quid pro quo

deve ter coisa pior do que uma inflamação nevrálgica bem no meio das costas, que te faz morrer de dor sempre que você precisa se virar e locomover para outro lado. deve ter.

mas enquanto a minha durar, vai ser difícil imaginar o que pode ser pior.

frigideira

continuando as notas peruanas: a culinária do país é uma delícia.

já conhecia alguns pratos, como o lomo saltado (escalopes de filé preparados à moda chinesa, com cebola roxa e pimentão, em um molho de vinagre com shoyu) e o ají de gallina (frango ao molho de pimenta ají, que não arde). descobri, então, que os pratos principais baseados em camarão não são consideravelmente mais caros que outras opções, como ocorre por aqui, e que a qualidade dos frutos do mar é bem boa – uma pena que a variedade não é das maiores e que o salmão predomine.

para quem gosta de carnes exóticas, há a opção de comer alpaca, cujo gosto e textura se aproximam do avestruz. e há, ainda, a carne de cuy, que conhecemos aqui como… porquinho-da-Índia. pois é: aquele bichinho fofinho é prato de luxo em terras peruanas, e quando a Lu mostrou para nossa guia uma foto da Pietra em que a gatinha se parecia com um cuy, a mulher tomou um susto e disse “aaaaaah, tu tienes un cuy mascota!”. hahahahahaha…

fora isso, também sabia que o Peru tem, literalmente, centenas de variedades de milho e batata: do primeiro, há desde o milho branco (choclo, consumido em espigas e sopas) até o roxo (chicha, do qual se faz um suco doce que leva canela), passando por um outro que tem a aparência daqueles peruás que se recusam a estourar na pipoca… mas tem consistência macia e é usado como salgadinho. quanto às batatas, vi uns três tipos diferentes escoltando os pratos principais, além de uns chips de várias espécies. quando fritas, elas têm uma certa maciez por dentro, e por fora levam algum tempero diferente que não identifiquei.

mesmo os hotéis em que ficamos tinham excelentes opções, com pouca coisa fazendo parte daquele menu genérico e inodoro feito para não ofender ninguém que predomina por aí. a Lu se apaixonou por uma sobremesa que comeu no hotel de Aguascalientes, na base de Machu Picchu, e fora dos hotéis nós comemos muito bem no Saqra, em Lima. em Cusco, achamos o Le Soleil, um restaurante francês (!!!) que também foi muito bom, apesar de o risoto dela ter mais canela (!!!) do que o desejado.

mas comer bem por lá acaba sempre chegando a uma das maiores celebridades peruanas: Gastón Acurio, o chefe de cozinha que detonou uma onda de interesse pela gastronomia do país. dono de uns quinze restaurantes, apresentador de reality show, dublador de um dos personagens do desenho “Ratatouille” e empresário de sucesso, ele investe pesado em pesquisa de ingredientes locais e no treinamento de mão de obra para agregar valor à comida. lembro bem de uma matéria da “Monocle” falando muito bem do cara, e antes de viajar fiz uma reserva no Astrid y Gastón, seu restaurante mais conhecido e eleito o 35º melhor do mundo esse ano (aquela em que o D.O.M. figura na 4ª posição).

queria provar o menu degustação, composto de 21 pratos e que custa 320 sóis (cerca de R$ 250, baratíssimo para algo desse porte). entretanto, uma empanada de frango assassina comprada no snack bar oficial de Machu Picchu, na véspera, me causou a maior intoxicação alimentar que tive na minha vida, então teria de passar os dias seguintes comendo de forma moderada – e sem álcool. empenhei-me em aproveitar o Astrid y Gastón, e nem foi preciso tanta força assim: o azeite do couvert era fantástico, o leitão que pedi como prato principal idem, e o café ainda veio acompanhado por um armário de docinhos.

tudo isso por bem menos do que se pagaria aqui por refeição equivalente. viajar ao Peru só para uma farra gastrônomica já teria sido divertido mas, como já disse, há outras coisas bem interessantes por lá.

visú

como país pobre que é (e que lembra o Brasil de 20 a 25 anos atrás nisso), o Peru tem áreas muito feias, nas quais a ocupação foi desordenada e as construções são medonhas. mas a beleza da parte turística compensa isso com sobras: Lima tem belas praças, tanto em bairros mais internos quanto à beira-mar, e as praças também são um destaque de Cusco. os sítios arqueológicos variam entre o inusitado (Sacsayhuamán, ou sexy woman, te ensinam os locais a não esquecer o nome) e o soberbo (as terraças de Moray, por exemplo).

eu e a patroa visitamos também os salares de Maras, outra atração bem bonita. tudo bem, não deve ser muito agradável trabalhar lá, mas é bonito. no Vale Sagrado, as cidades são minúsculas: Urubamba, por exemplo, tem apenas uma rua asfaltada (a estrada) e sem ela tudo viraria o caos. no dia em que passamos por lá, um funeral fechou a rua e demoramos 40 minutos para andar 500 metros.

como esses lugares do Vale Sagrado geralmente são visitados ao longo de dois ou mais dias, é bom ficar no melhor hotel possível. em Urubamba ficamos no Aranwa, um hotel fabuloso. nossos queixos caíram, e a vontade de sair de lá era zero. na verdade, teríamos ficado mais um dia e pego aqueles tratamentos de spa que eles oferecem, se soubéssemos. em Lima, se o hotel não é grande coisa, a cidade te dá opções… mas nesses lugares menores não é assim.

e Machu Picchu… ah, Machu Picchu…

sabe aquela imagem de doidões e esotéricos que você tem de lá? eles estão lá. mas tem muita gente normal também, e é uma torre de Babel: a patroa e eu víamos ingleses, americanos, chineses, japoneses, brasileiros, latinos de todos os cantos… e de todos os tipos. culpa da paisagem maravilhosa: em Ollantaytambo, que visitamos antes de subir a Machu Picchu, já nos deparamos com umas coisas cinematográficas… e lá em MP o drama é ainda maior. de tão bonito, não parece real, só que é. e para onde quer que você olhe, o encanto está presente.

é um clichê dos grandes dizer que Machu Picchu é o ápice da viagem – e em termos de beleza natural, é mesmo.

extremidade

então, já tem uma semana que cheguei do Peru e ainda não falei sobre como foi a viagem. o que tenho a dizer vai ser espalhado por alguns posts, começando pelo do clima:

– o clima não é para iniciados. cada lugar que a patroa e eu visitamos tem um clima diferente, e todos são insólitos para quem está acostumado com a pouca variedade brasileira. por conta da corrente de Humboldt, Lima (que fica à beira do Pacífico) é permanentemente coberta por uma camada de névoa, então nunca faz sol. para completar, a corrente não deixa que chova na cidade – no máximo, garoas finíssimas que dizem ser frequentes. um local me disse que a última chuva de verdade aconteceu em 1975, outro disse que foi em 1983; de toda forma, as casas não têm telhados, apenas lajes.
– em Cusco, a 3,4 mil metros de altitude, se você sai ao sol sem bloqueador vai se queimar: o índice de raios UV é altíssimo. e se você se abrigar na sombra vai morrer de frio: é bizarro sentir a diferença. mais que isso, os trinta e tantos graus positivos durante o dia viram, à noite, algo entre zero e dez. senti minha mandíbula batendo freneticamente numa simples caminhada sem casaco da van até a porta do hotel, coisa de 50 metros;
– no Vale Sagrado e em Machu Picchu o clima é uma versão um pouco mais amena do de Cusco (são mil metros menos), mas não espere tranquilidade: o fôlego lhe falta do mesmo jeito e à noite a temperatura despenca.
– ir entre julho e setembro significa pegar muita poeira no ar, exceto em Lima: a aridez do interior peruano é selvagem. recorrer ao oxigênio em tubos e cilindros é coisa recorrente entre os forasteiros.