das aberrações
esse texto faz parte da coluna de hoje do João Ximenes Braga no Globo de hoje, e só está aqui porque eu também morreria feliz sem ver outra esquadria de alumínio na vida…
Estampados
Dentre as muitas implicâncias que tenho com a Humanidade, há o item sofá estampado. Explico. Há muitos e muitos anos, quando saí da casa dos pais e precisei comprar móveis, descobri, chocado, que era quase impossível achar um sofá simples, liso, de linhas sóbrias. Eram caríssimos, só encontrados em lojas de design. Nas lojas barateiras, só havia sofás rebuscados, cheios de curvas, com detalhes em compensado imitando mogno e estampas rococó-cocoricó. Culpa da Revolução Francesa.
No meu delírio histórico, via as hordas de famélicos invadindo Versailles — o ambiente mais medonho onde já entrei — e ficando de queixo caído com a decoração. Imaginava-os, entre uma e outra palavra de ordem, fazendo sketchs do mobiliário para imitar mais tarde, quando sobrasse madeira da construção de guilhotinas. Daí, por séculos, o Ocidente se viu imerso no pior dos mundos estéticos: pobre arremedando mau gosto de rico. O raciocínio pode parecer elitista — e contraditório, vindo de alguém que ainda se identifica como de esquerda. Talvez seja. Mas os sans-culottes precisavam pegar logo os piores hábitos da nobreza? Espalhar pelo mundo a feiúra solidificada de Versailles?
Esse papo voltou esta semana numa insuspeita mesa do Serafim, botequim tradicional de Laranjeiras. Insuspeita pois nenhum dos cinco éramos decoradores, designers ou tínhamos a pretensão de entender do assunto. Muito menos havia intenção de fazer metáforas com a crise do PT. Começou quando alguém relatou seu périplo por Benfica em busca de luminárias baratas, para descobrir preços iguais aos da Zona Sul. Falava-se de coisas comezinhas de moradia, preços, móveis, preços, utilitários, preços. Ajudado pelos chopes, expus a supracitada teoria culpando a Revolução Francesa pelos males estéticos do mundo, e o tema galopou. Segue aqui uma sucessão de diálogos sem dono coletados à mesa.
— Bobagem. Muito pior que a Revolução Francesa foi a Bauhaus. O Rio ’tá assim por culpa daquilo que a Sérgio Dourado achava que era Bauhaus.
— Mas o princípio é o mesmo. Depois que a Revolução Francesa tirou dos nobres o privilégio do exagero, a elite foi atrás da simplicidade. Isso terminou com a classe média estuprando a Bauhaus.
— Terminou, não. Começou. Terminou com o estilo clean dos anos 90 e da “Wallpaper” virando aglomerado na Tok&Stok, e agora até na Ponto Frio.
— Vocês são todos malucos! Estão querendo o quê? Um mundo cercado de pátina e falso rústico? Essa atitudezinha de “vou dar um clima de Provence ao ambiente”? Essa elite de terceiro mundo que fica imitando caipira da França? Essa cabecinha de PSDB?
Silêncio.
Vi-me obrigado a intervir:
— Voltando ao assunto, só sei que morreria feliz sem nunca mais ver uma esquadria de alumínio.
E ficamos sem conclusão. Só uma leve impressão de lei do eterno retorno.