figurinhas
eu coleciono figurinhas sobre a Islândia. mas as figurinhas vêm em forma de textos, como este do Mário Sérgio Conti, publicado no No Mínimo:
Islândia visitada: neve, lava, nada
28.02.2004 | “Por que, você poderia indagar, alguém pensaria em visitar a Islândia no inverno?” – a pergunta, surgida do nada, estava num dos guias que li depois de comprar a passagem para passar a semana do Carnaval na Islândia, vem no meio do inverno. E o pior é que o guia (australiano) conseguia citar só um fato positivo na resposta: não há turistas. Em compensação, dizia que no inverno os dias são curtos, que boa parte dos hotéis e museus fecha, que o frio é polar, que a falta de luz solar faz com que a depressão adquira dimensões de catástrofe etc, etc.
Coisa de australianos, pensei. Mas um outro guia (franco-islandês) sequer imaginava a hipótese de se visitar o país no inverno. Todas as fotos e verbetes diziam respeito ao verão islandês, que dura quarenta e cinco dias, e no qual a temperatura média é de estonteantes dez graus centígrados.
Por quê, então? Porque de Paris a Reykjavík são três horas de vôo. Porque o avião e os hotéis são relativamente baratos. Porque alguma lembrança infantil (seria a “Viagem ao centro da Terra”, de Jules Verne?) me empurrava para lá. Porque o nome “Islândia” é sensacional. Porque amigos – o Joaquim, a Branca e o João – estiveram lá e adoraram.
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Neve é muito bacana no cinema, que sonega uma informação essencial: o frio. Quase às nove horas da manhã, quando o sol se levanta do Atlântico Norte, tinge de rosa uns fiapos de nuvem e acende de branco montanhas e geleiras eternas faz da aurora islandesa um espetáculo único. Um espetáculo melhor apreciado da janela da fazenda que serve de hotel (e na qual não há outros hóspedes) com uma caneca de café aguado. Porque lá fora faz sete graus negativos e venta tão forte que, digamos, meia hora ao ar livre são o suficiente para detestar e fugir da natureza.
A neve real é hostil, não tem nada do encantamento cinematográfico.
Dirigir na Islândia é difícil. Além de nevar, chove. Uma camada de gelo cobre trechos do asfalto. Quando se breca, ou se vira a direção com rapidez, se perde o controle do carro. Mesmo com sol, venta. Venta furiosamente, balançando e desequilibrando o carro. Em alguns campos de lava, a areia marrom bate com força na lataria, provocando um barulho aterrorizante.
Não há quase ninguém nas estradas. É possível dirigir horas sem ultrapassar ou ser ultrapassado por outro automóvel. Casas, só ao longe de quando e quando. As estradas são boas mas nem tanto (graças aos céus, não há rodovias de pista dupla) e estão sempre vazias. É preciso calcular, com o guia na mão, até quando a gasolina dá.
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A paisagem islandesa muda. Numa hora, montes brancos de neve. E imensos lagos congelados. Outra hora depois, escarpas marrom-escuro altíssimas. Mais uma hora e o chão virá um deserto ocre. Depois, lava, só lava: rochas negras cobertas de musgo verde-escuro. Nada que lembre paisagens visitadas. Poder-se-ia estar em Júpiter ou Marte.
Não há árvores na Islândia. Quando muito, mirrados pinheiros (vi quatro) obviamente transplantados e mal adaptados. Todos os legumes e frutas são importados. Ou então são cultivadas em estufas. A vegetação, quando existe, é rasteira.
Animais há: os cavalos islandeses. Que são os únicos que resistem ao inverno. São pequenos e peludos. Parecem saídos de contos de fadas.
Não há propaganda nenhuma nas estradas. O que reforça o vazio, o inusitado da paisagem islandesa. De desolação, pois se associa (erradamente) a ausência do humano à tristeza ou à esterilidade.
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A Islândia é um país novo, no sentido geológico. A atividade vulcânica é intensa, mormente a sub-glacial. O que faz com que metade da energia consumida pelos 370 mil islandeses seja de origem vulcânica. Uma energia limpa e barata que, literalmente, brota da terra.
Há duas palavras islandesas conhecidas internacionalmente: saga e gêysir. Saga significa história e estória, relato. Gêysir era o nome de um geiser, hoje extinto, que cuspia água de sete em sete minutos.
Mas felizmente há outros em atividade. É um fenômeno maravilhoso: a água sobe quase cinquenta metros de uma vez só, num jato, num barulhão, parece que vai cair em cima de nossas cabeças, e desaba célere sobre si mesma, desparecendo num passe de mágica.
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A Islândia cheira a ácido sulfúrico, de tanto vapor que brota de dentro da terra. Um dos locais turísticos de maior movimento é a Lagoa Azul. A lagoa tem margens de rochas de lava e fundo de silício. De dentro e das bordas sobem rolos espessos de fumaça branca.
A dois quilômetros de profundidade, na lava em estado de fusão, a temperatura é de 240 graus centígrados. A água, que é salgada, chega à superfície a setenta graus. E é canalizada para a Lagoa a mais de trinta e menos de quarenta graus.
No inverno, é claro, não há turistas na Lagoa Branca. Não há, na verdade, ninguém. De modo que o vestiário, imenso e limpíssimo, fica a seu dispor. Você toma banho de chuveiro (nu e de sabonete, conforme as regras), bota o calção, sai, quase congela, e entra na Lagoa quente, com sua água espessa, azul-leitosa.
Quanto mais você se aproxima dos rolos de fumaça, mais quente a água fica (“Papa, je suis en train de brûler mes fesses!”), mas logo se acha o ponto ideal. E não se quer mais sair desse ambiente irreal.
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A mesma atividade vulcânica explica a proliferação de saunas e piscinas pela Islândia. Qualquer vilarejo com trezentos habitantes tem a sua piscina pública – com água quente, sauna e vestiário impecável – geralmente de cinquenta metros, cercada de piscinas menores, e mais quentes, e saunas secas e a vapor.
O programa no final da tarde é ir para a piscina. Inclusive no inverno. E lá ficar, indefinidamente.
Na piscina de Hveragerdi, tive a experiência inédita de nadar debaixo de neve.
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Todas as pessoas com quem falei na Islândia sabiam inglês. É virtualmente impossível se orientar em islandês. As palavras são enormes: até ler o nome da próxima cidade, a placa já passou. Não dá para visualizar as palavras, imaginá-las sonoramente.
Para ficar no exemplo extemo, segue a palavra mais longa da língua, que quer dizer mais ou menos chave-mestra-que-fica-com-a-estagiária-de-um-escritório-de-advocacia: Haestarjettarmalaflutrunesmanskiftstofustulkonutidyralykill.
O que é problema também para ler as sagas, que têm centenas de personagens, todos com nomes enormes, indistinguíveis.
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A televisão islandesa começa suas transmissões às seis da tarde e as encerra às dez da noite. O telejornal mais importante vai ao ar às sete horas e dura sessenta minutos. Num restaurante de beira de estreada, jantávamos olhando a televisão, junto com uns islandeses. O telejornal mostra todas as noites alguns trechos de discursos no parlamento. Um deputado falou algo, o islandês ao lado me olhou, bufou e balançou a cabeça: o gesto universal de reprovação aos políticos, imediatamente compreendido.
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A Islândia abalou uma das minhas opiniões mais firmes, a de que as brasileiras são as mulheres mais mal-vestidas do mundo. Como as islandesas conseguem, é um mistério. São aconpanhadas também pelos homens.
Metade das islandesas parece com a cantora Bjork, que parece ter feito grande sucesso no Carnaval baiano. A outra metade é loira e de olhos azuis. A altura média delas é 1m90.
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Pior que a elegância, só a culinária islandesa. Nada de bom para comer. E tudo caríssimo, pois tudo deve ser importado.
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Lagos, cachoeiras, rios e mares congelados provocam uma sensação estranhíssima. João escreveu dizendo que o rio, a imagem por excelência do tempo, quando congelado, sugere que o tempo parou. É verdade. Mas parou também a própria noção de espaço: não há barulho, as gotas estão imóveis no ar, a paisagem ficou em suspenso, esvaziada de sentido.
Uma das cachoeiras, imensa, jorrava normalmente, espalhando bilhões de gotículas que, iluminadas pelo sol, formavamarco-íris em movimento.
Uma das praias, de basalto, era de areia negra, mais negra que a asa da graúna.
A Islândia é ao contrário.
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Visitá-la no inverno é ter acesso ao avesso, é ver a vida ao inverso: neve, lava, nada.