olha eu brincando de fazer resenha musical, depois de quatro anos sem me meter a essas coisas:
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Portishead
« Third »
(Universal, 2008)
nota 9
Onze anos. Onde você estava em 1997? Eu estava no segundo ano do colegial, tinha dez centímetros a menos de altura, morava numa cidade onde a principal diversão das pessoas é ficar bêbado. Enquanto isso, em Bristol, uma cidade inglesa onde a principal diversão dos locais também é encher a cara, o trio Portishead gravava seu disco homônimo, o segundo, que fez a banda ser a trilha sonora de referência para muita bebedeira, tristeza, sofrimento e lamúrias por todo o mundo. Definiram ali o som que se convencionou chamar de trip-hop, transformaram a dor em arte, fizeram tudo aquilo que você já está careca de ler e saber – e ainda fizeram shows consagradores ao lado de uma orquestra, em Nova Iorque, que viraram o obrigatório disco Roseland NYC Live, um ano depois.
Dali em diante, o Portishead se calou. Depois de tanto cantar sobre o fim, seria o fim da banda? Saíram por completo do noticiário, não entraram no Big Brother, nada. Em 2002, a cantora Beth Gibbons lançou um disco folk, « Out of season », e se apresentou no Brasil no TIM Festival de 2003 – quando disse que o novo disco do Portishead estava sendo gravado. Na época eu pensei « claro, e sai duas semanas depois do ‘Chinese Democracy’ e uma antes do My Bloody Valentine novo ». Anos se passaram e nada da volta: o máximo eram os vocais de Beth em « Lonely carousel », no (brilhante) disco do português Rodrigo Leão. Em 2007, surpresa: o trio era anunciado como curador do festival All Tomorrow’s Parties, em Londres, onde também se apresentaria. Um perfil no Myspace com posts enigmáticos, algumas outras datas confirmadas – incluindo um show agendado para o festival de Coachella – e eu me vi em dúvida: será que agora volta?
E, alguns dias atrás, a notícia: depois de onze anos, « Third », terceiro trabalho de estúdio do Portishead, seria lançado em abril. Antes disso, como em todo lançamento pós- »Kid A », ganhou a internet. Procurei-o em alguns programas e, antes de consegui-lo, ainda baixei um arquivo falso, com o disco de um DJ coreano. Se fosse qualquer outra banda, eu não teria tentado duas vezes, mas tem coisas que só quem me acompanhou em muita bebedeira, tristeza, sofrimento e lamúrias faz. Na segunda tentativa, o disco correto. E um aviso, em português do Brasil, logo de cara:
« Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender ».
É com essa frase, em bom português, que « Third » começa. Com uma sonoridade quebrada, outras batidas, um clima igualmente soturno mas que não é uma mera evolução do que a banda fez. E de repente a faixa de abertura acaba. Como se tivesse sido censurada. A propósito, ela se chama « Silence » – e assim o silêncio se faz.
Logo depois, em « Hunter », momentos de beleza ímpar: violão, moog e as batidas inconfundíveis. O disco vai ficando irresistível. Parece uma volta a um quarto escuro, depois de umas doses de vodca; mas é outro quarto, outra bebida (gim? uísque? ou, já que o disco abria com um vocal em português, CACHAÇA?). Em « Nylon Smile », logo em seguida, Beth Gibbons manda os versos mais devastadores desde « The past is a grotesque animal », do Of Montreal: « I don’t know what I’ve done to deserve you / I don’t know what I’d do without you ». Texturas orientais emolduram sua voz, que parece um fio de nylon prestes a se romper. E o rasgo (« The rip ») é com o passado, na quarta música: acreditem, o Portishead está fazendo rock and roll. Um clima tenso domina a paisagem, que mais parece uma perseguição policial em preto-e-branco, bastante acelerada. Mas a seguir, em « Plastic », tudo volta a andar devagar; Beth, como uma menina de coral, parece narrar os últimos momentos dos detetives em busca do assassino, escondido em um galpão industrial.
Já estamos na metade do disco, e « We carry on » tem um quê de Interpol, em sua malemolência: a voz de Beth Gibbons vem cheia de eco, acompanhada por sintetizadores que soam como sinais de alerta. Você consegue imaginar um alerta dançante? É por aí. Ela diz não conseguir sobreviver ao tempo e aos passos, e que não consegue escolher por qual caminho seguir. Para nós, apenas um caminho existe: continuar ouvindo.
Está achando tudo indigesto e quer parar? O bandolim na abertura da curtinha « Deep water » é um convite ao relaxamento. Mas a paz logo é abalada por « Machine gun », cuja letra é, sem dúvida, uma metralhadora: ela se diz assustada e pede para que constatem que seu coração está envenenado, enquanto os sintetizadores e a bateria eletrônica transformam tudo em um metal industrial à moda alemã, sem as guitarras.
Depois vem a maior música do disco, « Small »: sete minutos de Beth Gibbons apanhando de andróides replicantes; « Magic doors », até agora a melhor canção de « Third », parece uma canção pop estilo Antena 1 possuída pelo demônio, que vai brincando em um estúdio montado no inferno. E encerra com « Threads », uma aula de como fazer guitarras roubarem a cena.
No final das contas, « Third » traz a sensação de que o Portishead passou os últimos onze anos jogando uma única partida de War e ouvindo tudo o que foi lançado desde então (« Come to daddy » do Aphex Twin, Chemical Brothers fase « Surrender », Moby, Groove Armada, Four Tet, Interpol, The Streets, Kenneth Bager, Burial, Justice, « In Rainbows », do Radiohead). Ao final da partida, com a vitória dos exércitos brancos, a banda olhou para todos os discos que ouviu e apenas pensou: « vamos fazer melhor ». E conseguiu.