a patroa e eu fomos assistir “Melancolia”, do Lars Von Trier. escrever sobre isso demanda falar de duas coisas diferentes: a experiência do cinema e o filme em si.
enquanto o Espaço Unibancool não é inaugurado por aqui (ficou para o final do mês) e não sabemos se o reformado cinema do Liberty Mall terá filmes de fora do circuito comercial, quem quer ver qualquer coisa com menos explosões é obrigado a pegar horários alternativos (sem trocadilhos) nos cinemas disponíveis. tentamos assistir à sessão das 14h no Iguatemi, mas ela se lotou de forma impressionante, mesmo não havendo fila aparente nas bilheterias. isso nos empurrou para o Parkshopping às 18:30, e isso foi assustador.
inaugurado em 1987, o Parkshopping é o centro de compras mais antigo do Plano Piloto, Conjunto Nacional à parte. depois de umas sucessivas extensões (especialmente a ala Fnac em 2004, a ala Fast Shop em 2010 e a ala mãe-quero-ser-gastrônomo-e-paulista inaugurada semana passada), ficou do tamanho de um mamute, ganhou uma estação de metrô e uma série de condomínios do lado. ou seja, virou uma versão amenizada das ruas de Calcutá. tanta gente que você fica doido, é horrível andar, conversar, fazer compras.
não defendo que um shopping center fique às moscas, os lojistas precisam de receitas, a chegada de lojas traz consigo a necessidade de público. mas ir lá é pedir pelo desconforto e, sendo assim, eu e a patroa combinamos que não vamos ao Parkshopping em 2012 – exceto em algum restaurante desses novos, e mesmo assim na segunda ou terça-feira à noite.
isso dito e isso posto, ao filme: trata-se de uma versão hipster de “Armagedon”, filme de 1998 no qual sobrou para Bruce Willis e Steven Tyler, cada um do seu jeito, salvarem a Terra da destruição total causada por um asteróide. no lugar do Aerosmith entram umas suítes orquestradas, no lugar do Bruce Willis temos a feia-que-é-gata Kirsten Dunst e no lugar de uma equipe técnica digna de um blockbuster temos um nazista com Parkinson. mas existe uma horda de jornalistas disposta a te decapitar caso você resolva falar mal de um filme do nazistinha Lars Von Trier, pelas seguintes razões:
- jornalistas, homens ou mulheres, se identificam com a Kirsten Dunst – até mesmo quando ela é Maria Antonieta;
- de forma semelhante ao endeusamento do Zé do Caixão e da tosqueira do punk rock das riot girls, eles tratam filmagens sem tripé, enquadramento ou luz como “fotografia sensacional”;
- o filme supostamente tem conceito (já falo disso) e, se você disser que não gostou, é admitir que não o entendeu. imagine a execração de um jornalista quando, em meio à sua laia, ele admitir que não sacou;
- finalmente, jornalistas se identificam com a família problemática retratada, assim como se identificam com artistas que tenham a mesma opção sexual, independente da qualidade do trabalho em si (lembro bem de um que trabalhava na Folha e era lobista da sodomia no caderno cultural do jornal). um desses jornalistas chegou a dizer à patroa que “adorou a primeira metade do filme porque mostra o conflito de forma interessante”, ao que dá vontade de dizer “não, seu afetado, você gostou porque queria ser macho o suficiente para pagar um sincerão pra sua família como a mãe da garota o fez”. genial como sempre, a patroa sugeriu que ele assistisse o programa da Márcia, se ele gosta tanto de dramas familiares. mas jornalista e hipster não quer porrada como no programa da sra. Goldschmidt, ele quer “o discurso frágil e a tensão que não se resolve” – que é o mesmo motivo pelo qual ele não pede demissão.
enfim, o conceito do filme, segundo a patroa, é que ninguém aceitava a Justine ser melancólica, dando a ela coisas felizes no conceito deles, e quando a melancolia se aproxima provam que não sabem lidar com ela, se apavoram e enfiam os pés pelas mãos pensando em morrer e só a Justine está familiarizada com a situação, ate diz que ˜sabe das coisas˜. a moral da história cretina é que ela tem sensibilidade e os outros sao medíocres, ou vai ver que ela só já se sentia morta ha mais tempo e então tanto fazia, bupropiona nela.
eu pensei em um conceito também, mas esqueci dele quando tomei meu whey protein ontem à noite e, como alguns devem intuir, ou você é bombado ou você é cabeça. tem-se, no final, que “Melancolia” é um filme nota três, e dissecando a nota tem-se:
- um ponto porque tem a Charlotte Gainsbourg no elenco;
- um ponto porque tem a Kirsten Dunst sem roupa;
- um ponto porque o filme irritou o hipster espaçoso que se sentou na poltrona à minha esquerda e que queria usar o espaço destinado às minhas pernas. o cara era tão metido a tendência que estava num cinema de shopping de chapéu, e eu tenho de aplaudir qualquer coisa que mande um cara desses para longe, então um ponto extra para “Melancolia”.
certo?