equilíbrio

belo texto do Bruno Astuto para a GQ…

Linha de passe

Estava eu em Londres almoçando comum grande amigo e sua mulher – amigo esse bem poderoso, do tipo que todo mundo vira a cabeça no restaurante para olhar, pois sua fama o precede. Só que eu o conheci quando ele ainda engatinhava nos negócios, não tinha avião nem barco, então digamos que eu seja um velho rosto de outra encarnação.

Sempre soube que ele era ambicioso e que chegaria longe. Era um homem inteligente, repleto de boas ideias e determinado. Tinha exata noção sobre o que, quem e quanto queria. Então começou a trajetória dos self-made men: acordar antes que o sol se levantasse e só se dar conta de que não havia colocado nada no estômago tarde da noite. Sua vida foi, durante muitos anos, trabalho, trabalho e trabalho. E, para ajudá-lo, recrutou uma mulher igualmente ambiciosa que jamais lhe cobrou presença no jantar ou fins de semana. Ela também sabia o que, quem e quanto queria.

Hoje eles têmo sossego dos vitoriosos. Chegaram lá. Ele continua a trabalhar muito, mas aprendeu também a gozar da vida. Ela está rica, bem penteada, perfumada e trabalhada nas últimas tendências. Não existe história mais comumdo que essa – quase todos os self-made men são assim. Só que esse amigo tem algo de diferente: ele sabe parar.

A um dado momento do almoço, seu motorista, um senhor de cabelos grisalhos que o serve desde sempre, apareceu em nossa mesa pedindo desculpas. Trazia um celular e disse que se tratava de uma ligação urgente de Moscou, aquela que ele estava esperando. Meu amigo pediu perdão a mim e à mulher, saiu para atender fora do restaurante e não demorou – juro – mais do que três minutos. E eu disse: “Mas, se era tão urgente, você poderia ter atendido aqui”.

Daí me veio a aula. Ele respondeu que, sim, poderia, mas que, se abrisse esse precedente, jamais conseguiria voltar atrás. Que ele fez um pacto consigo mesmo de que, para chegar aonde chegou, elencaria alguns limites – um deles é não ficar grudado ao celular. Como já alcançou um patamar sua vida foi, durante muitos anos, trabalho, trabalho e trabalho. só que meu amigo tem algo diferente: ele sabe parar muito além daquele que imaginava um dia atingir, decidiu permitir-se certos luxos. Quando ele está fora do escritório, os e-mails são filtrados pela secretária. Se algum for re-al-men-te urgente, ela o encaminha para uma conta pessoal, a do celular, na qual só chegam mensagens dela e da família.

Das redes sociais, ele nunca chegou perto. “Sou muito vulgar e comumpara publicar o que estou pensando no Facebook”, explicou. Tenho certeza de que muita gente daria um dedo para ler os pensamentos desse meu amigo, mas sua mulher deu a entender que, entre verificar o Instagram ou praticar judô, ele ficou coma segunda opção. E que ela pediria o divórcio caso o marido, depois de tudo o que eles passaram e de todas as renúncias feitas, abrisse o celular na cama para trocar “likes”.

Nesse momento, eu tive vontade de engolir meu iPhone que, claro, estava em cima da mesa, cheio de notificações de mensagens de texto, emails e atualizações do Instagram que eu teimava em checar de rabo de olho durante todo o almoço. Se eu não fosse tão covarde, teria engolido.

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