conquistando o oeste
meu amigo Daniel veio aqui em casa hoje. eu odeio ser acordado e estava dormindo na hora, mas adorei que ele veio. estudamos juntos do pré à terceira série, viramos melhores amigos, cresci junto com ele e seus irmãos. anos atrás, ele foi morar em Jacareí, por saber que aqui, pobre aqui, não teria nada pra ele progredir (como de fato não tem pra ninguém, vide o amigão da vizinhança, estabelecido em Goiânia).
depois que ele foi embora (foi uma visita de médico), comecei a abstrair e abstrair. e lembrei que tenho o “Automatic for the people”, oitavo disco do REM, top 20 de todos os tempos e… um disco que me faz lembrar de lugares. pessoas. coisas. fatos envolvendo lugares, coisas, pessoas, aquilo que a gente passa de verdade e, quando lembra, às vezes imagina que tudo aquilo não aconteceu, mas sim, rolou.
o fato de ele ter vindo aqui me fez lembrar um texto do amigão da vizinhança, onde ele dizia:
“As amizades tornaram-se dispensáveis, o que vale são os negócios. Os romances tornaram-se mais cínicos, afinal, a moda é transar na internet. Se quiser falar comigo, me mande um e-mail, e não toque a campainha de casa sem avisar. A música ficou impessoal. Os escritores ficaram impessoais, quem ousasse se abrir em um texto, era/é um trouxa.”
mas eu não consigo dispensar esse tipo de relacionamento, muito menos quero.
daqui a um tempo, se esse processo se intensificar, será que nós:
a. vamos achar que as amizades eram anti-higiênicas;
b. vamos marcar um encontro frio pra ver se amizade dá pra se requentar no microondas
ou c. vamos chorar de saudades uns nos ombros dos outros.
eu não sei, apenas queria achar o rio (não o de janeiro, mas o de julho) e seguir minha vida no leito dele. eu estou em Brasília. estou indo embora com várias roupas que comprei na cidade, mas o coração, por debaixo de todas elas, fica. eu queria ter uma cidade tão bonita quanto Brasília para mostrar a quem me mostrou a capital do Brasil, aliás eu queria mostrar uma cidade tão bonita quanto Brasília pra quem quer que fosse. mas não dá pra considerar de onde eu venho.
“Nightswimming”. achar o rio, mergulhar nele, dizer adeus sem querer ir embora. tenho uma boa notícia pra te entregar junto com o café da manhã, só tenho medo que você se engasgue com ela. meus amigos estão ali, me esperando pra voar. Brasília não é só uma cidade dos sonhos, mas uma cidade que me mostrou que os sonhos são realizáveis. lá eu não preciso voar, embora o possa fazer acelerando meu carro na passagem da Asa Sul pra Asa Norte. e por mais que o avião se vá, eu volto. com meus amigos.
“- meu deus, quanto tempo!” – eu disse, porque realmente era muito tempo.
“- pois é, você sumiu…”
“- eu sumi ou você apareceu demais?”
ele riu. como é bom ver um amigo rir.
“- você só não apareceu pra mim. mas agora tá tudo bem. e nós temos umas décadas pra consertar isso…”
ele riu de novo. aí eu ri também. “Find the river” acabou, mas a amizade não. certas coisas são páginas viradas na minha vida, mas às vezes a gente tem que voltar uns capítulos na leitura pra entender melhor os próximos. quanto à enquete ali de cima, se você respondeu C, me escreva. se respondeu A ou B, me escreva também. e se não respondeu nada, escreva, nem que seja pra me perguntar algo que eu não saiba…