Roger Moore

essa semana, Roger Moore morreu. não é meu James Bond favorito (alguns leitores daqui sabem que é o Daniel Craig), mas nem por isso o Moore era ruim; ao contrário. Marc Haynes, roteirista em uma produtora de audiovisual, contou uma história fantástica, sobre quando encontrou Moore duas vezes; uma, em 1983, no aeroporto de Nice; a outra, em 2006, trabalhando para o UNICEF. tão boa que foi ilustrada pelo cartunista Alex Paterson, conforme abaixo.

(se precisar, amplie para ler; vale a pena)

ainda estou aqui

é só que ando vivendo um pouco, então sobra pouco para escrever. a memória está, como dizia André Malraux, gravando tudo. uma hora, escrevo sobre. a câmera do celular também está registrando coisas.

como é bom ter outra vida, pouco ligada à vida “normal”, pelo menos de vez em quando.

nosso homem em Washington

comemora-se, hoje, o centenário do nascimento do grande Roberto Campos (1917-2001), o maior aforista da história do Brasil, diplomata e político. o único cara que admiro em 500 anos de funcionalismo público do país. e que faz uma falta imensa: adoraria ler ou ouvir o que ele diria da situação política do país nos dias de hoje.

um lanche, parte 1

na semana passada, na refeição livre que tenho durante a semana (estou de dieta, e efetivamente a sigo), fui comer no 180, fuditrãque brasiliense que faz um dos melhores hambúrgueres da cidade (o Burger Club, na entrada da 210 Sul, é outro lugar que faz um excelente). enquanto esperava meu lanche, conversei com um tiozão viciado em hambúrgueres, que me disse que o Páprica Burger era o melhor da cidade, com o 180 vindo logo atrás.

já me tinham falado bem desse Páprica e decidi que, quando tivesse uma oportunidade, iria lá. ontem à noite, chegou a vez: antes de ir, consultei o que a internet dizia a respeito, sendo que havia o alerta de que a casa, instalada em um contêiner (!!!) no Eixinho Norte (!!!), na altura da 204, tem poucas vagas de estacionamento, o que implica deixar a viatura nas mãos de um manobrista, morrendo com R$ 10 nesse processo.

sabendo disso, estacionei o carro na 204 Norte, a quadra dos oficiais da aeronáutica, e me preparei para atravessar o Eixinho por baixo, naquelas passagens mal conservadas. só que… surpresa: a 204 norte não tem uma passagem! com isso constatado, dei uma volta maior, atravessei pela tesourinha e cheguei até o Páprica. tudo isso para economizar R$ 10, porque meu dinheiro não dá em árvore e acho surreal uma lanchonete em posto de gasolina ter manobrista quase obrigatório. peguei a fila, fui escolhendo o pedido e optei por uma chutada de balde em grande estilo: o hambúrguer “inglês” (com cheddar, bacon e cebola frita), chips de vários legumes (cenoura, batata doce, inhame, batata e algo que não lembro) e um milkshake sabor… churros.

a combinação saiu por R$ 56 – não é barato, definitivamente. mas o hambúrguer é primoroso, e só não leva nota 10 porque o bacon, pobre coitado, é seco demais. peça seu lanche sem bacon, e ele incrivelmente será melhor. os chips são perfeitos, e o Páprica tem o melhor ketchup de todos os tempos: feito pela casa, a casa sabe dos predicados e o vende em garrafas para que se possa consumir alhures. recomendo que todos provem o ketchup deles, inclusive aqueles que não piram na iguaria, porque é daquelas que ensejariam um livro da coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, a ser intitulado “O QUE É KETCHUP”. vai bem tanto no sanduíche quanto com os chips.

o milkshake de churros é delicioso, mas esconde um problema: é exponencialmente cansativo. você começa achando que vai tomá-lo tranquilo, mas, depois da metade, ele fica difícil de ser terminado – a dificuldade sobe em progressão exponencial crescente. dessa maneira, um milkshake de churros atende bem a duas pessoas, não há necessidade de cada um pedir o seu. no final das contas, o Páprica é excelente, mas podia ser melhor localizado ou, ao menos, ter um estacionamento decente. como a casa vive lotada, não creio que os donos pensarão demasiado sobre isso.

no mais, o Páprica Burger tem um ambiente bem hipster, com tudo envelhecido de propósito, frequentadores vestidos como tais (tinha até uma menina no estilo vedeta anos 20 numa das mesas) e uma trilha sonora que muito me agradaria quinze anos atrás – de Feist remixada a The Coral, uma daquelas bandas que o New Musical Express vendeu como a salvação do rock ao longo de oito ou nove dias, e despontou para o ostracismo logo depois. entretanto, como estamos em 2017 e eu pouco ouço essas porcarias hoje em dia, achei a trilha sonora uma merda. música pop, aliás, é uma merda, com raras exceções.

daí atravessei o Eixinho por cima, para voltar ao meu carro, e, na entrada da 204 Norte, deparei-me com um trailer de cachorro-quente. mas isso é assunto para a parte 2.

coisas que eu nunca te disse #114

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

(Alexandre O’Neill, “Um adeus português”, 1958. grifos nossos. declamação pela Matilde Campilho, aqui, via Alexandre)

dialeto

via Lisa, uma bela história publicada uns dias atrás…

Linguistas lutam para reviver o cristang, dialeto português de mais de 500 anos
Tessa Wong, da BBC News em Cingapura

Até dois anos atrás, o universitário Kevin Martens Wong, de Cingapura, mal tinha ouvido falar em uma língua falada por ancestrais seus. O jovem linguista pesquisava línguas em extinção quando se deparou com um livro em cristang, também conhecida como papiá cristang ou português malaká. Ao aprofundar-se no assunto, percebeu que ela era falada por seus avós maternos.

Ele tinha ouvido um pouco de cristang na infância. Mas seus avós não eram fluentes, e sua mãe não falava a língua. “Eu aprendi mandarim e inglês na escola – e meus pais falam inglês comigo. Então nunca reconheci este lado da minha herança”, disse Wong, que é metade chinês e metade português eurasiano – nome dado em Cingapura e na Malásia aos descendentes dos portugueses que chegaram no século 16 ao então sultanato de Malaca e se misturaram à população local.

Malaca, hoje um estado da Malásia, tornou-se base estratégica para o comércio dos navegadores portugueses, que também ocuparam enclaves no Japão e na China. O contato de Portugal com a região terminou na metade do século 17, quando os portugueses foram derrotados pelos holandeses, que tomaram Malaca. No século 18, o controle passou para os britânicos até que, em 1957, a Malásia declarou sua independência.

Cristang – o nome é uma referência a “cristão” – é uma língua crioula, ou seja, surge da mistura de várias outras. No caso, deriva do português, do malaio e tem elementos do chinês, como o mandarim e hokkien (um dialeto asiático). No século 19, era falada por pelo menos 2 mil pessoas, afirma Wong. Hoje, calcula-se que apenas cerca de 50 em Cingapura e outras poucas centenas espalhadas pela Malásia sejam fluentes.

A principal razão apontada para o declínio é que a comunidade se tornou menos relevante economicamente. Quando Malásia e Cingapura ainda eram colônias britânicas, muitos portugueses eurasianos encontraram trabalho no serviço público. Com isso, o inglês se tornou mais importante, e muitos começaram a desencorajar seus filhos a falar cristang.

‘Fui punido por falar cristang’

Bernard Mesenas, de 78 anos, lembra que apanhava do pai com um cinto quando era pego falando cristang. “Meu pai não gostava, dizia que eu não podia falar a língua porque estragaria meu inglês”, disse à BBC. “Eu argumentava que era a língua da minha avó. Ele então colocava as mãos em seu cinto – e eu me escondia atrás da minha mãe.” Quando os britânicos deixaram a região, os recém-independentes Malásia e Cingapura decidiram quais línguas faladas por sua população multicultural deveriam ser oficialmente reconhecidas – e cristang não estava entre elas.

O declínio continuou à medida que os portugueses eurasianos se casavam com outros grupos étnicos e suas crianças passavam a falar outras línguas. Em Cingapura, onde toda criança deve aprender uma segunda língua depois do inglês, muitos eurasianos escolheram o mandarim. Até no vilarejo conhecido como “Vila Portuguesa” de Malaca, onde ainda vive uma comunidade de portugueses eurasianos, a língua foi lentamente desaparecendo.

O pesquisador de cristang Stefanie Pillai, da Universidade da Malásia, explica que muitas famílias locais preferiram que seus filhos aprendessem o inglês. “Infelizmente, embora seja possível ouvir a língua crioula sendo falada no povoado… Há pessoas jovens que cresceram aqui, mas não são fluentes nela, falam principalmente inglês”, disse.

Para as futuras gerações

Mas Wong e um grupo de linguistas esperam mudar a situação. O grupo chamado Kodrah Kristang – algo como “Acorde o Cristang” – oferece aulas gratuitas semanais da língua. A ideia é que mais pessoas se tornem fluentes e, assim, transmitam o aprendizado a gerações futuras. A cada semana, cerca de 200 estudantes – muitos portugueses eurasianos – assistem às aulas. Entre eles estão os avós de Wong. A ironia de aprender sua língua nativa com a ajuda do neto tem um significado especial.

“Nunca me ocorreu que cristang era a minha língua, sempre pensei que fosse o inglês”, disse Maureen, de 80 anos. “Eu sentia saudade, achava que tinha de tê-la aprendido melhor para poder falar com meus filhos.” “Mas não é tarde demais para aprender”, afirmou a vó de Wong. “E acho que é ótimo que jovens possam ensinar uma pessoa mais velha, especialmente quando é seu próprio neto.”

Preenchendo as lacunas

Mas reviver uma língua que estava prestes a morrer não é fácil. E um dos maiores desafios é que o cristang é principalmente uma língua falada, sem muitos registros. Não existe um sistema de ortografia e pronúncia normalizado, e uma palavra pode ter dezenas de variações. Um exemplo: a palavra para o número “quatro” – quartu em cristang – pode ser falada e pronunciada de 20 maneiras diferentes. E como a língua está em declínio há muito tempo, existem várias lacunas em seu vocabulário. Cristang não tem palavras para conceitos básicos como maçã, enfermeiro, estação ou câmera. “Mas temos várias palavras para genitália”, conta Wong, brincando.

Para resolver este problema, o grupo inventou novas palavras a partir da mistura de línguas que estão nas raízes do cristang. A palavra em cristang para maçã se tornou manzang, uma adaptação da palavra em português com uma regra gramatical malaia. “Panda” agora é um bruangatu, ou “gato urso”, uma tradução da palavra em chinês com influência malaia. Algumas dessas invenções podem ter até uma inclinação poética: uma câmera é pintalumezi, ou “máquina de pintar com a luz”, enquanto a palavra para “gramática” é osulingu -“ossos da linguagem”.

Além das aulas, o grupo organizou visitas à Vila Portuguesa de Malaca, começou a desenvolver um dicionário e um livro didático, criou cursos de áudio online gratuitos e até gravou covers de músicas populares em cristang, que foram publicados no YouTube. Em maio, eles realizarão o primeiro festival de cristang, o Festa, que terá palestras, workshops e um passeio histórico.

Eles acham ainda estar longe de ressuscitar o cristang e de vê-la sendo usada como língua corrente. Mas veem o esforço como um primeiro passo. “Gostaríamos que o cristang um dia fosse reconhecido pela comunidade em geral”, diz Wong. “Não há razões econômicas para ele voltar, mas é parte da nossa história e herança.”