certificado

meu treinador é um cara legal. uma das pessoas mais batalhadoras que eu conheço. e, além de pegar pesado em busca do melhor condicionamento físico dos alunos, eu inclusive, ele também é DJ. começou tocando a eletrônica mais fácil e rasteira, o trance, depois foi evoluindo por outros lados da eletrônica comercial e coisas mais elaboradas. comprou equipamento, músicas, ouviu mais coisas, foi se arriscando a mixar.

ele ouvia rock comercial quando era moleque, essas coisas de FM. no ano passado, apareceu um trabalho para ele tocar rock numa festa que ele disse que era mais alternativa. como fui indie durante sete anos, até 2004, e ajudo o chefe a fazer a Popload, ele veio me pedindo umas recomendações sobre o que tocar. mandei umas sugestões: Kasabian, Phoenix, Metronomy, Röyksopp, Arctic Monkeys etc. dias depois, ele veio dizendo que tinha gostado de muita coisa que eu mandei, e que tinha sido um sucesso, a própria dona da festa (particular) foi elogiá-lo.

mandei uma segunda lista de sugestões, e ele gostou também. tanto que, depois que montou o próprio estúdio para treinar, sempre que estou lá ele coloca algo para me animar na ergométrica, na esteira ou na malhação geral. ontem, por exemplo, rolou uma sequência com Lana Del Rey, Drums e Rapture – remixados. comentando o remix de “How deep is your love” (que não é a dos Bee Gees), o Adriano comentou comigo que havia gostado dessa versão, muito mais que a original, que era uma eletrônica maneira. ao ouvir isso, o Kraftwerk me veio à cabeça, e como havia internet sugeri que ele procurasse algo dos pioneiros alemães.

quando começou “Das Model”, ele ficou doido. depois vieram “Taschenrechner” e “Tour de France”, que provocaram idêntica reação. a cada clássico teutônico, uma cara de quem estava maravilhado com aquilo – e estava mesmo. falei um pouco sobre a banda, sobre essas músicas terem pelo menos trinta anos, sobre eles construírem os próprios sintetizadores, sobre as letras ingênuas. vi que ele se amarrou no papo, tanto que manifestou sua vontade de tocar Kraftwerk numa próxima apresentação.

hoje cedo voltei lá, para malhar as pernas, mas falei para ele colocar alguma coisa pop, que ele mesmo escolhesse. e veio “O Astronauta de Mármore”, do Nenhum de Nós, um clássico das nossas infâncias. aproveitei o gancho e perguntei se ele queria ouvir a versão original da música – e o apresentei a “Starman”, do Bowie. o mesmo encantamento do papo sobre o Kraftwerk voltou e ele, que também teve a infância marcada pela versão brasileira Herbert Richers gaudéria, disse logo de cara que preferia a original. sorri e o apresentei a “Ziggy Stardust”, “Space Oddity” (que ele já conhecia mas não sabia de quem era) e “The man who sold the world” – que ele conhecia pelo Nirvana. quando disse que o David Bowie e o Kraftwerk eram peixes, rolou um êxtase.

pouco depois ele colocou uma gravação ao vivo do Nando Reis tocando “Marvin”, outro clássico da nossa infância. na inocência, ele me perguntou se essa música também era versão de outra. e é: fomos atrás da original, que eu nunca tinha ouvido, e o Adriano ficou bem surpreso. fiz uma lista de coisas para ele procurar e ouvir, e quem sabe gostar e ver o tamanho disso tudo.

isso tudo me lembrou que, pouco tempo atrás, a fúria legislativa começou a movimentar um projeto que exige curso para que os DJs se apresentem – um absurdo sem tamanho, já que o máximo de ruim que pode acontecer por um DJ mandar mal é ele tomar uma vaia e você pensar “perdi R$ 100 para ver esse mané”. um descalabro, sem dúvida. mas a julgar por isso aí que passei para ele, entre ontem e hoje, se essa porcaria infelizmente virar lei, quem sabe eu não possa ganhar um extra dando aula para essa gente enquanto algum DJ já estabelecido os ensina a mixar…

p.s.: até meu treinador, na academia, manda melhor que os DJs brasilienses de rock. que beleza…

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