nove

é, aguentei quase nove anos neste blógue sem colocar aqui um dos grandes clichês de blógues de gente que gosta de rock e de filmes de fora do circuito. você sabe, todos os blógues já colocaram algo sobre “Trainspotting”, “Clube da luta” e “Pulp Fiction”. todos. por isso mesmo não coloquei no meu.

mas, do jeito que a minha vida anda, nada é melhor para ilustrar o momento do que o monólogo de abertura do “Trainspotting”. troque a heroína pelo serviço público (dificilmente alguém abandona), Edimburgo por Brasília, o traficante por um dos seus chefes (ou por todos eles, de repente) e “Lust for life” por um email com um Powerpoint anexo, com Kenny G e reflexões sobre a vida, enviado por alguma secretária de outro andar que só bateu o ponto hoje porque pensa em quando se aposentar, daqui a longínquos seis anos.

é mais próximo do que parece.

tópico

tinha algumas esperanças para a reunião de hoje, transformada em almoço. falei o que precisava falar, ouvi algo aquém do que queria, mas algumas sugestões bem úteis. difíceis de operacionalizar, é verdade, mas que de alguma forma eu preciso acertar.

bem que tentei conter as expectativas. não consegui, talvez pela aflição que me dá na hora de voltar… e ver que está tudo ali, tudo aquilo que tanto desprezo e que me promete uma morte burocraticamente dolorosa. alguém vai dizer que é drama da minha parte e que não há nada de errado ali, mas trata-se de uma bomba de efeito diferido, um cenário inofensivo para quem passa dias ou algumas semanas, mas uma Chernobyl cujo efeito torna-se exponencial ao longo do tempo para quem fica.

eu estou falando do meu trabalho.

suck it and see

o Bruno me disse, agora há pouco, que esse é o pior ano da vida dele. isso me fez pensar sobre o assunto e avaliar se 2011 está sendo um ano bom. depois de dois minutos de reflexão, uma resposta: esse é um ano de extremos.

não no sentido matador da Noruega, evidentemente, mas um ano de extremos. já fiz uma viagem fantástica, já tive brigas horrorosas, já assumi um risco trocando de carro, talvez assuma outro em relação ao trabalho… e ainda tem mais coisas. é o ano em que estou pagando para ver, não sei se porque esperei tempo demais ou o quê. mas ando preferindo agir assim a ficar na zona de conforto ou na dúvida.

e apesar de umas derrotas fragorosas, típicas de políticas pessoais como esta, as vitórias e a sensação de alívio por acabar com a espera têm compensado.

capim

é bom aprender algo útil e divertido já no início da manhã. não são nem 8:30 e eu já aprendi que “ad sermonem dormire bovem” é “conversa para boi dormir” em latim. vou usar isso a cada vez que alguém tentar me enrolar.

habib

um texto do genial Paulo Maluf na seção “Quando eu tinha a sua idade”, do Folhateen (suplemento para adolescentes da “Folha de S. Paulo”)…

Fui coroinha de dom Carlos Carmelo [cardeal-arcebispo de São Paulo] dos 10 aos 14 anos, todos os domingos. A missa era em latim. Aos 11, quis ser padre. Meus pais me convenceram a não ser. Ser padre não era algo que ia satisfazer a família. Perdi meu pai aos 12. Fui educado para continuar os negócios.

Entrei na Escola Politécnica da USP com 18. No primeiro ano, disputei a diretoria e perdi para o Zarattini, que depois foi artista de televisão [o ator Carlos Zara]. No segundo ano, ganhei. Dirigi por quatro anos o grêmio da Poli. O Mario Covas [governador de São Paulo morto em 2001] era uns dois anos mais velho, mas estava um ano atrás [na Poli]. Não sei se foi porque ele levou três bombas no vestibular ou porque teve alguma outra dificuldade na vida.

Mas ele nunca, internamente, se convenceu de que era pior do que eu. E não era! Ele tinha… Não vou dizer inveja. Era um pouco um olhar não condescendente porque eu ia para a Poli de carro importado. Fui de Jaguar conversível, Pontiac, Lincoln… Dos 800 alunos, não sei se existiam 20 com carro! Eu realmente tinha, mas foi porque meu pai trabalhou. E eu comecei a trabalhar com 14, na serraria da família.

Um colega, Jaime, me convidou para o Partido Comunista. Eu disse: “Nada contra a liberdade que você tenha de pensar, mas me dá a liberdade de pensar diferente”. Passados 30 anos, estou no Guarujá e vejo um bonito [Cadillac] Buick azul. Quem dentro? O Jaime! Perguntei: “Você aí a bordo desse Buick ainda é comunista?”. Ele deu uma bruta risada.

Não gosto da palavra “rico”, gosto de “independente financeiramente”. Acho que todo mundo é igual. Todos almoçam, jantam e dormem. Até os 23 anos, quando casei, tinha mesada. Com esse dinheiro, eu tinha que comer na escola e pagar o cinema das namoradas. E, se fosse a uma noite numa balada, gastava metade da mesada. Das boates mais antigas você tinha a Oásis, na [rua] Sete de Abril com [avenida] Ipiranga.

Hoje, a pílula democratizou o sexo. No meu tempo de garoto, eram dois caminhos. Tinha a casa onde se ia com moças de família. Posso te garantir que 95% delas eram virgens. E os outros programas você fazia onde existia… Só posso garantir que não era bicha [risos]! Mas levava minhas coisas com discrição.

Minha mulher, a Sylvia, era vizinha. Morávamos na Arthur Prado, vizinhos de dom Carlos. Ele não aceitava fazer casamentos, mas aceitou fazer o meu, como eu queria, na Catedral Metropolitana [da Sé], no horário da oração do terço. Naquele dia, não teve terço. Eu e Sylvia ainda estamos juntos. “Mudar de marido é mudar de defeito”, ela diz.

pesponto

outras informações, relevantes ou não:

- esqueci de ir à missa. simplesmente esqueci. MERDA.
- dormi, acordei, não consegui dormir de novo à tarde como gostaria. típico caso de “I’m so tired I can’t sleep”, e eu realmente precisava desabar na cama;
- já que estava acordado, repus os estoques de comida e cozinhei o jantar;
- noites de domingo são sempre uma chatice, e o melhor a fazer é passá-las viajando em algum voo transcontinental. não houve como fazer isso hoje, mas pelo menos passou “Os Sonhadores” no TC Cult. aí é sempre aquele ritual: Marlboro Lights (o quarto cigarro do ano), Coca Light, luzes apagadas. não tem coisa melhor do que terminar o domingo vendo a Eva Green, e com isso os discos de música francesa e de pop anos 60 vão todos para o carro amanhã cedo…

minério

não estou com vontade de falar sobre a noite passada, perdida no Velvet Pub em meio a músicas repetidas, trombadas nos outros (que lugar apertado), Heinekens tomadas a contragosto (cadê a Quilmes e a Amstel que estão no cardápio?) e o sono que veio cedo, fatalmente apontando que meu corpo já não é o mesmo de 2001.

a forma física vai bem, obrigado, mas essa coisa de dormir às onze da noite cobra seu preço aos finais de semana.

*

antes de entrar, na fila, vejo três hipsters (um cara e duas meninas) com um pacote de cerveja Bavaria. os americanos começaram com isso de beber cerveja ruim, transformando a Pabst Blue Ribbon em sua bebida preferida, e até isso os estranhões brasileiros resolveram copiar. o trio conversava em inglês, e enquanto Thiago e André achavam que eram gringos, eu achava que era um revival da infame galera do Yázigi, um bando de brasilienses que foi motivo de chacota no início da década passada, quando arrumaram até apelidos ingleses para si numa onda dessas.

os três de ontem estavam bem embriagados, especialmente as moças, e mesmo assim entraram no Velvet. lá chegando, depois de uns vinte minutos, elas se engalfinharam e ficaram se agarrando e perdendo o equilíbrio, esbarrando em todo mundo e indo ao chão por duas vezes, um vexame que só. fico pensando aqui se os pais desses hipsters sabem do que os filhos fazem por aí, pelo menos de uma parte… e por favor, sem culpar os hormônios por isso.

*

presenciei ontem a pior emenda de uma música em outra em todos os tempos: uma mudança de “Twentieth century boy”, na versão do Placebo, para “Ever fallen in love”, dos Buzzcocks. além do nonsense que é mudar de uma para outra, ainda pegaram no tempo errado, e ainda botaram “Fame”, do David Bowie, depois.

gente, por favor: o fato de a profissão de disc jockey ainda não ser regulamentada não quer dizer que o responsável tenha carta branca para fazer besteira. isso é imoral e é vacilo.

industrial

uma das mudanças que o século XXI nos trouxe diz respeito ao cinismo e é algo que já foi detectado há alguns anos, mas pouco estudado ou codificado. é assim: 90% de quem escreve ou fala “não estou nem aí”, “não me importo” e congêneres são as pessoas que mais estão aí, mais se importam etc.

o problema é o medo de admitir isso para elas mesmas. e quem sofre com essa inversão léxica, na hora do vamos ver, são os 10% que se importam de verdade.

arbóreo

João Paulo acaba de me dizer que foi ao Gero e o mâitre lembrou do prato que ele pediu da outra vez em que esteve lá, QUATRO MESES ATRÁS. e que lembrou, inclusive, da substituição de um acompanhamento do prato solicitada (e atendida).

pense nisso.

Portimão

novidades de todo jeito pululando por aqui: tem ótimas, tem boas, tem ruins, tem péssimas. eu respiro fundo e procuro aqui a que mais me interessa, mas ela ainda não está nesse lote. quem sabe no próximo.

*

a péssima: continuam as brigas feias com a minha mãe, e eu tenho medo de certos rancores não terem volta e nunca arrefecerem. conversando sobre isso com a Ana Paula, ela disse que não permitiria que eu me tornasse uma pessoa amarga.

chegou atrasada, meu bem.

*

a boa: umas semanas atrás mandei fazer uma camisa para mim. sim, sob encomenda. se bem me lembro, comentei aqui, por alto… enfim, hoje fui buscá-la. quando a vesti, uma sensação que não tem preço: é outro mundo, como já me dissera o Pedro. é outra coisa, não existe outra igual no mundo e nenhuma outra me vestiu tão bem.

e olha, custa o preço de uma na Brooksfield. se bem que, como tudo nesse país é caro, uma Brooksfield aqui custa uma Ascot Chang lá fora.

*

como é preciso ter assunto para mais dias, as outras novidades ficam para depois. por ora, sessenta gramas de chocolate devem ser suficientes para me manter sedado até amanhã…

climático

“seriamente à frente de seu tempo, ou mesmo atemporal”

“palavras não conseguem definir como essa música faz-me sentir”

“ouvi-la é como uma bênção… borboletas flutuando sem peso…”

“se eu estivesse escalando uma árvore e ouvisse essa canção, eu cairia”

esses são alguns dos comentários no Youtube sobre “The flower called nowhere”, minha música preferida do Stereolab (1997… faz tempo). de qualquer forma, eu gosto mesmo é de como essa música me lembra variações climáticas, e não sou só eu que acha isso – até já andaram comentando:

“[a música] é como caminhar num parque ao pôr-do-sol com o vento balançando infindáveis árvores”.

perfeito! só faltou falar da brisa gelada…

laçada corrediça

tenho ações de duas empresas, OGX e Brasil Ecodiesel, que produzem combustíveis. de sexta-feira para cá o tanque da Kim reduziu-se a um quarto (estava cheio). quando essas duas empresas pagarem dividendos, quero a minha parte em gasolina premium, tenho a boca faminta de um V6 para alimentar.

mas ah, o trade-off tem valido a pena. muito. continuo apanhando ao volante e me acostumando com o que o carro tem a oferecer, a saber:

- a posição de dirigir, assustadoramente baixa, com a necessidade de passar bem devagar por obstáculos para não raspar o fundo. lombadas são das maiores cretinices das vias brasileiras, e isso chega a tirar um pouco do prazer de conduzir a Kim;
- tradição da marca, o volante é bem grande e eu costumo brincar que é de caminhão;
- como não há comandos no volante para avanço e retrocesso de faixas do cd, trocar de música enquanto se dirige tem sido um exercício de paciência, espero me acostumar com isso ou terei de substituir o som instalado – o que não queria, porque é muito bom;
- hoje, levando Otto e Carol para as férias caribenhas, senti um coice pela primeira vez, ao fazer o kickdown para entrar no Eixão: posso reclamar de muita coisa, mas de falta de ooomph, jamais;
- os sensores de estacionamento ajudam bastante na tarefa de acomodar a Kim, mas ainda não me acostumei com as contas de largura e tenho deixado espaço demais do meu lado;
- chegando em casa, no último sábado, os garotos skatistas da quadra (que eu fico assistindo em suas tentativas de ollie flips e outras manobras) me viram dentro do carro e mandaram um “acelera aí, tio!”, não sei se para ficarem com a pista livre ou se queriam ver o poder do carro. o fato é que foi a primeira vez que me chamaram de “tio” e acho que estou em crise.

criei uma etiqueta, “diário da Kim”, para os posts que falarem dela. o motivo? bem, como ela é ano/modelo 1999, ela tem 12 anos. e meninas de 12 anos costumam ter diários… :)