pelota

oi, tudo bem? tenho coisas para escrever aqui. a semana passada foi de concentração para a prova, no domingo me livrei dela, agora posso voltar. uma pena que eu trate com tanta desídia este blógue, mas eu tenho limitações. especialmente quando me sinto sob pressão, e especialmente quando a pressão é interna: às vezes eu me pressiono demais.

não é legal.

subscrevo

esse artigo do Nizan Guanaes na Folha de hoje, para o qual o Jonas me alertou.

A nova classe alta

Depois da nova classe média, este país precisa de uma nova classe alta. O Brasil moderno exigirá uma nova elite. Que é bem diferente de uma casta: um dinheiro responsável que seja gasto assim como foi feito, com o bom-senso das madrugadas e do suor, misturando vitórias e tragédias, mas sempre com muito respeito e espírito público. Não quero desrespeitar ninguém com generalizações porque toda generalização é burra, mas, muitas vezes, o pai funda e o filho afunda.

Da mesma forma que é preciso educar a população em geral, é preciso também educar os filhos da elite. E, em muitos sentidos, a educação pública tem tido proporcionalmente mais avanços do que a privada. O Brasil que mais cedo do que tarde terá assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e será ouvido em todos os fóruns importantes do mundo precisa preparar os jovens brasileiros para serem futuros líderes globais. Mas, além de falar o bom inglês, eles precisarão também falar fluentemente o português.

Não acredito numa sociedade dividida por preconceitos e ódios. Essa sanha contra os ricos que está acontecendo na França não vai levar a França a lugar nenhum. Mas o novo Brasil construído por um intelectual professor, um líder sindical e uma economista vítima da ditadura exige uma elite à altura desse momento maior do Brasil. Um momento maior, mas não um momento fácil, porque o mundo será cada vez mais competitivo. Essa elite (à qual pertenço) às vezes parece mais mobilizada para educar os pobres do que os próprios filhos -casa de ferreiro, espeto de pau.

Mas não educar bem uma criança, deixá-la crescer no shopping center, consumindo loucamente sem ter desafios e sonhos que transcendam um abdome de tanquinho e o próximo modelo de iPhone, é falta de amor com ela e falta de responsabilidade com o país. Levei recentemente um de meus filhos para testes de admissão em duas escolas americanas de elite. Lá encontrei muitos pais chineses, indianos. E nada de brasileiros.

O português tão ouvido nas lojas de Nova York e Miami é bem menos ouvido na Harvard que eu e o meu Antônio visitamos. Se você é brasileiro e quer ter um caso secreto em Nova York, leve sua namorada para uma biblioteca.

Visitei Bill Gates em sua casa e me emocionei andando pela biblioteca dele. Estão lá os mais importantes livros da civilização humana nas suas primeiras edições. E é óbvio que o dono daquela biblioteca vai dividi-la com o mundo quando não estiver mais nele. Ser rico é um privilégio, um direito e também uma responsabilidade.

Nasci no Pelourinho, no largo do Carmo, número 4. Descia a ladeira do Carmo e subia o Pelô todos os dias para ir ao colégio Maristas. Eu ia de ônibus, e a escola era mais cara do que meus pais podiam pagar. Não era escola… Era um investimento. Meu pai, que era médico, foi para a Inglaterra com bolsa de estudos do governo e me levou para aprender inglês, conhecer o mundo e não ter medo dele. Meu avô Demócrito Mansur de Carvalho, líder sindical comunista, ensinou-me a amar Castro Alves. Minha mãe, a amar Pablo Neruda e Machado de Assis.

Meu pai me ligou para me comunicar a morte de Vinicius com a voz embargada de quem perdeu um amigo. E eles eram todos amigos nossos, porque minha família era amiga dos livros. Eu devo aos meus pais e ao esforço deles de sacrificar uma parcela significativa do que ganhavam para me dar ao luxo de estudar o fato de eu estar preparado para uma vida e um mundo maiores do que o mundo no qual eu nasci.

E graças a eles eu cheguei até onde cheguei: colunista desta Folha. A classe média, a tradicional e a nova, têm motivos óbvios para estudar e se qualificar: um mercado de trabalho cheio de oportunidades para subir na vida, avançar materialmente. Já a classe alta tem motivos tão nobres quanto, embora nem sempre tão evidentes: liderar essa transformação com valores includentes, iluministas e brasileiros.

dois terços

do blog do Reinaldo Azevedo. todo mundo já leu mas vale a republicação:

Dirceu agora é corrupto segundo dois Poderes da República

José Dirceu teve o mandato de deputado federal cassado pela Câmara por corrupção. E obteve o sexto voto contrário no Supremo. Agora, também o Poder Judiciário decidiu que ele é um corrupto.

Dirceu consegue, assim, o prodígio de ser oficialmente corrupto segundo dois Poderes da República: o Legislativo e o Judiciário.

Um prodígio da luta revolucionária!

lisura

toda vez que alguém rima “lips” com “fingertips” numa música, Deus mata um gatinho.

acho essa uma das rimas mais cretinas da língua inglesa, e me bate um certo nojo físico quando escuto “Silver” do Echo & the Bunnymen, “I still haven’t found what I’m looking for” do U2 e outras que se valem desse estorvo. aliás, só vi um único uso decente de “fingertips” no pop que conheço: é em “Foundations”, da Kate Nash.

guizo

o cursinho cancelou a aula de hoje e, cansado como estou, decidi que tiraria a noite para descansar. voltei para casa, busquei um quibe assado e um espetinho aqui perto, trouxe a garrafa de chá gelado para a sala e liguei a tevê: parei diante de Criciúma vs Ceará, pela segunda divisão do campeonato brasileiro.

jogos dessa estirpe têm algo de confortável: você se sente relaxado assistindo, não tem compromisso de torcer. coloca um pijama, fica bebendo mate (ou Heineken, ou refrigerante) e jiboiando* no sofá. aí toca “You shook me all night long” no estádio no intervalo, você acompanha… e a tensão de uma semana se esvai. delícia.

* para quem não conhece o termo, jiboiando quer dizer “ficar de boa”, por uma derivação bizarra: “de boa” -> “dji boa” -> “jibôa” -> “jiboia”. e não encham o saco, não fui eu quem começou com isso.

compasso

essa semana estava conversando com o Márcio sobre economizar dinheiro e ele me disse que estava “viciado em liquidez”, guardar fundos e uma hora dispor deles com algo realmente legal. isso me leva ao axioma de Rogério Eugênio, live below your means – que, por sua vez, puxa o lagom är bäst sueco: ter apenas o suficiente é o melhor.

gosto dessas ideias. ultimamente tenho feito poucas compras, e mesmo quando viajei de férias não abri o bolso de forma desbragada. não quero parecer mais velho do que meus 30 anos, mas chega uma certa idade em que o perfil de consumo acaba mudando: você passa a querer menos coisas, e melhores.

apesar de eu estar precisando urgentemente de umas roupas, e em especial de um terno, no geral não tenho muitos objetos de consumo imediato. e, mesmo dentre o que me interessa, é bom procurar, pesquisar, ponderar o que se põe na cesta.

esse mês, sabendo o valor que poderia destinar a coisas frívolas, apareceram duas coisas que achei bem interessantes. a primeira foi uma caixa com 25 cds de jazz, e bons cds: um dos melhores da Sarah Vaughan, “Lady in Satin” da Billie Holiday, “Kind of blue” do Miles Davis, o disco italiano do Chet Baker e um de blues da Nina Simone, dentre outros. com o frete e os 6,38% de IOF, saiu por… 100 reais.

100 reais por 25 discos. caramba. deve haver alguma(s) tralha(s) no meio da caixa, mas por esse preço eu nem tenho como achar ruim.

depois recebi um email da Wine.com.br sobre uma marca de champanhe que não conhecia: Montaudon. ela pertenceu ao grupo LVMH entre 2008 e 2010, numa manobra para adquirir terras, coisa muito restrita na região de Champanhe, única que pode batizar espumantes com esse nome. depois foi vendida e sua bebida ganhou 91 pontos (de 100) de um crítico chamado Robert Parker, bastante famoso. o preço era uma pechincha: R$ 90 – 40% menos que uma garrafa de Piper-Heidsieck, a champanhe mais em conta na Scotch House.

não entendo nada de vinhos, então vou provando-os até formar meu gosto. adoro cava, gostei dos vinhos da vinícola argentina Alamos, acho os da uva sul-africana Pinotage um excelente custo-benefício, a patroa me mostrou os da uva Carménère, comprei uma garrafa de Batasiolo Barolo depois de ler sobre esse vinho no Bacco e Bocca, para tentar (ainda não provei). e não tenho pretensão nenhuma de virar enólogo, só quero ficar alegre (hic) com algo gostoso.

e ei, eu não tomo tanto vinho assim. mas R$ 90 por uma garrafa, embora mais do que eu pague numa garrafa de vinho normalmente, parecia uma boa… e assim o fiz.

acho que foram duas boas compras. posso estar errado, se os cds forem uma porcaria e a champanhe também, mas pelo menos o prejuízo não será grande. por ora, foram dois grandes negócios.