quando o avião da Vueling que nos pegou em Barcelona tocou no solo do aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma, lembrei minha mãe que éramos os primeiros da família, em linha reta, a voltar à Itália desde que em 1890 o casal André Palandi e Maria Galli (ou Galle, de acordo com algumas certidões) decidiu emigrar para o Brasil, levando consigo seus cinco filhos – um deles, Luís (1884-1928), meu bisavô. mas a família partiu de Cremona, na Lombardia, que infelizmente não pudemos conhecer nessa viagem.
mesmo assim, dizer o que da Itália? muita coisa, oras. Jeremy Clarkson diz que é um país de terceiro mundo, e ele está certo – mas não vou discorrer sobre isso aqui. é uma bagunça imensa, o que em italiano é definido pela palavra soqquadro: tanta bagunça que é a única do idioma que tem duas letras Q juntas.
mas por incrível que pareça, esse soqquadro funciona. na hora de pegarmos as malas, apenas duas esteiras funcionavam em nosso terminal, e a que receberia as malas do meu voo era muito devagar e tinha nada menos que outros sete carregamentos na frente. mesmo assim, informaram que em sete minutos as malas do nosso voo estariam lá.
pois é: em sete minutos elas estavam lá. depois de sair de um bolo de gente que parecia estar indo a um linchamento, saímos do aeroporto e embarcamos numa bizarríssima Fiat Multipla para chegarmos ao centro.
pera aí: você já viu uma Multipla? não? olha aqui. olha bem para essa coisa feia. o diabo é que ela faz todo sentido como táxi: tem seis lugares, o porta-malas alto comporta as bagagens em pé, o assento central da frente rebate e as costas dele viram uma mesinha. se você já conhecia o carro (que saiu de linha ano passado) e se perguntava quem o comprava, a resposta está nas ruas de Roma, pintada de branca com um friso vermelho.
assim que entramos no carro, o motorista perguntou onde iríamos, e eu disse o nome da rua (Via Giulia). ele mandou um “ai, não!” que me deixou com medo, logo de cara, mas eu não disse nada. depois de sairmos do aeroporto, observando os risonhos-lindos-campos verde-e-palha dos dois lados da estrada, tive a sensação de que Roma seria a cidade mais bonita que já conheci. não tinha nada demais, mas me evocava uma beleza que eu não sabia se era real.
minha mãe, que não fala italiano, perguntou ao motorista o porque da reação negativa ao nosso itinerário, daí fiz a pergunta, em nome dela, na língua dele. ele respondeu que é um ótimo lugar, perfeito para turistas, mas era uma rua estreita e que ele preferia ruas mais largas. isso me disse muito sobre o que esperar do comportamento dos italianos, meu medo inicial se dissipou e me animei a usar meu povero italiano, aprendido oito anos atrás, com o condutor.
conseguimos nos entender bem, comentei do motor Multijet da Multipla dele, falei de uns carros para quebrar o gelo. falta-me (muito) vocabulário, mas a estrutura básica da língua eu continuo sabendo, daí perdi um pouco da inibição e falei, mesmo errando algumas coisas. pedi-lhe desculpas por maltratar o italiano e ele disse “mas você já fala a língua!”, o que usei como estratégia nos dias que se seguiram. ele perguntou onde eu tinha aprendido, respondi e disse que a família havia emigrado da Itália 120 anos atrás, e que desde então ninguém voltara para conhecer a terra nostra.
à medida em que a Multipla se entranhava nas ruelas romanas, o meu encantamento ia aumentando, e quando vi o Tibre, verde como os olhos dela, foi o golpe de misercórdia: eu estava fisgado por Roma. pouco depois nós chegamos à Via Giulia, onde minha mãe e eu ficaríamos pelos próximos quatro dias na Maison Giulia, um B&B fantasticamente localizado.
o dono do lugar, Alessandro, nos recepcionou e eu pedi a ele que falasse em italiano, enquanto fazíamos o check-in. percebi que a velocidade com que falavam era menor que a dos espanhóis, e longe de ser a metralhadora que esperamos. consegui entender a maior parte do que ele dizia e, enquanto nosso quarto era limpo, deixamos as malas e fomos almoçar no Campo de Fiori, duas quadras atrás, uma pracinha com feirinha e restaurantes, dica do Lúcio.
chegando lá, liguei para o meu pai e informei-lhe de que estávamos em Roma. meu pai tem medo de avião e é resistente à ideia de viajar a distâncias superiores a 100km da cama dele, mas naquela ligação eu percebi na voz dele uma vontade de estar ali comigo. não falei nada, mas senti isso de forma bem clara. daí demos uma volta pelas barraquinhas e ficamos numa mesa na parte externa de um restaurante, onde depois de uma salada, uma massa e uma taça grande de cerveja Nostro Azzurro, a paz voltou a reinar.
quando fui pagar a conta, a moça que me atendeu queria falar em inglês, falei em italiano com ela, mais uma vez me desculpando pelo pouco conhecimento da língua. a garota disse que eu falava bem, e que não era para me preocupar: ela também não era italiana. perguntei de onde vinha, e quando ela disse sono tedesca eu me surpreendi. como ela podia falar tão bem uma língua tão diferente da dela? mas isso era só uma de mil coisas que eu teria de descobrir em Roma…