Tinseltown

viver no Brasil e não ter negócios com estatais é difícil. para quem acha que o Estado deveria tirar o bedelho da cadeia produtiva e se concentrar nas políticas públicas, como é meu caso, é grande a tentação de um boicote completo. tento fazer um, só remunerando esses cabides de emprego com o mínimo necessário caso seja preciso. depois que o Marcio sugeriu (e começou) um boicote à Petrobras, decidi fazer o mesmo. como a Ipiranga foi adquirida pela empresa, em parceria com outros dois grupos, vou esperar para ver se terei de boicotá-la também. e essa semana ficou pronta a minha conta no Citi, para que logo logo eu nunca mais pise numa agência do Banco do Brasil.

berlinda

não consegui pensar em uma introdução suave para esse post, como ele precisava, por isso já vou logo dizendo: ele se inicia de forma abrupta.

espero ter diminuído o impacto avisando.

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a mora, amora, aroma, amaro, arame, arruma. fico pensando em voz baixa, nessas e noutras palavras, e em dar um rumo a elas. que não seja um poema concretista ou o esquecimento, que eu possa ficá-las mastigando por mais e mais tempo, expirando algum produto dessa ruma toda. delirante, não? mas estou meio nas nuvens por esses dias, e a metade que ali está só consegue pensar nessas coisas leves.

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falando nas nuvens: então era só isso de chuva que tinham reservado para Brasília? pois eu quero mais. mandei o trench-coat pro conserto, para lhe melhorarem o caimento; vou trocar as palhetas de chuva do meu carro para a semana, quando tiver de fazer uns servicinhos nele; penso em um novo guarda-chuva, já que o meu, coitado, não sobreviveu ao meu esquecimento e hoje está perdido por aí. a minha parte estou fazendo… resta apenas torcer pelos torós.

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ontem o Pedro Mexia deixou mais um daqueles posts desconcertantes, que só ele sabe fazer. e já é bem previsível que ele ainda me surpreenda.

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esse post começou de forma abrupta, então creio que um final inesperado não será tão chocante. e aqui ele acaba.

xilol

para quem perguntou aí do sorvete de Ouro Branco: apesar de ser bonzinho, ele é uma decepção. explico: é um sorvete de Laka com um pouco daquela cobertura genérica, no sabor de chocolate preto, misturada. não tem nenhum elemento crocante, e a parte branca, que é minoria no bombom, é quase 80% do sorvete.

quer dizer: se você gosta de Laka e quer variar um pouco, é uma boa opção. mas se você quer algo fiel ao melhor bombom do Brasil, melhor esquecer e procurar o Haagen-Dazs de damasco. não é chocolate, mas é bom demais e é tendência.

milho

aniversário do meu pai, e lá vou eu ligar para ele. pergunta se estou na Telerj, e começa a falar de lá para mim, como se ele trabalhasse lá e eu fosse um interessado em ir para lá. meu pai é uma figura, mas parece que ele sempre toca no assunto para evitar que eu largue tudo e vá, sei lá, morar na Austrália, ou arrumar um emprego diferente. e que o presente de aniversário perfeito é, no final das contas, um stay the same.

do meu lado, só sei que posso dar esse presente por mais alguns anos. depois já não garanto nada.

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revi “Casino Royale” ontem à noite. pelas minhas contas, é a quinta vez que assisto esse filme, e continua muito bom. reparei em alguns detalhes, como o fato de que a parte do Dimitrios é, além de uma parte interessante do enredo, uma enorme seqüência de merchandising: do Ford Mondeo do aeroporto das Bahamas até o estande da Persol onde o lacaio do Le Chiffre compra um par de óculos escuros, passando pelo gim Mount Gay, pela garrafa de champanha Bollinger – que também patrocina o filme – e por todo o falecido Premier Automotive Group.

mas pelo menos ele tem bom gosto, não?

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hoje comecei a escrever uma matéria que estava adiando há meses. por sorte, continua atual, com algumas pequenas modificações. não costumo sofrer de preguiça, mas esse foi um caso crônico: eu não tinha motivos para adiar por tanto tempo assim. por outro lado, ter esperado tanto me rendeu a melhor oportunidade para escrevê-la. deve ficar pronta em uma semana, e ser publicada em três meses. mais Dorival Caymmi do que isso, impossível.

impressão

eu gosto das coisas das quais não tiro meu sustento mas que, por outro lado, não consigo viver sem. nelas encontro toda a graça da minha vida. toda, sem exceções.

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de repente, uma vontade de ler e aprender sobre as grandes navegações portuguesas. e a sensação de haver mais história do que o passado aparenta. e depois mergulhar, mergulhar fundo em busca das pérolas.

mas antes é preciso aprender a nadar.

incandescente

umas duas semanas atrás eu entrei na página de uma faculdade que tem um curso de pós-graduação muito interessante, mas que eu não iria fazer porque a partir deste ano ele passou a ser pela internet – sou das antigas e não troco a sala de aula por nada. ele continua nesse esquema, então decidi procurar outro, e achei um na Universidade de Brasília. como é bem a cara do que eu quero e a instituição é ainda melhor, pensei “nossa, deve ser concorridíssimo”, já preparando o espírito para a próxima seleção, que deve ocorrer dentro de alguns meses.

aí soube que esse ano não houve curso por conta da baixa demanda. ano que vem farei a minha parte para que isso não se repita.

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tem uma grua aqui à minha esquerda, na janela do décimo sétimo andar: ela constrói um prédio a trezentos metros daqui, vigorosamente. a obra tem causado um transtorno no Setor Comercial Sul, que já é engarrafado pela idéia djenial de enfiarem um tribunal ali no meio. são dois prédios lado a lado, ambos ainda em sua estrutura.

eu adoro esqueletos de prédio, adoro esse visual de obra em andamento, as telas alaranjadas, as vigas… toda essa paisagem “industrial”. quando ia de ônibus a São Paulo, não deixava de sentir um certo carinho por aqueles prédios na região de Guarulhos, mesmo sabendo que odiaria trabalhar num lugar assim, ou mesmo morar perto daquilo. mas eles dão belas fotos e suscitam aquela velha dúvida sobre o que é/será/foi feito ali, e isso já é suficiente.

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segunda-feira meu recorde de 4 minutos de corrida ininterrupta na esteira virou 10. e ontem virou 11 (com direito a “ieeeiiii”). se no final do ano eu conseguir correr 20 minutos sem parar é porque tem algo de errado.

mas algo de errado não é necessariamente ruim, é?

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fiz a minha primeira compra na Estante Virtual: um exemplar do “Abaixo de zero”, do Bret Easton Ellis, há alguns anos fora de catálogo no país. paguei uma ninharia, e espero que chegue logo. sabe o que é gostar da história de um livro, do título de um livro, sem tê-lo lido? é essa expectativa.

e por falar em história de livro, a do novo do Will Self parece algo do tipo Seinfeld meets Kafka. senão, vejamos:

“The Butt” begins with Tom Brodzinski—who sounds an awful lot like the author—carelessly flicking his final cigarette over a balcony. Unfortunately, for him, he hits a tourist. As a result, he’s charged with assault with a deadly weapon, and is forced to stand trial.

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alívio no mundo: ao contrário do que eu pensava, a Rolex ainda faz o Explorer I. tirar de circulação algo tão eterno quanto um relógio com esse desenho seria covardia.

armada

a Heloísa deixou um comentário ontem, sobre sorvetes, muito bom: primeira coisa, sorvete de doce de leite é muito bom e o McDonalds deveria oferecê-lo por aqui. eu acho o da Haagen-Dazs um pouco (só um pouco, tá?) enjoativo. ainda não provei o de morango da Kibon, embora aqui no prédio venda dele, e o experimento tem tudo para rolar hoje – céu nublado, chuva, perfeito pra tomar sorvete.

mas ontem à noite comprei um tijolo de sorvete de Ouro Branco, porque é impossível que o melhor bombom brasileiro não seja um bom sorvete. para não prejudicar o regime, ele será comido em suaves prestações, como já fiz com o de chocolate com cookies e trufa, na semana passada. espero não ser mandado para o inferno por causa disso…

atualização (13:16): provei o Fruttare de morango, que mrs. Goto indicou, e é realmente bom. só não é melhor que as dicas de duas páginas de decoração que ela colocou no blog dela, que fizeram com que eu quisesse mudar toda a minha casa por dentro.

Japon poetique

estava pensando em comprar umas roupas novas. e ter, pela primeira vez na vida, uma Levi’s 501, aquela que é considerada o alpha jeans da coisa. se ela realmente vai bem com tudo eu não sei, mas vou fazer o teste. a necessidade do mocassim também é imperativa, preciso de um urgentemente. umas pólos? pode colocar no carrinho.

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enquanto isso, começou a terceira fase na academia, a de trabalhar como um halterofilista. na verdade, como já havia dito aqui, a série agora envolve menos aparelhos e menos ergometria, mas mais pesos livres. no primeiro dia, desgaste total, e eu saí de lá feliz da vida. no segundo, parecia que eu não me cansava, até vir a ressaca hoje. em todo caso, no primeiro dia eu aproveitei para correr durante dez minutos consecutivos, à velocidade de 10 km/h. quem me conhece sabe como acho a corrida um negócio humilhante e cretino – se eu quiser andar rápido, pego um táxi. ou um Audi R8. mas naquele dia, sabe-se lá porque, achei que era conveniente correr durante tanto tempo, para bater meu antigo recorde de quatro minutos correndo. quando os dez minutos de puro martírio acabaram, não agüentei e soltei um “ieeeiiiiii”. foi legal, mas espero não repetir isso tão cedo.

hoje à noite, quem sabe.

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as quatro maiores redes de fast food presentes no Distrito Federal (Giraffas, McDonald’s, Burger King e Bob’s) têm, em seus cardápios, a opção do sorvete italiano, a infame casquinha – um “gelado”, se você for de Portugal. como o calor tá aí e minha dieta me proíbe sobremesas mais elaboradas, de vez em quando recorro a um desses sorvetes, quando a paciência se esgota com os picolés de côco, manga e limão. e hoje provei o do Burger King, que ainda não havia experimentado.

aos fatos: a casquinha de chocolate tem gosto de tudo, menos de chocolate, que sequer insiste em ser uma vaga lembrança. a do Giraffas e a do Bob’s, construídas a partir da mesma base entregue pela Kibon, se equivalem em termos de gosto, sendo ambas muito ruins, mas um pouco menos que a do BK. em termos de sorvete italiano, ainda que não chegue aos pés de alguns outsiders aí, continuo só vendo uma opção entre os grandes: o McDonald’s.

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Gabriel, seu relatório trimestral tá atrasado. encaminha ele pro meu email, por favor.

flip-flop

dia desses eu comentei aqui que estava me sentindo a Fiona Apple. pois hoje eu acordei me sentindo o Ryan Adams: até tentei me vestir a caráter e lançar três discos ao mesmo tempo, mas não rolou. e fui trabalhar ouvindo “Enemy fire”, aquela música dele que provavelmente não tem outros fãs, pena.

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pretendo passar o resto do mês concentrado na criação de um chá gelado com sabor de melão. vou pegar o xarope Monin correspondente ao melão cantaloupe, uns sachês de chá verde, água mineral, e só sair da cozinha quando a bebida estiver deliciosa e pronta. chá é tão gostoso, melão é tão gostoso: com a possibilidade de se desenvolver um chá gelado de melão, não sei porque insistem em beber Fanta laranja, o que, como dizia Luiz Pareto, é perder tempo com bobagem.

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provocado por uma eventualidade na semana passada, tive de atualizar meu currículo. mudei algumas fontes, coloquei algumas experiências, fiz questão de esconder os oito meses que passei sem fazer nada na Telerj por não haver nada o que se fazer. e o currículo deu uma melhorada substancial em relação ao que era, embora não seja nem meio por cento do que quero que seja – e ainda será, diga-se.

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pela segunda vez desde que comprei meu computador, há dezoito meses (!!!), troquei meu papel de parede, colocando uma nova imagem de um velho sonho. a dica foi do Pedro, que acha que essas coisas sempre têm que estar por perto para te motivar e para te incitar a trabalhar por eles. é mais do que verdade, e assim que alcançar este sonho o papel de parede será trocado de novo.

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um filme, um disco, um pouco de frescor a caminho. a possibilidade de ver a vida com novos olhos também. esta frase, que pode parecer profunda, na verdade quer dizer que eu encomendei, a amigos que estão indo para o exterior, um DVD, um CD, um novo bloqueador solar e um par de óculos escuros. é mais ou menos assim que este blógue funciona, mas nem sempre é tão engraçado, admito.

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ah, last but not least: vocês pilham de fazermos uma vaquinha pra comprar o Lehman Brothers? eu tô com muita vontade de comprar o banco, sério. até sou capaz de entrar no cheque especial para isso, mas só até uns 700 reais.

refrigerante

engraçado como as fotos das ruas de cidades socialistas, à época em que estavam manchadas por essa doença, são todas desertas – à exceção da China, que não teria como esconder tanta gente. achei uma página com umas fotas de Sevastopol, cidade ucraniana de maioria étnica russa, em 1963. breguices comunistas à parte, as fotos são muito bonitas, e fiquei curioso para ver como estão as coisas por lá agora, quarenta e cinco anos depois.

mas se você tem o coração frágil ou acordou meio Dostoiévski, tem umas fotos de São Petersburgo no século XIX também. só que a melhor coisa do blog English Russia, onde estão as duas galerias de imagens, são as piadas com novos ricos que eles fazem nos outros posts. já entrou pros meus favoritos.

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uma salva de palmas para o Sebastian Vettel, pela primeira vitória na carreira. ele tem tudo para levantar um título dentro de alguns anos, bastando que lhe dêem um carro competitivo (BMW? opa). no mais, Felipe Massa fez uma corrida racional, e não estou falando de racional no sentido Tim Maia da coisa. em Cingapura o jogo está aberto e ele tem tudo para se dar bem mais uma vez.

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tirando pela linha do “abortion”, o Roissy está certo: é essa a ordem de preferência.

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li ontem que a Tina Fey está cotada para voltar ao Saturday Night Live, pra interpretar a Sarah Palin nas piadas até a eleição americana. eu apóio. mesmo achando que a senhora Palin é mais cool que a bela humorista (numa escala até dez, onde o Christopher Walken é 10 e um lutador de jiu-jitsu é 0, a governadora do Alasca ganha de 9 a 6).

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fui à Livraria Cultura ontem, pra comprar a Vogue americana (798 páginas, tem como fugir? não) e me deparei com o “Velocifero”, do Ladytron, melhor disco do ano. 60 reais, o que prova que, mesmo numa época em que ninguém mais compra cds, a indústria musical e as lojas não aprenderam sua lição. e lá vou eu pagar 16 dólares, o que é a metade disso, para obter a minha cópia no eBay – apenas porque faço questão de comprar um disco tão bom, e também para ter o que ouvir no carro quando minha camiseta da banda chegar.

uma coisa sobre o “Velocifero” ser o grande disco de 2008: ou o Röyksopp solta um disco às pressas pra mudar o cenário ou é isso mesmo.

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meu instrutor me passou dois novos treinos na academia, na quinta e na sexta-feira. pela primeira vez desde que comecei com a malhação, eu tive dúvidas sobre minha capacidade de realizá-los, mas tenho que tentar. essa semana será decisiva, e eu quero conseguir… aliás, eu vou conseguir. sete quilos e meio já foram, mais cinco ainda por perder. apenas pedi a ele para que não me deixasse desistir, eu preciso disso. e já me coloquei mais dois desafios pela frente, 2009 promete. só não começo agora pela necessidade de manter o foco e terminar isso aqui da forma como me propus.

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a 103 sul é um bom lugar para se estar em 2009. vou me lembrar disso.

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chegou até o final? ótimo, tenho um bônus para você: Lisa Cant sem roupa. depois dessa, você me deve a sua alma.

dilaudid III

o mundo foi salvo hoje, na última hora. sem brilho, apenas com o suficiente para aprovação. e paira nesta terra o alívio de ter conseguido: se no último minuto e sem lume, pouco importa. semana que vem a situação pode ser outra, e isso é o que me anima.

dilaudid II

essa semana eu quase pensei em desistir de metade das minhas coisas. uma metade em que eu venho apostando e brigando para que dê certo, que venho perseguindo e dedicando tempo, esforços, potássio, tudo que posso. e sempre mais, sempre mais. mas quando estava saindo de casa, hoje cedo, fui procurar um disco pra ouvir e achei o “Dog man star”… e é incrível ver como ouvir “The power”, “New generation” e “Black or blue”, nessa seqüência, me anima. se o Suede ali era uma banda à beira do colapso e produziu um disco perfeito, eu, que não estou à beira de um colapso, também posso fazer coisas legais. nem que para isso eu precise dobrar a aposta.

sintetizador

a coluna de hoje do João Pereira Coutinho merece ser incluída aqui na íntegra, especialmente pelo final. dá pra aprender muito por ali, honey.

O amor é uma arte

Ah, os clássicos! Falamos deles e alguém boceja. Inevitável: um dos grandes crimes da nossa cultura é tratar os grandes livros da tradição ocidental com uma reverência provinciana, matando todo o prazer que temos em lê-los. Homero, para mim, sempre foi um dos melhores escritores de aventuras. O Júlio Verne da Grécia Antiga. E, ao ler as viagens de Ulisses e as fúrias de Aquiles, sempre imaginei Steven Spielberg dirigindo o filme. Só depois, muito depois, mergulhei nos mitos, na métrica, nas alegorias. Na filosofia. Primeiro, veio o prazer.

O mesmo para Ovídio, o poeta romano que o imperador César Augusto condenou ao exílio. Escreveram-se quilômetros de teses profundas sobre o vate. Mas nada substitui o prazer inocente e vital de o lermos com a cabeça limpa e a alma aberta. Aconteceu comigo: sob um sol generoso, com o mar Mediterrâneo banhando-me os pés, li e ri com a sua “Arte de Amar” (tradução portuguesa de Carlos Ascenso André), o livrinho ultrajante que provavelmente o condenou à morte lenta. O livro é, como o título indica, um tratado sobre o amor. Mas não sobre o significado do amor; Ovídio não perde tempo com metafísicas. O amor é uma arte, ou seja, uma técnica que pode ser ensinada e apreendida. E o propósito de Ovídio é simples: escrever um manual que ensina homens e mulheres a conquistar e a conservar o amor.

Está tudo lá. Para os homens, um primeiro conselho: o amor não acontece; é preciso procurá-lo, de preferência onde há mulheres. E, se os leitores acham que os lugares ideais são as discotecas de sábado à noite, Ovídio discorda. Lugares de álcool prejudicam o julgamento. Melhor apostar nos lugares de cultura, como os teatros, onde há abundância e variedade. E sobriedade.

E depois do local, a estratégia: Ovídio ensina como os homens devem aproximar-se do alvo; como devem sentar-se ao lado dele; quais as primeiras palavras a serem ditas e trocadas (que devem ser simples e triviais, sem afetação ou vaidade); e, se vocês julgam que os metrossexuais levam vantagem no jogo, desenganem-se: Ovídio desaconselha pernas raspadas ou cabelos frisados. As mulheres gostam de homens com ar de homens. Só a limpeza é fundamental: das unhas à roupa, dos pêlos do nariz ao mau hálito, nada escapa à pena microscópica deste cupido letrado.

Mas o amor não se conquista apenas; é preciso conservá-lo depois da caçada. E não existe outra forma de conservá-lo que não passe pela amabilidade. Sê amável, diz o poeta, porque a tua beleza não será eterna; ela é um bem passageiro e frágil. Não sejas orgulhoso; não tenhas medo de ceder nas tempestades. E, se julgas que a tua amada se conserva com prendas caras, repensa: as verdadeiras prendas são aquelas que escolhemos com inteligência e entusiasmo. E ignora os defeitos: todos os defeitos da mulher que amas acabam por se suavizar com o tempo, até ao momento em que se tornam virtudes ou marcas íntimas e pessoais.

Por último, o equilíbrio frágil: o amor só sobrevive se, sobre ele, pairar uma sombra de perda. É necessário que a amada sinta, por vezes, que pode te perder: “Aquece-lhe o coração morno”, diz Ovídio, “ateia as chamas, com a força de um sopro”. Não existe maior verdade: a rotina é o veneno dos amantes; o ciúme é o sal que dá sabor ao prato.

E conselhos para as mulheres? A “Arte de Amar” é composto por três livros; só o último é dedicado ao público feminino. Existem repetições: evitar homens excessivamente cuidados, por exemplo. Ou, então, ter especial cuidado com a higiene do cabelo, do corpo, dos dentes. E alguns truques para disfarçar defeitos: se a mulher é pequena, que prefira estar sentada; se tem dedos gordos e unhas sujas, que evite gestos demorados; e, se os dentes são tortos ou grandes, que controle as risadas.

Mas a mensagem central é uma exortação libertária: a vida é veloz e breve; e o amor deve ser colhido nos verdes anos. As mulheres nada ganham se adiarem continuamente as paixões até que a velhice se instale. Devem, pelo contrário, ofertar os prazeres aos homens, mas nunca de forma descarada: a paixão vive da tensão constante entre a recusa e a entrega, uma dança que aguça o desejo. Mas, no fim, deve triunfar a entrega. De preferência com a luz apagada.

Moral da história? Eu prometo oferecer este livro às minhas amigas. E com as melhores passagens sublinhadas.