suave é a noite
esses dias eu me lembrei de um texto lindo que o Álvaro Pereira Júnior escreveu quando da morte do Paulo Francis, ainda o maior jornalista que este país já conheceu. saiu na “Folha de São Paulo” de 10 de fevereiro de 1997 e, me lembro, fiquei emocionado na época – o que não me impediu de chorar quando o reli, hoje.

Apresentação tardia a Paulo Francis
Álvaro Pereira Júnior
especial para a Folha

A coluna de hoje não é sobre rock, é sobre o maior ídolo que tive na vida. Ele não tocava guitarra e cantava muito mal. A coluna de hoje é sobre Paulo Francis (1930-1997).

Nunca me apresentei a ele. Trabalhei a seu lado uma única vez. Foi em 1988, quando a Folha publicou a polêmica “lista dos improdutivos” (uma relação de docentes da USP que segundo a reitoria tinham produção científica insuficiente). Correspondente em Nova York, Francis visitava a Redação em São Paulo e foi convidado a escrever sobre esse tópico que tanto o incomodava: a inépcia acadêmica nacional.

A editora se aproximou dele, explicou do que se tratava e pediu o texto. Ainda facilitou: “Não precisa se preocupar com o computador. O Álvaro, nosso redator, digita tudo para você.”

Francis respondeu: “Tudo bem, mas preciso pensar um pouco.” Deu meia-volta, andou cinco passos, virou-se de novo para nós e disparou: “Pronto, já pensei. Vamos lá.”

Até hoje, como jornalista, nunca passei por emoção igual. Francis ditou para mim, então um completo “foca”, um texto de meia página. Sem parar. Até fiquei um pouco chateado, porque ele soletrou o nome Schlesinger (o texto fazia uma menção a Arthur Schlesinger, biógrafo de John Kennedy). Mas a emoção era maior do que desconfiança de que Francis tivesse me achado meio burro.

Depois disso, disputei com outros jovens jornalistas da Folha uma vaga de correspondente-júnior em Nova York. Perdi o concurso e a chance de conviver com ele. Decidi nunca mais concorrer.

Vi Francis de perto muitas outras vezes. Na Folha e, já mais recentemente, passando pela Redação do jornalismo da Rede Globo.

Há poucos meses, ele parou na frente da minha sala e acenou para o Pedro Bial.
Através da porta de vidro, vendo os dois conversando, cheguei a cogitar de dizer ao Francis: “Olha, eu sou o Álvaro, admiro muito você e quase fui seu correspondente-júnior em Nova York, mas perdi o concurso.” Temeroso de que ele me achasse burro uma segunda vez, desisti. Desperdicei minha última oportunidade.

Tudo o que escrever aqui será pouco para dimensionar a formidável influência de Francis sobre minha geração de jornalistas. As citações caudalosas, o inconformismo com a inércia da cena cultural brasileira, o desinteresse pela MPB, a revolta contra a triste ação entre amigos que é o jornalismo de cultura neste país. Tudo isso nos moldou e não é exagero dizer que muitos de nós nem teríamos seguido a profissão, não fosse a admiração por Paulo Francis.

Fica aqui um obrigado e uma apresentação cruelmente tardia: “Francis, eu sou o Álvaro, e admiro muito você.”

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