tarefa fácil, tampouco desejada.

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