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vamos voltar a 1995. eu tinha 13 pra 14 anos e estava na oitava série, no único ano de vida em que estudei em colégio público. meu grupo na sala era constantemente sacaneado pelos grandões, repetentes; eu era a principal vítima das sacanagens. um dia, um deles, chamado Gladyston, pegou uma arma de bolinhas e meteu um tiro na minha cabeça. ao invés de ficar quieto, corri pra diretoria. minha mãe foi até chamada à escola, perguntou a ele o motivo daquilo, coisas do tipo. sei que, no final das contas, viramos bróders. não amigos, mas ele parou de me sacanear e começamos a trocar idéia; curiosamente, Gladyston, dois anos repetidos àquela época, era o único santista da sala além de mim.

com o tempo, descobri que ele não gostava muito de seu nome, preferia seu segundo nome (Marcelo). desde então, passei a chamá-lo de Marcelo, fato que ele gostava. um dia, bem no final do ano, ele disse que, se um dia eu estivesse jurado pra apanhar de alguém, eu poderia chamá-lo e ele lutaria do meu lado. agradeci, cumprimentei-o e, no final do ano, mudei de escola. como ele morava a três quadras de casa, vez ou outra eu o via: deixou de arrumar tantas encrencas, arrumou um emprego num restaurante ao lado do McDonald’s daqui, onde servia os clientes, cozinhava, dirigia, fazia de tudo. sempre que nos víamos, ele fazia questão de me cumprimentar; eu ainda o chamava de Marcelo, e ele dizia “pô, Dudu, você ainda sabe meu nome completo?”, e sim, eu sabia.

na madrugada de domingo pra segunda, Gladyston foi morto a facadas a 50 metros de sua casa, a duas quadras daqui, por um maconheirinho. desentendimentos de festa, coisinhas frívolas (por incrível que pareça, Gladyston não usava drogas – sua mãe trabalha no Fórum e ele sabia que usar entorpecentes ia causar muita dor de cabeça). eu só soube hoje, ao ver a notícia no jornal – eu sabia que duas pessoas tinham sido mortas perto de casa naquela madrugada, mas nem fazia idéia que uma delas era ele, Marcelo.

que merda, meu deus, que merda.

antecedentes criminais

tem ensaio novo no site The Girl, do Terra, dessa vez com uma garota, muito bonita, chamada Laura Malcher. primeira coisa que eu fui fazer: checar na ficha dela se ela é irmã do J. Malcher. mas não tava marcado.

oi, esse sou eu

Benjamin “Bugsy” Siegel (1906-1947), mafioso com boas relações em Hollywood, dentre outras coisas. diz aí, eu era boa pinta ou não numa das minhas últimas encarnações?

automático

esse Honda Fit até seria legal, se a versão automática, top de linha, não passasse de 35 mil reais. como custa dez mil a mais, dá vontade de ressuscitar aquela frase do meu amigo Fábio Nogueira Bertoletti, dentista e filósofo: “dar o quer você não c*, né?”

grandes momentos da história

Brett Anderson cantando “The power” em francês, acompanhado pelo violão de Richard Oakes e saudado aos urros por uma platéia parisiense ensandecida, em fins de 1994. pegue aqui e guarde no coração.

nota: esta versão (e a cena da ocasião) estão no vídeo “Introducing the band”, recentemente relançado na Europa no formato DVD, recheado de extras. sai nos EUA daqui a uns meses.

galhofa

eu e meu querido Ricardo Henrique Montenegro Cima, o Gas, vamos compôr, durante o mês de julho, uma música em homenagem a nosso bróder Marcus Dunlop. a parceria tem o título provisório de “Deu Urso no bicho”.

cortada

essa é pro Jardel comentar: o Peter Buck, guitarrista do REM e Lúcio Ribeiro cover, disse que o próximo disco da banda terá canções “tão boas quanto as que a gente sempre escreveu”. pra mim, a frase está incompleta: ele esqueceu de dizer se parece com as canções pré-1997 ou pós-1997. mas disse que o novo disco lembra bem o “Document”… que é um disco nota 8, vá lá.

Roberto Campos para economistas de Adidas e cabelo tingido

frase original, ditada por Marcio Porto: “democracia é bom, o chato é essa história de ter de precisar de votos”.

frase adaptada pro meio alternativo: “indie rock é legal, o chato são os indies”.

eu tô de saco cheio com o povo indie. irritado demais. cansado de ouvir certas coisas, cansado de ler certos blógues, cansado de conversar sobre certos assuntos, sick and tired and homeless, afinal. eu tenho é que tirar umas férias de internet e de 95% das pessoas que gostem do “OK Computer”. aaaaaargh, saiam da minha frente.

on the road

já dizia Roberto Dylan, “when you got nothing, you got nothing to lose”. aí o Bino, que só tem 50% de chance de se curar, mandou essa pro ladrão do caminhão, quando ele tava dizendo que ia atirar: “vai tremer, eu vou tirar essa arma e vou enfiar no teu rabo”. aposto que se o médico não falasse isso, ele não ia falar. mas eu gostei. Carga Pesada comanda. desse monte de revivals dos anos 1980 (RPM, terno de quatro botões, io-iô crem, Gol 1.6, pop sintetizado rebatizado de “electro”), o do Carga Pesada parece ser o único interessante…

barateiro

ter singles do Blur por enquanto não é minha prioridade absoluta. mas eu quero ter todos os do “The great escape”, aquela obra-prima deles. acabei de começar minha coleção: arrematei no eBay a parte 1 do single de “Country house” (aquele mesmo, que ganhou a disputa contra “Roll with it”, do Oasis). o preço? assustadores £ 0,10 (aproximadamente 0,45 BRD). com o frete, saiu a 9,70 BRD (brazilian dollars). maravilha…

a marcha inexorável do tempo

se um dia apontarem o Radiohead como a banda que definiu minha geração, eu vou ficar muito feliz. dizem que cada década teve a banda que mereceu. sendo assim, os anos 1960 foram um inferno com os Beatles, por exemplo. quando vi a notícia no NME sobre o conceito do projeto gráfico do “Hail to the thief”, fiquei orgulhoso. acho que já posso considerá-los a maior banda da história.

infelizmente, a caça às bruxas com o Radiohead continua implacável. tudo porque a banda continua querendo evoluir. se consegue, ok, é uma outra história, mas o simples fato de querer ir mais longe já os deixa com um grande crédito comigo. em cinco discos de estúdio mais um ao vivo, tomei quatro sustos com a banda – de ficar impressionado, de ver meu queixo cair ao chão. a primeira vez que ouvi “High and dry” foi um choque; a primeira audição do “OK Computer”, outro; “Idioteque” me deixou transtornado, e a versão ao vivo de “Like spinning plates” fez o mesmo. eu acho o “Amnesiac” o disco menos forte deles, mas quem me dera fazer um disco assim.

e pelo amor de dEUS, não faz sentido fazer outro “The bends”. eu entendo que as pessoas o considerem o melhor disco do Radiohead (eu só acho ele melhor que o “Amnesiac”), mas eu não entendo porque fazer outro. sinceramente.

bem, voltando lá ao tema inicial, o fato é que o Radiohead parece despertar coisas dentro de mim que nem eu sabia da existência. coisa que, vejam só, nem os Smiths e o Suede conseguem (essas duas falam – e muito bem – de coisas já existentes).

quem canta, seus males espanta

vai, vai, vai, vai, vai, vai

fique comigo

seja legal

conto contigo

pela madrugada

só me derrube no final.

(…)

eu lembro que ela gostava dessa música. eu lembro que eu gostava dela. e da música. hoje ela está formada, amanhã eu vou ser o rei. ontem a gente ouvia a mesma música em lugares separados, depois as pilhas acabaram e cada um foi pro seu canto, sem cantar juntos. hoje o tempo parou, amanhã a banda pode parar. você vira o volante para manobrar o carro, você vira outra pessoa para manobrar a vida. dá certo? dá pro gasto. e a música continua. em outro lugar, com pilhas novas, o mesmo espírito. ótimo, era tudo que eu precisava ouvir. boa noite, meu amor. quando acordarmos, não estaremos mais juntos, mas eu juro que não vou me lembrar de ti como uma boneca inflável ou como um nada. houve um intervalo de tempo onde você era tudo, houve um tudo sem intervalos onde nada mais importava.

12 horas com o fantasma

essa prova de Processo Civil não era pra ser. não consegui estudar pensando em alguém. não era pra ser tão complicado. sentença condenatória, então.

“através dessa sentença, faço saber que condeno o réu a desconhecer os conceitos do Processo Civil.”

aí eu virei pro doutrinador… mas não tinha nem o que falar pra ele.

“- moço, por quê Processo Civil é tão difícil?”

“- não é difícil. você deveria ter estudado.”

“- moço, o senhor conhece meu professor?”

“- não.”

“- deveria, antes de ter falado isso.”

“- você deveria ter feito a sua parte.”

“- por onde eu começo?”

“- pelo começo.”

“- o senhor é tão lacônico assim, moço?”

“- você pode fazer uma interpretação extensiva, restritiva ou exata do que eu digo.”

“- há alguma varinha de condão que me faça aprender o Processo Civil em menos de dez horas?”

“- se você quiser.”

“- se eu quiser o quê?”

“- olha, estude. é só isso que eu posso fazer por você.”

“- ou seja, nada.”

“- interprete como quiser.”

aí eu joguei uma pedra no lago e um peixe me perguntou se eu não tinha comida. disse que não, apenas Processo Civil. perguntei se a pessoa em quem eu pensei estava com ele, ele disse que não. ficamos conversando, quando eu deveria estar estudando. no primeiro ano de Direito você percebe que há um abismo entre o “ser” e o “dever ser”. eu só fui perceber isso três anos depois, antes tarde do que nunca. mas aí o peixe se aborreceu e foi embora. eu fui dormir, o mundo me chamaria amanhã, às seis em ponto, prazo esse que, ao contrário dos prazos processuais, eu posso prorrogar. nem que seja por quinze minutos.

impertinência

“- isso era o que você queria noite passada.”

“- mas não é o que eu quero agora.”

“- e o que é que você quer agora?”

“- não sei.”

“- um tempo?”

“- um tempo. é, talvez um tempo.”

“- marco no relógio?”

“- vá se f****.”

“- desculpa.”

“- deveria?”

“- o quê?”

“- te desculpar.”

“- não sei, pense nisso. você tem um tempo pra isso agora.”

“- mas e se…”

“- se?”

“- nada.”

“- é, nada. eu queria ficar mais um tempo aqui.”

“- …”

“- tchau.”