carioca da gema
como todo mundo sabe, paulistano é uma desgraça, salvo saudáveis exceções. carioca, ao contrário, sabe aproveitar. não resisti a entregar boa parte da “Gente boa”, do Globo de hoje, aqui. sintam só a vibe. que vontade de encarar um pôixxxto nove agora…
Areias escaldantes
Basta uma voltinha para constatar: O Posto 9 encaretou neste verão. Ma non troppo . O apito e as tanguinhas são coisa do passado. Os hippies também sumiram. Mas em compensação, toda tarde um vendedor com senso de oportunidade oferece o seu “cuscuz da larica” aos espectadores do pôr-do-sol. Que, sim, continuam aplaudindo o momento em que ele se põe atrás do Morro Dois Irmãos. O cuscuz? Vende muuuuito.
“Aqui não tem mais hippie, não. Passou”, diz a estudante de educação física Vanessa Machado, sob a ducha de água doce instalada ao lado da barraca de sanduíches de lingüiça de Milton Gonzalez, o Uruguaio. É ali que se esconde o “muso” do Posto 9. Marcelo, filho do Uruguaio, é, além de moreno, tatuado e forte, mais um adepto da nova moda, talvez involuntária, dos homens naquele trecho: usa o sungão bem abaixo da linha da cintura. Paga cofrinho com gosto, o último grito entre os garotos de Ipanema. E, pára com isso, não gosta muito de ser chamado de muso. “Lá vem vocês de novo com essa história”, finge que reclama, com bom humor, enquanto abre o centésimo coco do dia.
Os uruguaios estão por toda parte no 9. Tá tudo dominado. Se na areia quente Milton é rei, perto d’água Leonardo Buarque, seu conterrâneo, é quem dá as cartas. Botou ali, bem na beirinha, sua cadeira de massagem e conseguiu fugir do calorão lá de cima. Fatura R$ 45 por hora e tá feliz da vida. “É más fresquito”, diz, com sotaque carregado.
Não só no 9, mas em todas as praias do Rio, a ocupação da areia é feita em duas faixas distintas, cada uma com seu público. Paulistas, mineiros, turistas e gringos em geral ficam mais longe do mar, na areia mais quente, mas pertinho das barracas de bebida. As mulheres, algumas delas com argolona nas orelhas, circulam, pasmem, às vezes até de maquiagem.
Cariocas preferem a parte “más fresquita” do quase mar. No rosto, um bom protetor solar. E só. Carlos Magno Cesarano, dono do quiosque Quase 9, tirou outra conclusão sobre os cariocas baseado em seus 13 anos de janela no lado ímpar da Vieira Souto. “Só mulher que não é daqui que costuma andar de biquíni na calçada. As cariocas não fazem isso nunca. Repara só.”
Magno tem no quiosque um sininho pendurado, que é badalado a cada mulher bonita que passa a caminho do mar. Elas adoram. “Mas eu badalo o sino também para pessoas ilustres”, diz. Gente tipo Chico Buarque, que ainda dá tchauzinho. Maior onda. Certa vez, Tom Jobim também foi homenageado. E gostou. Tanto que deixou um bilhetinho dos mais carinhosos para Magno.
Os hippies, aqueles hippies de verdade, fiscais da natureza e que ganhavam um trocado vendendo seus artesanatos, sumiram mesmo. Escafederam-se. Mas as rodinhas de violão continuam por lá. São raras de se ver, mas que las hay, las hay. “Eu não sou hippie, não. Muito pelo contrário, trabalho com informática”, explica o músico Ronaldo Januário, que, sob um guarda-sol, tirava um som do violão ao lado da parceira Kaisa Pereira, com quem forma a dupla “Os Lúdicos”. Eles contam que só tocam o que gostam. “Basicamente Cássia, Moska, Nando, Calcanhoto e alguma coisa dos Beatles”. Sacô? Kaisa também não se considera nem um pouco hippie. “Hoje em dia não rola de ser hippie. Não dá pra gente viver sem ter um trabalho, né?”
No quesito gastronomia praiana, naquele trecho da praia e em todos os outros, há poucas novidades. Os picolés mais vendidos continuam sendo os de manga e de coco. Bebidas: mate, guaraplus e cerveja. Novidade, novidade mesmo, só a volta do mate em barril, mas o povo fica dividido entre os que o consideram meio nojento, porque acreditam que ele é feito com “água da bica” e os que acham-no muito melhor do que o que é vendido em copinho. É menos aguado.
Um pouquinho antes do 9, na Vinícius de Moraes, a figura mais conhecida é o jogador de futevôlei Hugo Felix, 52 anos de praia. Aos 72, ele se gaba de nunca ter usado protetor solar. “Usar pra quê? Faz mal.” Hugo, sem querer tirar onda, acredita que o futevôlei tenha nascido ali, com ele e sua turma, há cerca de 30 anos. Jogar bola fora das redes de vôlei e dos campos de futebol de areia era proibido, ele conta. A polícia mandava parar, confiscava as bolas, um horror. “A solução foi jogar futebol na rede de vôlei.” Nascia ali, um pouquinho antes do Posto 9, o futevôlei. Mais uma moda criada por lá.