prontofalei

coluna da Lucy Kellaway que saiu no “Financial Times” semana passada e hoje no “Valor Econômico”…

Se você precisa mesmo me recusar, pelo menos seja direto

Em dezembro, Elly Nowell foi entrevistada como candidata a uma vaga na faculdade Magdalen, de Oxford, para estudar direito. Quando chegou em casa, sentou-se e redigiu uma carta para a instituição ancestral. “Lamento muito informá-los que vou retirar minha candidatura”, escreveu. “Entendo que possam ficar decepcionados com essa decisão, mas vocês concorriam com muitas universidades fabulosas, e, depois de sua entrevista, temo que vocês não correspondam ao padrão de universidade que será alvo de minhas considerações.”

Essa garota de 19 anos me ensinou duas coisas importantes sobre cartas de recusa. A primeira é como elas funcionam bem na direção contrária: do candidato para o entrevistador. A rejeição do poderoso pelo sem poder não só faz muito bem para a alma como pode fazer sentido do ponto de vista tático. Dispensar um namorado excessivamente autoconfiante é uma manobra consagrada; não vejo por que o mesmo não valeria para empregos e vagas na universidade.

Se existe alguém que possui alguma centelha, por menor que seja, na faculdade de direito de Magdalen, estará certamente lamentando o afastamento dessa garota corajosa e engraçada (embora talvez se pergunte se o direito, o mais chato de todos os cursos chatos, seria o certo para ela).

Em segundo lugar, ao imitar a carta padrão de rejeição, Nowell revela quão patética essa forma de comunicação é. Arrogantemente paternalista, hipócrita e brutal. Só existe uma maneira aceita de escrever essas coisas, empregada por todas as organizações do mundo, e ela é composta de três partes que dizem o seguinte: “Obrigada por seu interesse em…”, começam todas elas. “Tivemos um número recorde de candidatos altamente qualificados e lamentamos que…” E depois, um fecho otimista: “Desejamos-lhe tudo de bom para o seu futuro”.

Todos os três componentes são elementos de choque – longe de abrandar o golpe, eles o intensificam.

Primeiramente, como um rejeitado, você não quer receber agradecimentos por seu “interesse”, uma vez que o que você demonstrava não era interesse, e sim desejo de obter um cargo. Também não é, nem de longe, consolador saber quantos outros ótimos candidatos havia. E, pior de tudo, ninguém gosta de bons votos vazios vindos de alguém que os está mandando cair fora.

Quando se formula uma recusa em palavras, o quanto menos, melhor. Quando um dos meus filhos foi recusado por uma universidade foi menos desgastante ver a palavra nua e crua REPROVADO em seu formulário de candidatura on-line do que ler a carta que chegou alguns dias depois com suas más notícias rotineiramente embaladas com falsos bons votos.

Pode-se pensar que há maneiras melhores de dizer não. Howard Junker, o fundador da revista literária ZYZZYVA, devolvia contos acompanhados de uma carta que começava assim: “nobre autor, perdoe-me por devolver sua obra sem oferecer comentários. Gostaria de imaginar alguma coisa que neutralizasse minha grosseria, mas acho que algumas observações rápidas não serão, na verdade, de qualquer ajuda.” Ele assinava com um “Toca para a frente! J”.

Que encantador, pensei. Mas aí li um blog de um autor não tão nobre que recebera essa mesma carta várias vezes e a achava tudo menos encantadora. A questão é que nenhuma carta padronizada jamais consegue atenuar qualquer golpe.

Recusa é recusa, e dói.

Na verdade, às vezes uma rejeição brutal é melhor. O ator Sir Antony Sher descreveu muitas vezes a carta que recebeu da Royal Academy of Dramatic Art que dizia:

“Você não apenas foi reprovado no teste, e não queremos que você faça uma nova tentativa, como recomendamos seriamente que pense em outra profissão”.

No mesmo sentido, cerca de 30 anos atrás, um destacado colega meu se candidatou a um emprego na “The Economist” e recebeu uma carta de rejeição do secretário do editor que lhe pedia que não voltasse a contatar o editor. Essa indelicadeza só pode fazer o destinatário pensar “vá se danar” e enchê-lo exatamente do tipo certo de espírito de porco para continuar lutando até conseguir.

O único tipo de carta de recusa meritório é o que cita os motivos. Nowell disse à Magdalen que a considerava arrogante e pouco amistosa para com candidatos não provenientes de escolas consideradas de primeira linha, um argumento que a faculdade poderia fazer bem em considerar.

Ao oferecer uma explicação, ela não estava imitando o estilo comum: os empregadores quase nunca dão motivos, por medo de serem processados, porque não querem comprar uma briga ou porque seus processos de contratação são tão nebulosos que nem eles sabem a explicação.

A melhor carta de recusa que já recebi trazia um motivo que nunca esquecerei. Eu tinha escrito a um certo Ivan Sallon, editor de “Cidades” do “Sunday Telegraph”, pedindo emprego. Ele respondeu que não havia vagas e foi além: “Posso lhe dar um conselho? Ao se candidatar a um emprego, tenha o cuidado de grafar os nomes corretamente”. A carta estava assinada: Ivan Fallon.

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