we want the airwaves

meu pai tem um programa de rádio numa emissora AM de Deprelândia, que agora também transmite pela internet. de vez em quando peço umas músicas para que ele toque lá. umas semanas atrás pedi “Why do you only call me when you’re high?”, do Arctic Monkeys, e hoje pedi “Sunday morning”, do Velvet Underground, em louvor ao finado Lou Reed. depois me dei conta que deve ser a primeira vez que uma rádio deprelandense toca Velvet, 46 anos depois de sair o disco de estreia dos caras. e achei isso legal.

naftalina

ela chega sempre em cima da hora. mas hoje chegou dois minutos depois do horário, fez um comentário bem-humorado sobre o próprio atraso e tomou seu lugar. não é um ambiente para conversa e às vezes as pessoas levam isso a sério demais, criando um clima tenso; por isso, lá do meu canto, gostei de ela rindo de um atraso tão pequeno.

já a tinha notado antes: da primeira vez achei-a estranha, da segunda e da terceira também. a linha do tempo andou para os dois, e com o tempo passei a achá-la uma graça, sem deixar de achá-la esquisita. é o tipo de paradoxo que nenhuma ciência exata pode explicar, mas ao mesmo tempo se repete com precisão, nessa ciência inexata que é o sentir. ela se levantou, arrumou as coisas a seu gosto e voltou; puxou uma coberta, se mostrou friorenta – e eu a dois metros, com frio, pensando em aquecê-la.

de repente o tempo parou, cortando uma frase ao meio: bem depois que alguém disse “e…”, sem completar. não sabíamos o que viria depois, ainda que fosse fato consolidado. todos se entreolharam, e… pois é: “e…”. e ela se levantou de novo e foi ter com as coisas que arrumara, mas ainda não estavam do seu jeito. com a graça de quem acha graça de um atraso de dois minutos, de uma frase entrecortada, de uma expectativa sobre o que viria depois dessa conjunção aditiva.

e dois minutos depois (a graça do sincronismo do universo) o tempo voltou a andar. mas voltou como se tivéssemos perdido para sempre aqueles dois minutos, ou como se ela fosse senhora do tempo e nos impusesse o mesmo atraso que lhe ocorrera.

daí para diante as coisas aconteceram como se esperava, e cinco anos se passaram. saíram todos da sala, e ela me perguntou se eu havia entendido uma outra frase – que não fora interrompida, mas dita para dentro. hesitei, pois também não tinha entendido, mas logo depois entendi e contei a ela, que me agradeceu pelo esclarecimento. e nesta hora, sem o clima tenso que ela própria se ocupara em dissipar, perguntei-lhe o nome.

ela disse o nome mais bonito que ouvi em um bom tempo. disfarcei o encantamento, sorri e me apresentei. e saímos juntos dali, eu querendo esticar a conversa e ouvir daquele nome todos os verbos, adjetivos, advérbios e pronomes que o léxico abarca; quando ela acabasse, poderia me ocorrer de dizer “e…” e recomeçar. mas assim não foi. nesta cena final talvez fosse eu o esquisito, mas permanecer impávido pelos dois minutos (sempre eles…) que durou não era tarefa fácil, tampouco desejada.

ilha deserta

meus amigos contaram que agora existe um aplicativo para as mulheres darem notas para os homens, uma coisa na linha tênue entre o bom humor e o feminismo – depende do quanto a dona leva a coisa a sério. alguns dos amigos disseram que “os homens estão todos f*****” com o aplicativo, que “solteiro só vai conseguir pegar alguém em lugares sem sinal 3G”, um monte de coisas do tipo. um certo exagero, mas cada cabeça uma sentença.

pois bem: entrei na página do tal aplicativo e vi que, para ser avaliado, é preciso ter conta no Facebook. ou seja, estou livre disso para sempre – e ainda ganhei um argumento engraçadinho para a lista de razões pelas quais não tenho conta lá, que abrange desde “evasão de privacidade” até “perda de tempo”, passando por “não tenho interesse no meu passado”. mas a melhor coisa que escreveram sobre esse aplicativo (e sobre sua cara-metade recém-inventada) foi isso aqui: voltamos à sétima série, só que agora a turma de coleguinhas é muito maior e não estamos aprendendo nada :)

eloquência

Julieta deu um miado de desaprovação assim que começou uma matéria na Globo News sobre a Exortação Apostólica do Papa. não sei se é por causa da legenda da reportagem, que diz que Francisco criticou o capitalismo, ou se porque o Papa de fato o fez – ainda não sei. mas pelo visto ela é, como eu, uma vendida do sistema.

catapora

não sou uma pessoa otimista, nunca fui. entretanto, depois de voltar a ter minha rotina de finais de semana (após duas quebras seguidas e um colapso nervoso no meio), lembrei bastante do refrão de “Optimistic”, do Radiohead: you can try the best you can / if you try the best you can / the best you can is good enough. será que o melhor que consigo é bom o suficiente? é a dúvida que vou levar comigo para os próximos dias; até, pelo menos, a próxima tentativa. até lá vou apenas tratar de sobreviver.

pavio

Contaram-me hoje uma história divertida, de há uns anos, e que se passou comigo, embora eu não tenha dado por isso. Tratou-se de um caso de tentativa de galanteio (o arcaísmo naquele caso fazia sentido), tudo muito maduro e civilizado, mas que esbarrou, achei eu, num certo desinteresse da contraparte. Não insisti, porque nunca insisto. Pois agora, tanto tempo depois, ela contou a uma amiga comum que «houve um clima», mas que eu não tomei a iniciativa, não voltei à carga, e então ela achou que eu é que me mostrei indiferente aos seus encantos, e pronto, acabou-se. Uma mulheraça, digo-vos eu, que sou esquisito. Depois, cada um seguiu o seu caminho, como é natural, ela casou, ou coisa do género, eu tive uns ameaços e uns fiascos, como é costume. «Mas ela estava definitivamente interessada», garante a minha amiga, com o gozo que o irremediável confere à frustração alheia. E eu lembrei-me de dois versos de Cristovam Pavia: «A virgem não obstou. / E, como era poeta, virgem ficou». Claro que, no caso, não havia virgens, nem poetas, mas gosto do sarcasmo do «e como era poeta» de Pavia, que sugere que a donzela, mesmo «não obstando», estava a bom recato de avanços significativos, tão incompetente se mostrava a criatura de vago cromossoma Y e hipotética propensão estrófica. Trata-se, confesso, de uma oportunidade perdida que ainda agora me contraria um bom bocado, do ponto de vista estritamente sexual; mas a verdade é que, «do ponto de vista estritamente sexual», o arremedo de poeta não constitui um perigo, muito menos um prémio. Eu perdi bastante, ela não perdeu nada, e o Pavia é que se ficou a rir.

esse aí é o post da década, e foi escrito pelo Pedro Mexia. foi publicado no dia do meu aniversário, mas isso já é mera coincidência.