solar

não sou dos maiores fãs de usar casacos. pelo menos não em Brasília, onde faz 12 graus na hora em que vou para a Telerj e às dez da manhã a temperatura já chegou aos 27, ensejando uma verdadeira operação cebola, aquela em que você vai tirando as camadas. o resultado é que saio em mangas de camisa, pego no máximo dez minutos de frio… e chego no trabalho já espirrando.

de volta em casa, terapia de choque (quatro a seis gramas de vitamina C em 12 horas, mais um Naldecon, um banho quente e um cochilo) para resolver isso. enquanto isso, tome espirro e olhos vermelhos como os de um maconheiro.

mas só os olhos, eu não curto tchose.

fugindo

acabaram de me oferecer aqui uma viagem para São Paulo, a trabalho, no próximo dia 18. como prometi nunca mais botar meus pés na cidade (nada contra quem gosta, mas eu tenho meus problemas com SP), recusei de pronto.

sinto-me uma pessoa 5,48% melhor.

carpete

em agosto eu termino de pagar meu carro e, já tendo alguma reserva e uma cabeça de petróleo, comecei a buscar o sucessor dele já tem algum tempo. acho que foi no dia seguinte à compra dele, na verdade.

mas esse ano a brincadeira ficou mais séria, e em abril eu cheguei a acertar a compra de uma BMW E39 540i, que só não foi fechada porque o dono sumiu quando pedi para que ele levasse o carro a uma oficina especializada nos carros da marca bávara.

sem fechar negócio nela, voltei a procurar uma sucessora, e acabei achando, em Curitiba, uma Mercedes-Benz W208 CLK 320, linda de morrer e com algumas vantagens: estava em uma concessionária, tem o seguro barato e, como alguns sabem, os carros da marca de Estugarda envelhecem bem melhor que as BMWs.

mas apareceu outro interessado e a levou hoje, sem que eu pudesse conferi-la ao vivo.

assim sendo, o jeito é quitar meu siri cozido e ir juntando dinheiro para o novo brinquedo, para não ser pego de surpresa quando o próximo aparecer.

*

quando voltei de Roma, semanas atrás, passei dois dias em Deprelândia, e lá usava o Bootboy (apelido que dei ao Honda Civic do meu pai e que nunca tinha falado a ninguém). como ele tem 30 cavalos a mais que meu siri cozido e um câmbio muito bem escalonado, assumir o volante é uma delícia. e nesses dois dias eu descobri que não consigo dirigir o Bootboy de outra maneira a não ser achando que eu o roubei, ou seja, descendo a lenha no acelerador.

mas aí eu voltei para Brasília e percebi que ando fazendo o mesmo com o meu carro. isso não vai acabar bem.

*

aliás e a propósito: o apelido do Civic é Bootboy porque no dia em que eu o dirigi pela primeira vez, o céu estava mais ou menos igual à capa do How I learned to love the bootboys, disco dos Auteurs. sem o mar e sem os carneiros, mas com uma paisagem igualmente bucólica, a caminho de Paraibuna.

ontem

a primeira semana depois de ter voltado das férias foi bastante movimentada no trabalho, para os padrões da Telerj. mas na sexta-feira eu já estava achando pouco, e querendo mais.

a semana passada, por causa do feriado, foi morta. e ontem à tarde, sabendo que as coisas tinham voltado ao normal, com quase nada para fazer, me bateu um desespero.

demorou quinze dias, mas eu me lembrei de uma coisa: preciso sair daqui urgentemente.

bacio

Adolescente faz estranho desistir de suicídio com um beijo

Bastou um beijo para que um homem que estava prestes a se suicidar mudasse da ideia. A história aconteceu em um shopping center em Shenzhen, na província de Guang, na China.

O jovem, não identificado, tinha uma faca, e parecia realmente disposto a fazer uma besteira. Mas aí surgiu Liu Wenxiu. De acordo com o site Orange News, ela não conhecia o sujeito, mas decidiu que iria fazer alguma coisa quando viu que ele estava escalando uma barreira para chegar ao andar mais alto do prédio. E pensou rápido.

“Ele estava do lado de fora da barreira e segurava uma faca contra seu peito, mas ninguém parecia estar tentando falar com ele. Eu queria ajudar, mas sabia que a polícia não ia me deixar passar, então eu menti e disse que ele era meu namorado e que queria se matar por minha causa”, contou a chinesa.

O truque deu certo e ela conseguiu se aproximar. Ela então conversou com o rapaz e descobriu que ele estava deprimido porque fazia parte de uma família despedaçada. “Eu também sou de uma família assim e o entendi perfeitamente. A história dele me tocou e eu me senti como se realmente fosse sua namorada e pudesse ajudá-lo”, disse Wenxiu.

E, pelo jeito, tocou mesmo. Tanto que ela abraçou e tascou um beijão na boca do suicida, o que fez com que ele se distraísse, dando tempo para que os policiais tomassem a faca de suas mãos e o tirassem da área de risco.

Se depois disso os dois realmente viraram namorados, porém, o site não informa.

tábua

ando com pouca vontade de escrever ou de falar. só de ouvir, de preferência em volume baixo. não aconteceu nada, não há com que se preocupar. o final de semana foi dedicado ao social, ou melhor, a fazer a social. é bom, mas o corpo pede descanso, estou me sentindo um pouco zumbi. se eu abrir a boca hoje, pode ter certeza, é para bocejar.

quebra-pau

essa aqui saiu ontem no Estadão…

O “falklander” argentino

Os biógrafos de Willem de Kooning, artista holandês que migrou para os EUA, mas vivia com a alma dividida entre Europa e América, escreveram que “todo imigrante se quebra; magnificamente, às vezes”. Não se sabe o que o pintor britânico James Peck pensa do mestre do expressionismo abstrato, mas ele acabou de ganhar cidadania argentina e, de quebra, quase provocou um conflito diplomático.

A história de Peck seria uma das mais cotidianas, mas – por um mero acidente geográfico, potencializado por feridas históricas e ambições eleitorais – ela acabou tomando proporções internacionais, quase trágicas. Peck casou-se com uma argentina, de quem se separou há 18 meses. Hoje, ambos moram em Buenos Aires; Peck em uma casa e sua ex-mulher e os dois filhos do casal, em outra. Até aí, nada demais.

O problema é que Peck nasceu nas Ilhas Malvinas – ou Falklands, como preferem os britânicos -, aquele pedaço de nada no Atlântico Sul que foi pivô da brevíssima e inglória guerra entre Grã-Bretanha e Argentina, em 1982. O conflito acabou em apenas dez semanas, mas a guerra, ainda não. Com o casamento desfeito, Peck vinha enfrentando obstáculos para permanecer em solo argentino, mesmo sendo pai de filhos com cidadania binacional. Para não abrir mão da convivência com os filhos, o jeito foi abrir mão de parte da sua identidade.

Semana passada, Peck tornou-se cidadão argentino. Nada demais, em um mundo globalizado, onde milhões de pessoas cruzam fronteiras e trocam de pátria. Mas o feito ganhou tintas políticas quando a presidente Cristina Kirchner subiu ao palanque no aniversário da Guerra das Malvinas para apresentar pessoalmente a carteira de identidade de Peck. O pintor ainda posou ao lado de Cristina e o retratos dos dois – ela de sorriso soberbo, ele boquiaberto e com ar de fadiga – correu o mundo.

Pegou mal. Especialmente em Port Stanley, cidade natal de Peck e capital das Malvinas, das quais Argentina jamais desistiu e insiste em reaver. Logo: “Traição!”, bradaram os “falklanders”, como se chamam os nativos da ilha desde o tempo da rainha Vitória. Os mais exaltados até o ameaçaram de morte, segundo Peck. “As Falklands são da Grã-Bretanha”, afirmou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e “ponto final”. “Estupidez!”, retrucou Cristina. “No século 21, a Grã-Bretanha continua um poder colonial tosco em decadência, pois o colonialismo está fora de época além de injusto”, declarou.

Para piorar, Peck não é um falklander qualquer. É filho de Terrence John Peck, ex-policial e espião de guerra, herói eterno dos habitantes das ilhas – que o condecoraram por sua resistência aos latinos. Logo, Peck, que se desdobrava para evitar uma tragédia pessoal, se achou o “inocente útil” de um imbróglio intercontinental, à mercê de ranços políticos, demagogia eleitoral e vaidade. As relações entre Argentina e as Malvinas foram normalizadas há mais de uma década, mas “repatriar” as ilhas é ponto de honra na Argentina, ainda mais em campanhas eleitorais. E, embora Cristina esteja bem colocada para conquistar a reeleição na próxima votação, em outubro, empunhar a bandeira azul celeste contra um império invasor não faz mal.

O que o herói de guerra acharia de tudo isso? Terry Peck morreu em 2006, mas não antes de ver decolar a carreira de seu filho, prestigiado por seus retratos comoventes dos combatentes da Guerra das Malvinas.

Não acompanhou James em sua exposição de estreia, em Buenos Aires, mas, por causa do filho, acabou amigo do peito de outro veterano da guerra, o argentino Miguel Savage.

Até o fim de sua vida, o herói das Falklands sofreu com as sequelas da guerra, mas conseguiu vencer os demônios pessoais e políticos e até abraçar o inimigo. Quem dera agora, 29 anos depois, os governantes fizessem o mesmo.

afterglow

oi, tudo bem? estou mais leve hoje, depois de uma semana de tensão por causa do jogo do meu Santos, decidindo a Libertadores desse ano. não foi a primeira vez que vi meu time ser campeão (foram três outras oportunidades nos últimos dez anos), mas foi apenas a segunda vez que fiquei tão tenso por causa de futebol.

a outra vez tinha sido em 2003, quando não deu para bater o Boca Juniors na final do mesmo torneio. mas agora, que bom, o final da história foi diferente.

antes do jogo, liguei para o meu pai e disse que estava tenso. ele me falou para relaxar, que o time era bem superior ao Peñarol e que, se o juiz não roubasse acintosamente para o time da terra do Fabiano, o Santos ganharia. e quem sou eu para contrariar meu pai nessas horas? o jogo começou, o Thiago veio para casa e assistimos a um primeiro tempo feio e sem muito futebol.

no intervalo, de saco cheio da atuação santista no primeiro tempo e mandei a dieta às favas, comendo um pouco de chocolate e bebendo uma dose de uísque (o Reinaldo Azevedo foi quem falou da combinação, e eu gostei). aí meu decodificador da Net resolveu que era hora de atualizar software, bem no intervalo da final da Libertadores, e ficamos uns cinco minutos aguardando a belezinha. quando o sinal voltou, faltava um minuto para acabar o intervalo.

e um minuto depois o Santos abriu o placar.

empolgado, bebi logo o destilado e fiquei ali, com o coração na mão. quando saiu o segundo gol, um alívio começou a tomar conta de mim, embora o gol contra (autogolo, se você está do outro lado do Atlântico) tenha voltado a me deixar tenso. o Santos era superior, mas jogando com dez fica difícil – sinto muito, mas o Zé Eduardo, que agora vai perder gols em Gênova, só era escalado porque provavelmente era o churrasqueiro do time e não deixava a picanha passar do ponto.

quando acabou, veio a paz. só para mim, porque aí começou o UFC Pacaembu e, enquanto falava ao telefone com o meu pai (“eu falei para você não esquentar a cabeça”), assistia ao panqueide. é até engraçado, hoje, ler o The Sun e entender como um jornal da terra dos hooligans finge tão bem estar chocado com uma treta dessas.

daqui a seis meses o Santos vai ao Mundial de clubes, onde pode enfrentar o Barcelona (há um jogo antes, ao contrário do que alguns gaúchos pensam). mesmo se não ganhar, já está de ótimo tamanho – mas é claro que eu quero que ganhe. prepara-te, Iocoama!

lol

my father, a retired college professor, is responsible for one-liners, which are about one-third hilarious, one-third predictable and one-third groaner. Here’s one from this week:

In a small-town cafe, an upbeat pop song in Croatian comes on the radio.

Me: This is a kind of catchy tune.
Dad: I love the lyrics.

Seth Kugel, colunista de viagens do “New York Times”, falando sobre o senso de humor de seu pai, em visita à Croácia.

sentinela

levei o carro hoje cedo para a segunda parte da revisão, busquei-o há duas horas. nunca o vi tão limpo por dentro. aproveitei e removi a película dos vidros, troquei a chave e umas peças da transmissão. mas de novo: do cockpit, nunca o vi tão limpo e bem cuidado. e já lá vão cinco anos, quatro deles sob minha tutela, e 66,8 mil quilômetros.

fosse em Roma, e comparando com os carros dos locais, eu já teria a placa preta.

*

Paul Pietsch, alemão, é o primeiro piloto de Fórmula 1 a chegar aos cem anos. não logrou muito êxito nas pistas, mas fundou, 65 anos atrás, a Auto Motor und Sport, maior revista de automóveis da Alemanha, e fonte de muita coisa legal. não sabia, até hoje, do senhor Pietsch, mas agora que sei não posso deixar de regist(r)ar os parabéns a ele.

*

já que comecei falando de carros, e que não falei da viagem nos últimos dias, é o caso de falar dos carros da viagem. na Espanha o que tem bombado é o belíssimo Audi A5 cupê. no caso dos sedãs, a preferência se mantém alemã, mas recai sobre o Mercedes-Benz Classe E e o BMW série 3. o primeiro também é (muito) bem vendido na Itália, onde a ordem de preferência de Mercedes é a seguinte: E, S, A, SLK e CLS. se o Classe C é carne de vaca por aqui, lá são pouquíssimos exemplares.

no trânsito caótico de Roma, qualquer um que tenha visto “A princesa e o plebeu” sabe que as motonetas (ou scooters, se você for do Yázigi), tipo Vespa e Lambretta, são o que predominam por lá. no caso das quatro rodas, é o seguinte: se não for Mercedes-Benz, é smart fortwo, Mini Cooper ou Fiat 500 e Panda. não há meio-termo.

ou melhor, há: muita gente que compraria um BMW série 3 acabou comprando um Lancia Delta – tração dianteira, mas mesmo tamanho, luxo e até mais espaço. da marca bávara, só vi uns série 7 azuis, utilizados por autoridades. e uns série 5 da minha geração preferida, a E39.

mas o que mais espanta quem gosta de carros em Roma é o estado deles: quase que invariavelmente péssimo. sujos, riscados, amassados, com os pára-choques faltando pedaços, os grampos soltos etc. não sei se isso se deve às ruas estreitas (um prato cheio para tomar *selinhos* na lataria), à falta de vagas ou a fatores como o alto custo da mão-de-obra de mecânicos, mas é de cortar o coração.

por outro lado, isso cria uma empatia com os motoristas locais: eles não têm dó de usar suas máquinas, o que eu A-DO-RO. põem na rua e usam meeeeesmo. por exemplo, essa Mercedes-Benz Classe S W220, uma barca de 5,04 metros de comprimento por 1,85 de largura, nas apertadas ruas do movimentado bairro de Trastevere:

na pijta

gente de um lado, gente do outro, mesinhas à frente, nada de calçada… bonito, hein?

djênio

a coluna da Vanessa Bárbara na “Folha de S. Paulo” de hoje, falando sobre o Milton Leite, narrador do Sportv e da Globo, é muito boa e eu assino embaixo. mesmo com a reserva, que eu já contei a alguns amigos, de que o cara não consegue falar as palavras “batida” e “desvio”…

*

Veja você, Milton Leite

“O Osório vai embora com o seu caderninho, com o seu suco de morango, com o seu adoçante líquido…”

É assim que o locutor Milton Leite, do Sportv, narra a expulsão do técnico Juan Carlos Osorio, do Once Caldas, em partida contra o Santos no mês passado.

Milton Leite é meu locutor preferido. Com seu estilo “Rock & Gol” de se ater às irrelevâncias, ele passa longuíssimos minutos reparando no técnico colombiano, cujo pitoresco método de comunicação com o time é mandar bilhetinhos através do capitão. “Nunca vi nada parecido em 30 anos de profissão”, comenta.

Além de empregar adjetivos com estilo (“foi uma reclamação acintosa”), ele é o mestre do sarcasmo, divertindo-se praticamente o tempo todo. Com o bordão “Que beleza!” condena os lances mais ridículos, e com “Que fase!” ironiza o desempenho fraco de um clube.

Na partida da Libertadores, afirmou, sem rodeios, que um dos atletas não tinha “nenhuma habilidade”. Outras vezes, aplaude escorregadelas e tropicões, ou declara que alguém apanhou vergonhosamente da bola. “Acho que a esquerda não é muito boa na finalização do Caíque… Olha o câmera. Olha o esforço do câmera para acompanhar essa bola. Meu Deus.”

Durante o jogo de despedida de Ronaldo da seleção, no dia 7, chegou ao ápice de sua carreira ao apelidar o atacante romeno Zicu de “o galinho de Bucareste”.

Valendo-se da experiência como locutor de rádio, Milton Leite não tem medo de improvisar. Hesitante, um jogador do Vasco recebeu a bola na pequena área e ficou decidindo pra onde chutava, ao que ele narrou: “Jéferson… Dominou… O que que eu faço com a bola? [...] Ele bateu pra fora! Inacreditável!”

Não há limites para seu sarcasmo, o que é sempre bom quando se trata de uma partida importante, sisuda, dramática. “Ô, Bruno Octávio… Que beleza, Bruno Octávio… Ele nunca fez um gol na vida de fora da área. Aí, no Palmeiras e Corinthians, aos 39 do segundo tempo, ele pensou: “Agora eu se consagro!” [sic], e pegou de tornozelo na bola. Ela veio parar perto da bandeirinha de escanteio.”

Mesmo quando é ele quem escorrega, Milton Leite não perde a pose: “Gol do Barueri”, ele confessa, logo após anunciar que a bola foi fora. “Veja você.”

mote

mais um final de semana fazendo desintoxicação, mais um final de semana reclamando. e eu já penso no que vou comer no meu dia livre de daqui a duas semanas.

ai.

dormi pouco, fiz supermercado, tive de ir à cozinha ficar fazendo suco o dia todo, vi meus amigos devorarem um picadinho do Fred bem na minha frente. mas eu não tenho do que reclamar da vida… :)

ordenação

quando o avião da Vueling que nos pegou em Barcelona tocou no solo do aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma, lembrei minha mãe que éramos os primeiros da família, em linha reta, a voltar à Itália desde que em 1890 o casal André Palandi e Maria Galli (ou Galle, de acordo com algumas certidões) decidiu emigrar para o Brasil, levando consigo seus cinco filhos – um deles, Luís (1884-1928), meu bisavô. mas a família partiu de Cremona, na Lombardia, que infelizmente não pudemos conhecer nessa viagem.

mesmo assim, dizer o que da Itália? muita coisa, oras. Jeremy Clarkson diz que é um país de terceiro mundo, e ele está certo – mas não vou discorrer sobre isso aqui. é uma bagunça imensa, o que em italiano é definido pela palavra soqquadro: tanta bagunça que é a única do idioma que tem duas letras Q juntas.

mas por incrível que pareça, esse soqquadro funciona. na hora de pegarmos as malas, apenas duas esteiras funcionavam em nosso terminal, e a que receberia as malas do meu voo era muito devagar e tinha nada menos que outros sete carregamentos na frente. mesmo assim, informaram que em sete minutos as malas do nosso voo estariam lá.

pois é: em sete minutos elas estavam lá. depois de sair de um bolo de gente que parecia estar indo a um linchamento, saímos do aeroporto e embarcamos numa bizarríssima Fiat Multipla para chegarmos ao centro.

pera aí: você já viu uma Multipla? não? olha aqui. olha bem para essa coisa feia. o diabo é que ela faz todo sentido como táxi: tem seis lugares, o porta-malas alto comporta as bagagens em pé, o assento central da frente rebate e as costas dele viram uma mesinha. se você já conhecia o carro (que saiu de linha ano passado) e se perguntava quem o comprava, a resposta está nas ruas de Roma, pintada de branca com um friso vermelho.

assim que entramos no carro, o motorista perguntou onde iríamos, e eu disse o nome da rua (Via Giulia). ele mandou um “ai, não!” que me deixou com medo, logo de cara, mas eu não disse nada. depois de sairmos do aeroporto, observando os risonhos-lindos-campos verde-e-palha dos dois lados da estrada, tive a sensação de que Roma seria a cidade mais bonita que já conheci. não tinha nada demais, mas me evocava uma beleza que eu não sabia se era real.

minha mãe, que não fala italiano, perguntou ao motorista o porque da reação negativa ao nosso itinerário, daí fiz a pergunta, em nome dela, na língua dele. ele respondeu que é um ótimo lugar, perfeito para turistas, mas era uma rua estreita e que ele preferia ruas mais largas. isso me disse muito sobre o que esperar do comportamento dos italianos, meu medo inicial se dissipou e me animei a usar meu povero italiano, aprendido oito anos atrás, com o condutor.

conseguimos nos entender bem, comentei do motor Multijet da Multipla dele, falei de uns carros para quebrar o gelo. falta-me (muito) vocabulário, mas a estrutura básica da língua eu continuo sabendo, daí perdi um pouco da inibição e falei, mesmo errando algumas coisas. pedi-lhe desculpas por maltratar o italiano e ele disse “mas você já fala a língua!”, o que usei como estratégia nos dias que se seguiram. ele perguntou onde eu tinha aprendido, respondi e disse que a família havia emigrado da Itália 120 anos atrás, e que desde então ninguém voltara para conhecer a terra nostra.

à medida em que a Multipla se entranhava nas ruelas romanas, o meu encantamento ia aumentando, e quando vi o Tibre, verde como os olhos dela, foi o golpe de misercórdia: eu estava fisgado por Roma. pouco depois nós chegamos à Via Giulia, onde minha mãe e eu ficaríamos pelos próximos quatro dias na Maison Giulia, um B&B fantasticamente localizado.

o dono do lugar, Alessandro, nos recepcionou e eu pedi a ele que falasse em italiano, enquanto fazíamos o check-in. percebi que a velocidade com que falavam era menor que a dos espanhóis, e longe de ser a metralhadora que esperamos. consegui entender a maior parte do que ele dizia e, enquanto nosso quarto era limpo, deixamos as malas e fomos almoçar no Campo de Fiori, duas quadras atrás, uma pracinha com feirinha e restaurantes, dica do Lúcio.

chegando lá, liguei para o meu pai e informei-lhe de que estávamos em Roma. meu pai tem medo de avião e é resistente à ideia de viajar a distâncias superiores a 100km da cama dele, mas naquela ligação eu percebi na voz dele uma vontade de estar ali comigo. não falei nada, mas senti isso de forma bem clara. daí demos uma volta pelas barraquinhas e ficamos numa mesa na parte externa de um restaurante, onde depois de uma salada, uma massa e uma taça grande de cerveja Nostro Azzurro, a paz voltou a reinar.

quando fui pagar a conta, a moça que me atendeu queria falar em inglês, falei em italiano com ela, mais uma vez me desculpando pelo pouco conhecimento da língua. a garota disse que eu falava bem, e que não era para me preocupar: ela também não era italiana. perguntei de onde vinha, e quando ela disse sono tedesca eu me surpreendi. como ela podia falar tão bem uma língua tão diferente da dela? mas isso era só uma de mil coisas que eu teria de descobrir em Roma…

luta de classes

Os bonecos birutas são os expoentes do círculo empregativo. Sempre ativos, felizes, com um belo sorriso estampado no “rosto”, e não ganham salário. Trabalham quase o dia todo e só ganham vento pelos fundos. Hoje o mercado de trabalho necessita de gente esforçada, com esteja feliz com o serviço. Bonecos de posto atendem a estes requisitos, principalmente o quesito esforço. Enquanto houver ar, seus braços nunca param de mexer.

O carisma dos bonecos de posto é notável. Não há uma pessoa no mundo que possa ser desalmada o suficiente para não gostar destes adoráveis serventes. Bonecos de posto já não trabalham apenas em postos. Houve uma grande evolução e bonecos de posto, recém-nomeados para bonecos biruta, já dominam grande parte do mercado de trabalho. Hoje já é possível encontrar bonecos birutas trabalhando ao lado de médicos, fazendo serviços de animação de torcida, bonecos birutas carpideiros (mas felizes) e até bonecos birutas deputados.

O desemprego atual fez várias pessoas migrarem para o ramo dos bonecos birutas, em troca de comida. Um trabalho de 8 horas diárias, onde o empregado usa uma roupa colorida com o nome da empresa que o contratou, um sorriso no rosto e braços para cima, movimentados em forma de “tchauzinho descontrolado”.

elucidativo artigo sobre o papel dos bonecos de posto na luta de classes, bem aqui.

B+

na manhã de segunda, quando voltei à Telerj depois de duas semanas de férias, disse à minha chefe que “queria sangue”, o que significava que queria me afundar no trabalho mais uma vez.

normalmente, cada um da minha área cobre um evento por semana, no máximo dois. pois só ontem tive de cobrir dois, hoje cedo mais um, e amanhã será a vez de um que provavelmente tomará o dia todo. pois é, welcome to the slaughterhouse – e eu adoro isso.

puissance

nesse voo de Madri a Barcelona, referido no post anterior, concretizei uma antiga vontade que tinha: pegar um voo no exterior, rumo a outro ponto do estrangeiro, pela manhã, sob um sol tímido. é uma imagem que tinha na cabeça já há muito tempo, e que me lembra “The power”, do Suede – que eu obviamente ouvi no iPod tão logo o uso de aparelhos eletrônicos foi liberado lá em cima.

uma pena que a companhia aérea tenha sido a Spanair, a segunda pior da viagem – a primeira foi a Iberia, que será desancada em momento oportuno.

*

na volta de Roma a Madri, uma semana depois, o pessoal de solo da Alitalia foi bem babaca também. só que algumas coisas me fizeram esquecer disso. uma foi a qualidade do serviço a bordo, outra foi o pouso suave feito pluma: em treze anos pegando aviões, deve ter sido o mais macio que já experimentei.

mas o que realmente me deixou fascinado na rota FCO/MAD é que ela sobrevoa a Sardenha, que já do alto é apaixonante. primeiro, porque o Fiumicino fica às margens do Mediterrâneo, e ver a aeronave subindo com o Mar Tirreno lá embaixo é de tirar as palavras. quando chega a ilha, então, é covardia. você vê aqueles verdazuis todos e pensa em poesia.

só pensa, porque não consegue dizer nada.

desnecessário dizer que uma hora eu baixo lá, depois que ficar fluente em italiano, para andar com minhas pernas branquelas.

a trilha sonora desse voo também foi Suede, porque sobrevoar o Mar Tirreno ao som de “The wild ones” e (óbvio) “By the sea”, por exemplo, mistura na cabeça as lembranças das músicas e a novidade verdazul que se espalha lá embaixo.

sorte que de vez em quando eu vejo um par de novidades verdazuis que agora eu sei de onde devem ter vindo…

*

falei em “The power” lá em cima, e em Madri descobri uma coisa: o ruído que fecha a música, uma espécie de sirene, é o barulho do metrô madrilenho deixando a estação. sentado lá, esperando minha condução, vi o trem do outro lado deixar a plataforma… e ele fez esse som. e eu falando de aviões…

Astúrias

lendo o blógue do Pedro Mexia, o que não fazia desde antes da viagem, lembrei que na manhã do dia 2 eu peguei o voo de Madri para Barcelona. duas fileiras à frente, no lado oposto da aeronave, um passageiro lia o “El País”, que no alto de uma página interna noticiava que o Leonard Cohen havia ganho o Prêmio Príncipe das Astúrias de literatura.

na mesma hora os meus olhos ficaram vermelhos.

secular

(…) em «1811» (digamos assim) encontro algumas crenças e códigos de conduta nos quais me reconheço. Não posso ter a experiência directa de 1811, mas é comum encontrar textos e testemunhos desse século que me dizem bastante mais do que o discurso actual. Há nos oitocentistas que eu leio uma seriedade fundamental na maneira de encarar a existência. A espécie era igual, em 1811, mas talvez as pessoas, certas pessoas, não se comportassem com tanto cinismo e sarcasmo. O «desencantamento do mundo» tem sido demasiado agreste, e desembocou numa cultura competitiva, lúdica e amarga, com pouca capacidade de entusiasmo, gentileza e risco.

Pedro Mexia, mais uma vez matando a pau. mas pessoalmente, gostaria de ter vivido em 1911.