azeite

não ter foco é um problema. ter vários focos é ter vários problemas. não sou um cara específico, gosto de estar em vários projetos e fazer várias coisas ao mesmo tempo. e querer se mover enquanto faz tanta coisa tem um preço caro: o de se cansar.

eu me canso justamente para não me cansar do que faço – e, se isso acontecesse, eu correria o risco de me cansar de mim mesmo. e tenho fé que, mais cedo ou mais tarde, algo do que eu faço vai dar certo. não há garantias de que isso aconteça, mas é preciso agir acreditando e ponto.

completei 31 anos nessa segunda. fiz bastante coisa do aniversário de 2011 para cá, não fiz nada nesse período todo. é um “drama irresolvido”, para usar uma expressão do Paulo Francis: voltei à faculdade, me vi pensando em coisas profissionais que nunca tinha cogitado, entrei numa espiral de pânico, saí dela, voltei a me ver dentro dela hoje – mas acordei antes de ser sugado. vi um gosto estranho começar a se desenvolver, vi a oportunidade de me aprofundar em coisas que não conhecia direito – e continuo obtuso, mas disposto a me aprofundar.

também vi ao vivo minhas duas bandas preferidas, completei um ano de namoro, decidi que preciso jogar fora todos os meus sapatos, aprendi a manter um carro alemão que me dá alegria, mesmo que acompanhada por uma salgada conta da oficina.

um ano pesado, um bom ano. quem quiser moleza, que troque a ambição pela vergonha. um ano em que levei a sério a história do “ou você faz parte do problema ou faz parte da solução”, e briguei para estar no segundo grupo. um ano que acabou mas não acabou: a batalha continua, a guerra continua, o “drama irresolvido” persiste.

*

enfim, ao dia. a patroa me acordou às 6:15 com um delicioso bolo de chocolate, a academia ficou de lado. pedi que as comemorações fossem discretas, de uma forma geral, porque ainda não me conformo por este ser o primeiro aniversário em que não recebi um telefonema da minha avó me dando os parabéns. que saudades da d. Vicentina.

mas muita gente lembrou, fico feliz por isso. muito. faz as coisas valerem a pena. e eu não tenho Facebook, então é mais difícil que se lembrem. mas lembram. e não que eu fique triste se não acontecer: em tempos de overdose, é difícil, para muitos, ater-se a cada coisa, por mais preciosa que seja.

não deu para almoçar do jeito como deveria ser (entrada, prato principal, sobremesa, vinho), mas já separei um dia da semana para fazê-lo. passei o dia costurando trabalhos escolares, e deu tudo certo no final. esse drama, pelo menos, foi resolvido. e ainda pude ouvir um amigo desabafar sobre o trabalho, ajudar uma colega em dilema acadêmico, ir ao supermercado ganhar 100 pontos do Cartão Mais e abastecer a despensa.

tenho que agradecer pelo que tenho, mas lembrar que quero mais.

funny time of year

tem uma época do ano que me deixa feliz: ela vai da primeira chuva depois do período de secas até o início das cigarras e do horário de verão. tem ano em que esse período dura dois meses, tem ano que não chega a um.

não tenho um nome específico para ela. a edição 2012 começou na última sexta-feira e está ali fora, pronta para que eu e você aproveitemos. mas provavelmente só vou desfrutar dela no ano que vem, já que continuo mergulhado em coisas para fazer. mas não posso reclamar: esse esforço todo haverá de dar em algo.

o período de provas na faculdade começou no mesmo dia, sexta passada, e vai até a segunda-feira da semana que vem. não estou estudando, não estou lendo os textos, acreditando na facilidade que é cursar uma graduação de um curso que vivo na prática há uns dez anos. mas no meio disso há uma pilha de teoria, aquela coisa para a qual nunca me atentei além de pequenos detalhes que já se perderam com a redação das páginas ao longo do tempo.

há ainda uma outra prova para a qual estou estudando, que aconteceria no próximo domingo e deve rolar no meio do mês que vem. ela é só o começo de um desfiladeiro ainda maior, que vai se tornar uma escarpa a rasgar boa parte do meu próximo ano e que, quem sabe, tenha boas notícias ao final do penhasco. estou falando difícil, não sei como descrever isso. vou só vivendo, tentando me preparar para aquilo que posso e pronto.

de um mês para cá comecei a me submeter à ditadura do temaki, aquele cone japonês que virou meu jantar em metade dos dias da semana: tem a porção certa da comida certa, e o que a lanchonete da faculdade vende é gostoso, fica pronto em pouco tempo e não custa os olhos da cara. a ditadura do temaki abrange também meu atual consumo cavalar de chá gelado, de pêssego e de limão, de qualquer marca mas sem açúcar. e também tem a ver com o fato de que passei três semanas ouvindo apenas música lounge, eletrônica leve e instrumental, porque não queria perder meu tempo pensando em música.

perdi dois quilos, mas a dieta previa que perdesse cinco. mudei meus hábitos alimentares nos sete dias da semana, comprei mais uma garrafa de chá gelado e estou tentando me segurar nos eixos, tanto na ingestão de comida quanto na disposição física. não tem sido fácil. não vai ser fácil. mas se eu quisesse mesmo algo fácil, já teria jogado a toalha para muitas coisas da minha vida há um bom tempo.

não quero chegar a lugar algum com esse post, só desabafar. o fim do lounge chegou uns dias atrás, depois de o Fábio me lembrar que os primeiros discos do REM existem. a coisa passou por um monte de músicas aleatórias da Nina Simone, depois pela “September song” do Bryan Ferry e chegou a “Graffiti women“, do Suede, cuja letra não entendi até agora. melhor: meu cérebro, atualmente em lento processo de cocção e fritura, não processou como deveria.

mas essa situação toda não me impede de ir até a janela de vez em quando, entre uma missão e outra, e ver o céu todo cinza enquanto a água desaba ao redor daqui. nem de abrir um sorriso perto da hora de o sol se por, porque de alguma forma acho que o poente dessa época não tem equivalente em termos de beleza. dentre as razões todas para me animar, essa é a que me acompanha há mais tempo, antes mesmo de eu morar aqui. e que bom que, no meio de tanta coisa que me ocupa a cabeça, eu não tenha desaprendido a gostar desses dias e a lembrar de como são bons.

competição

às vezes você consegue alguma coisa muito boa, mas muito boa mesmo, depois de muito brigar por ela.

aí vem a fase de manter essa coisa. normalmente se consegue, mas às vezes não dá, e você a perde.

nesse caso você vai atrás de alguma outra coisa para substituí-la, mas então você descobre que não é qualquer coisa que pode ficar no lugar: seu nível de exigências aumentou e você não quer menos do que tinha antes. às vezes não quer nem algo do mesmo patamar. quer mais.

e aí complica.

dom andra

às vezes aparece um sentimento antigo que diz apenas “é, não deu”. isso não muda, já aconteceu antes, e quando você quebra a cara ele está lá para te dizer isso. não deu, mas de certa forma é confortante e alivia sua dor.

e se alivia a sua dor, já é o suficiente.

lavada

e quando saí do trabalho, às nove da noite, as ruas estavam vazias. por instinto eu olhei para o céu, e enxerguei a beleza das coisas mesmo no meio de tantas nuvens. fazia tempo que não via uma estrela, e não foi hoje também. mas não desisti delas, e também não pretendo desistir.

falha 2

(no médico)

“- e o que é isso que você está sentindo?”
“- é uma vergonha, doutor.”
“- sim, mas o que é?”
“- aconteceu o seguinte: ano passado eu mastiguei algo que não queria comer e, ao invés de engolir ou devolver, eu fiquei com aquilo atravancado na garganta. e ao invés de tomar um simples copo de água ou de ir ao pronto-socorro, eu mantive aquilo na garganta e me mexi até que o alimento se desintegrasse.”
“- meu Deus…”
“- pois é.”
“- e o que aconteceu?”
“- passei meses desse jeito, mas isso acabou me alimentando e me fazendo bem. achei inacreditável, mas foi o que aconteceu.”
“- hum. e aí, qual é o problema?”
“- então eu voltei ao restaurante onde comi esse prato e contei a história toda. o dono do restaurante riu e disse que o desfecho da história, a minha reação… aquilo tinha sido a melhor coisa que ele havia ouvido. daí eu comi o mesmo prato, e pareceu bem mais gostoso.”
“- era um restaurante caro?”
“- era.”
“- e você gostou, então?”
“- eu comi outras vezes, e percebi uma coisa: o prato vai melhorando a cada nova visita, e sempre que eu me lembro do episódio em que ele ficou na minha garganta ele fica ainda melhor.”
“- hum.”
“- é psicológico, doutor. eu sei que é. meu estômago sozinho não faria isso.”
“- de fato. e isso, como está hoje?”
“- aí é que está o problema.”
“- o que aconteceu?”
“- eu fui a outro restaurante e comi algo que também não queria comer, e aconteceu a mesma coisa: entalou na garganta. não sei se o senhor percebeu, mas a minha voz tá um pouco diferente…”
“- … é, está, já ia te perguntar disso quando fosse te examinar. e o que você vai fazer com isso?”
“- a mesma coisa. vou me mexer até aquilo se destruir dentro de mim e me alimentar.”
“- mas compensa fazer isso?”
“- sempre que eu estou com isso na garganta eu penso que não. quando se desintegra eu passo a pensar que sim e me sinto feliz.”
“- e por quê você não pode engolir isso?”
“- porque é grande demais para descer pela minha garganta.”
“- então devolve.”
“- não posso, isso seria fraqueza demais.”

quatorze / coisas que eu nunca te disse #20

deve haver alguma coisa pior do que esse aperto no coração que estou sentindo. só não consigo me lembrar agora.

*

e do silêncio dela, esse tempo todo, eu não esperaria mais do que paisagens, folhas caindo, pequenas ondas na superfície do lago. mas ela abriu os lábios, e naquele breve sopro toda a vida na Terra foi suprimida. no instante seguinte ela voltou a ficar calada, e toda a vida na Terra acompanhou a quietude.

mas não era obediência a ela, era o fim.

*

behind the ghost on the links,
behind the lady who dances
and the man who madly drinks,
under the look of fatigue
the attack of migraine and the sigh
there is always another story,
there is more than meets the eye.

(W. H. Auden, “At last the secret is out”, 1936, musicado pela Carla Bruni em 2007. ele tinha razão, mas mesmo isso não impede a história de ter acabado, ainda que sem um começo)

chcl3

ver certas pessoas – que você ainda nem conhece, diga-se de passagem – tem um efeito semelhante ao de mergulhar fundo em um lago de clorofórmio.

e depois, quando se chega à superfície e o efeito passa, cair na real.

lombada

eu não entendo o que você diz.

é simples assim. eu não entendi quando você quis me dizer alguma coisa, e isso me confundiu. falei exatamente o contrário do que queria, e nunca soube o que você queria dizer.

nunca soube. pedi pra que você me explicasse, quando era tarde demais. era tarde, mas eu queria saber – pra mim, você nunca vem tarde.

nem assim você disse, e o teu silêncio passou a me incomodar. principalmente porque eu sei que ele não é tão silêncio assim.

mas, por causa de todas as mágoas que pavimentaram o caminho do começo até aqui, e porque você acha que não adianta mais e tudo está resolvido, você engole esse quase silêncio e não fala.

e enquanto você já sabe as três palavras que explicam o meu lado, eu continuo sem te entender.

pérola

Ich habe Hydratant-Syndrom: Immer wenn ich – während meinen Aufschönungs-Ritus – einen Schritt vergesse, geht mir etwas wichtiges los, und Ich bin nicht richtig vorbereitet. Heute passierte mir eine solche Situation. Zumindest war Ich rasiert, ohne Hydratant im Gesicht, aber was solls.

*

do you believe in love at first sight?
do you believe in fate?
I believe the good things
only come to those who wait

Black Box Recorder, “The art of driving”, 2000. Ich glaube nicht an Liebe auf den ersten Blick und auch nicht an Geschick, aber beide Sachen sind zu mir passiert. Jetzt muss ich nur beten, so dass der andere Teil der Versen Wahr wird.

*

“of all the gin joints, in all the towns, in all the world, she walks into mine.” Geschick, der kleine Hurensohn, der will dass ich ihm glaube, brachte sie zu dem einzigen Platz wo ich war. Sie, mit all dem Bedauern der Vergangenheit, mit den Problemen um Liebe zu zeigen, mit der Blassheit, die Ihr gehört und die Augen, zu den alle ansehen. Und Ich stand da, an der Kasse, und konnte mich nicht umdrehen und mir ein Getränk kaufen oder ein Chesterfield rauchen, wie Rick Blaine. Ich konnte nur die Sachen wie ein Mann anschauen und da sein, und versuchen dem Feind anzukommen.

Aber warte, sie ist nicht mein Feind, Ich mag sie.

*

(continua)